Como a pandemia de Covid-19 afetou a saúde mental dos brasileiros

Solidão, medo de se infectar, sofrimento: no Dia Mundial da Saúde Mental, data escolhida pela ONU para aumentar a conscientização sobre o tema, especialistas apontam os impactos no bem-estar emocional causado pelo espalhamento do vírus.

Uma mulher grávida olha pela janela enquanto está em quarentena em casa em los Angeles, Califórnia.

Foto de Bethany Mollenkof
Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 10 de out. de 2022 10:21 BRT

A pandemia de Covid-19 impôs desafios sem precedentes ao mundo. O baque foi sentido além do impacto na economia e nos serviços. Por conta do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado anualmente em 10 de outubro, especialistas apontam que a perda de milhares de pessoas e os níveis de estresse e ansiedade elevados devido ao isolamento social deixaram marcas na saúde mental da população – e no Brasil não foi diferente.

Um resumo científico da Organização Mundial da Saúde de março de 2022 mostrou que, no primeiro ano da pandemia, ou seja, em 2020, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%. 

No caso do Brasil, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em um documento em janeiro deste ano publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas, indica que mais de quatro em cada 10 brasileiros tiveram problemas de ansiedade por conta da pandemia. 

(Veja mais: Covid-19 pode alterar a personalidade? Veja o que a ciência já sabe)

A avaliação dos dados deixa claro que a pandemia teve um grande impacto na saúde mental das pessoas. Mas as causas  variam. “A pandemia abalou a população de forma significativa. Sair de uma vida presencial para uma vida online, os riscos à vida, mudanças financeiras e  até as questões políticas que circularam durante o período causaram preocupações, conflitos e sofrimentos”, avalia, Henrique Bottura, psiquiatra no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

O que é saúde mental? 

A saúde mental é entendida como um estado no qual o indivíduo está bem o suficiente para lidar com as situações cotidianas.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), o termo refere-se a um bem estar no qual o indivíduo desenvolve suas habilidades pessoais, consegue lidar com os estresses da vida, trabalha de forma produtiva e encontra-se apto a dar sua contribuição para sua comunidade.

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Uma instrutora de ioga ministra um workshop sobre imunidade em seu estúdio. Nairobi, Quénia.

Foto de Nichole Sobecki

O impacto da pandemia na saúde mental do brasileiro 

“Solidão, medo de se infectar, sofrimento e morte de entes queridos, luto e preocupações financeiras também foram citados como estressores que levam à ansiedade e à depressão”, diz o documento da OMS. Ele detalha os múltiplos fatores de estresse ligados ao isolamento social decorrente das medidas de prevenção ao vírus, bem como de seu espalhamento. 

(Veja também: Covid longa ainda é um mistério. Confira a luta de uma paciente por tratamento)

Para Luiz Scocca, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da USP e membro da Associação Americana de Psiquiatria (APA), são muitos os fatores que aumentaram os níveis de estresse na população brasileira: “Podemos citar o medo gerado pela doença em si, suas sequelas, letalidade, assim como perda de empregos, fechamento dos negócios e todo impacto econômico”, diz ele. O médico também considera importante lembrar um outro tópico: “A interrupção de serviços de entretenimento, que trouxe enorme insegurança e contribuíram para esse efeito na saúde mental”, diz o médico. 

“Em um momento no qual cuidados e tratamento são mais necessários, houve interrupções contínuas em serviços essenciais para transtornos mentais, neurológicos e por uso de substâncias em mais da metade dos países da região.”

Além disso, Scocca também menciona como o acesso restrito a recursos e apoio social para manter a saúde mental durante a pandemia, colaborou para os números que se vê desde então: “A estrutura dos nossos sistemas de saúde foi sofrível tanto no combate da doença quanto no cuidado com a saúde mental da população”, afirma. 

A Opas endossa o que diz o especialista e alerta que houve um problema semelhante em toda a região da América Latina. “Em um momento no qual cuidados e tratamento são mais necessários, houve interrupções contínuas em serviços essenciais para transtornos mentais, neurológicos e por uso de substâncias em mais da metade dos países da região”, informa o documento publicado em janeiro deste ano. 

Quem foi mais atingido pela pandemia

Scocca, que seguiu atendendo em remoto durante a pandemia, comenta que a saúde mental dos idosos foi bastante afetada no período, principalmente por constarem no grupo mais sensível à doença: “Eles estavam sentindo mais o efeito do isolamento e da solidão”, enfatiza o médico. 

(Você pode se interessar: Como o isolamento pandêmico afeta o desenvolvimento mental das crianças)

Entretanto, a análise da OMS de março de 2022, aponta que o grupo mais impactado pela pandemia em questões de saúde mental foram os jovens. O especialista explica o motivo: “Crianças e adolescentes sentiram muito a questão do isolamento, pelo impacto na rotina da escola e da socialização com os amigos. Outro ponto observado foi o aumento de crises de ansiedade e depressão em jovens”, relata o psiquiatra. 

Já um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que entrevistou mais de 8 mil crianças e adolescentes em nove países da América Latina, indica que a situação econômica e um pessimismo em relação ao futuro foram as principais causas de estresse para esse grupo etário.

Uma mulher segura a mão da avó do lado de fora de um centro de isolamento na Flórida, Estados Unidos.

Foto de EVE EDELHEIT

A saúde mental das mulheres na pandemia

Além dos jovens, os estudos também apontam que a saúde mental das mulheres foi mais severamente impactada do que a dos homens. O relatório da Opas de março de 2022 intitulado Análise de Gênero e Saúde: Covid-19 nas Américas, apontou que a desigualdade de gênero não só potencializou o efeito da pandemia na saúde das mulheres em geral, como também no bem-estar emocional. 

De acordo com o relatório, o papel de cuidadora expôs as mulheres a um risco aumentado de contrair a Covid-19. Além disso, durante os lockdowns para conter a propagação do vírus, elas também passaram mais tempo em casa, “um lugar inseguro para muitas”. Isso porque as chamadas para linhas diretas de violência doméstica aumentaram 40% em alguns países durante esses períodos, como informa o documento da Opas.

Como melhorar o atendimento à saúde mental

Com a pandemia de Covid-19 mais controlada, os especialistas consultados pela National Geographic afirmam que já foi possível notar uma melhora na saúde mental da população. 

“A agilidade com que serviços online foram estruturados para atender quem precisava de acompanhamento psicológico ajudou muito. Apesar de ainda haver desafios para disponibilizar ferramentas digitais confiáveis, eficazes e de fácil acesso”, afirma Scocca. 

Para Bottura, já se notou uma melhora dos quadros de transtornos mentais a partir do fim de 2021. Segundo ele, a volta ao presencial foi algo que também auxiliou. “Retomar uma socialização cara a cara é bom para o organismo”, defende ele. 

Entretanto, ainda há um longo caminho pela frente. “A pandemia escancarou a lacuna nos serviços de saúde mental, expondo diversos desafios e necessidades urgentes de acesso da população”, diz Scocca. 

Para melhorar esse cenário, os especialistas indicam que são necessárias mudanças de atitudes em relação à saúde mental. Aumentar os investimentos na área, tanto em recursos humanos quanto em infraestrutura, e incluir pessoas com problemas de saúde mental em todos os aspectos da sociedade a fim de superar estigmas e discriminações são alguns dos principais pontos apontados.

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