Peixe primitivo de águas profundas vive até os 100 anos

Celacantos fêmeas também podem gestar seus filhotes por cinco anos, de acordo com um estudo de conscientização sobre o futuro dessa espécie criticamente ameaçada de extinção.

Publicado 23 de jun. de 2021 16:30 BRT
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Celacanto nada na Baía de Sodwana, na África do Sul. Considerado extinto por bastante tempo, animal foi redescoberto em 1938.

Foto de Laurent Ballesta, Nat Geo Image Collection

Celacantos — peixes primitivos de águas profundas que se acreditava terem sido extintos com os dinossauros — surpreenderam os cientistas mais uma vez. Segundo novo estudo, esses “fósseis vivos” de quase dois metros de comprimento podem viver até 100 anos, cinco vezes mais do que se pensava.

Nova análise das escamas de celacantos-africanos — uma das duas espécies conhecidas — revela que sua expectativa de vida foi estimada de forma errônea como sendo de apenas 20 anos.

Essa não foi a única descoberta: é provável que celacantos fêmeas gestem seus filhotes por cinco anos, três anos a mais do que se acreditava — e a espécie atinge a fase adulta após os 55 anos, de acordo com o principal autor do estudo, Kelig Mahe, do Ifremer, instituto francês de oceanografia. 

A curta expectativa de vida anteriormente estimada para o celacanto nunca coincidiu com suas baixas taxas de reprodução, metabolismo lento e baixa absorção de oxigênio — todas as características de animais marinhos de amadurecimento lento, como tubarões de águas profundas

“Essa questão era um enigma até então”, relata Selena Heppell, chefe do Departamento de Pesca, Vida Selvagem e Ciências da Conservação da Universidade Estadual de Oregon, que não participou do estudo. “Agora faz muito mais sentido.”

Contudo os resultados, publicados recentemente na revista científica Current Biology, mostram que o peixe criticamente ameaçado de extinção é bem mais vulnerável a ameaças como pesca acidental ou eventos climáticos extremos.

Aprimorando os estudos

Em 1977, o primeiro estudo sobre o tempo de vida dos celacantos se concentrou em estruturas calcificadas denominadas macrocírculos nas escamas de 12 espécimes de celacantos-africanos provenientes de museus. Acreditava-se que esses macrocírculos eram como os anéis das árvores ou os núcleos de gelo, marcações que registram intervalos de tempo.

Com base nas formações regulares de macrocírculos que cresceram nas escamas desses animais, cientistas da época concluíram que os macrocírculos formavam-se provavelmente a cada dois anos — após a revisão do estudo, considerou-se uma formação anual, o que resultou em uma expectativa de vida de 20 anos.

Em busca de mais dados, Mahe e sua equipe recentemente examinaram 27 espécimes de celacantos-africanos, conservados no Museu Nacional de História Natural em Paris e capturados entre 1954 e 1991, incluindo um espécime jovem e dois embriões.

Quando a equipe observou os macrocírculos com um microscópio de luz transmitida, assim como as equipes anteriores, constataram os mesmos resultados que os cientistas da década de 1970.

Pistas escondidas

Mas quando examinaram as escamas de celacantos novamente, mas dessa vez por meio de microscopia de luz polarizada — uma técnica mais avançada que reduz o brilho e aprimora as imagens — houve uma mudança. A luz polarizada revelou a presença de diversos microcírculos menores dentro dos macrocírculos. A análise desses microcírculos também revelou que eles se formam anualmente.

A contagem desses círculos menores, considerando sua formação anual, estipulou idades entre cinco e 84 anos para os espécimes do museu, muito mais compatível com a biologia conhecida de celacantos.

Análises posteriores utilizando medidas padronizadas para classificar o amadurecimento de espécimes de animais confirmou esses resultados, o que significa que o celacanto possui um dos metabolismos mais lentos do oceano.

Para descobrir o período gestacional do celacanto, a equipe mediu as escamas dos espécimes embrionários utilizando os mesmos métodos usados nos peixes adultos, análise que revelou que a gestação de um celacanto dura cinco anos.

Embora os cientistas não tenham estudado a espécie relacionada celacanto-indonésio, também criticamente ameaçada de extinção, eles esperam aplicar a mesma técnica de estudo à espécie.

Resultados convincentes

Os resultados do estudo são convincentes, afirma Brian Sidlauskas, ictiologista da Universidade Estadual de Oregon, que não participou do estudo.

Segundo ele, o estudo possui uma abordagem estatística abrangente, fazendo os cientistas “se questionarem se acreditam nesses dados”. 

Mark Terwilliger, especialista no crescimento de peixes do Departamento de Pesca e Vida Selvagem do Estado de Oregon, observa que, como as escamas dos peixes podem se desprender e ser reabsorvidas pelo corpo à medida que o animal envelhece, elas não são uma estimativa confiável para revelar a idade de peixes longevos.

Além disso, não foi demonstrado que microcírculos nas escamas de outras espécies de peixes ósseos correspondam à idade de um animal.

“Dito isso, os resultados desse estudo são o que se espera para um peixe abissal de amadurecimento lento”, escreveu Terwillger por e-mail.

‘Particularmente vulneráveis’

Os resultados constituem notícias preocupantes para esse peixe raro, que normalmente vive a mais de 700 metros de profundidade na costa leste da África.

Se um celacanto morrer antes de se reproduzir, o animal não pode contribuir para as populações já em declínio da espécie, ressalta Mahe. Celacantos-africanos provavelmente produzem uma ninhada de três a 30 filhotes a cada cinco anos. 

Isso significa que celacantos-africanos são “particularmente vulneráveis a qualquer interferência”, conclui Mahe, cujo interesse é estudar se o aquecimento dos mares devido às mudanças climáticas pode afetar os celacantos.

Heppells acrescenta que o estudo “nos lembra de que ainda há muito que não sabemos sobre as profundezas dos oceanos”.

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