Indígenas veem tradição e cultura se perderem à medida que coronavírus vitima os guardiões dos saberes antigos

Em diversas etnias, os mais velhos têm o papel de transmitir oralmente o conhecimento aos mais novos. A pandemia da covid-19 ameaça não apenas as vidas nas aldeias brasileiras, mas toda a ancestralidade das comunidades tradicionais.

Saturday, July 4, 2020,
Por Flávia Milhorance
Etnia awa durante ritual: nas sociedades indígenas, a preservação da cultura e a transmissão das tradições ...

Etnia awa durante ritual: nas sociedades indígenas, a preservação da cultura e a transmissão das tradições entre as gerações é papel dos mais velhos. A pandemia do coronavírus tem atingido os idosos de forma agressiva e coloca em risco a disseminação do conhecimento oral aos mais jovens.

Foto de Charlie Hamilton James

Um barco-gaiola de três andares, próprio dos rios da região Norte, aportou numa área remota, às margens do Uaupés. Desembarcaram talvez uma dúzia de líderes indígenas e pesquisadores brancos de uma expedição marítima que percorria mil quilômetros refazendo o trajeto de origem dos povos do Alto do Rio Negro, próximo à fronteira com a Colômbia.

Laureano Cordeiro se pôs diante de três fendas numa rocha e anunciou na língua piratapuya: “Vou fazer uma curta narrativa”. O homem altivo, de calças largas, chapéu de palha e pés gastos protegidos apenas por chinelos, prendia a atenção do grupo ao contar como seus ancestrais decidiram, naquele exato ponto no chão, por onde seguir. Ergueram um bastão a norte, sul e leste, mas apenas quando o inclinaram a oeste, ele estremeceu. “Sabendo disso, embarcaram novamente para continuar a viagem rio acima”, concluiu.

Cordeiro era um profundo conhecedor das narrativas dos antecessores de seu povo piratapuya de Pohsaya Pitó, uma aldeia em meio à floresta amazônica que integra o município de São Gabriel da Cachoeira, localizado a 850 quilômetros em linha reta de Manaus. Ele foi um dos protagonistas da incursão que deu origem ao documentário Pelas Águas do Rio de Leite, um dos raros registros dos personagens e das histórias das etnias da região. Cordeiro faleceu aos 83 anos, em 22 de maio, pela covid-19.

“O idoso tem um papel extremamente importante nas sociedades indígenas. Estamos diante de uma perda muito grande do ponto de vista da preservação dessas culturas.”

por Luiza Garnelo
Médica e antropóloga - Ensp/Fiocruz

A devastadora passagem do coronavírus pelo planeta vem tornando os idosos suas principais vítimas. Na China, cerca de 80% das mortes ocorreu entre pessoas com mais de 60 anos. Na Itália, esse índice ultrapassa os 95%. No Brasil, eles somavam 38.744 das mortes – 71% do total – no boletim do Ministério da Saúde com dados coletados até 28 de junho.

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Submersos no anonimato das estatísticas estão pelo menos 122 indígenas com mais de 60 anos, segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) até 30 de junho. Para os povos originários, essa dura realidade vai além do luto; significa perder gigantescos acervos culturais. Os anciãos indígenas são guardiões da sabedoria tradicional, “bibliotecas vivas”, costuma-se dizer. E o coronavírus vem apagando o passado desses grupos.

“O idoso tem um papel extremamente importante nas sociedades indígenas. Estamos diante de uma perda muito grande do ponto de vista da preservação dessas culturas”, lamenta a médica e antropóloga Luiza Garnelo, da Ensp/Fiocruz, que há mais de 30 anos desenvolve projetos e pesquisas na área indígena do Alto do Rio Negro.

‘Um pouco do médico, padre e psicólogo’

Diferentemente das sociedades capitalistas em que o conhecimento está disseminado, as aldeias têm regras para sua transmissão, explica Luiza Garnelo. Os saberes tradicionais não são facilmente encontrados a um clique do computador. São os mais velhos que passam, oralmente, o conhecimento adiante. Geralmente aos netos, já que os adultos estão ocupados demais garantindo a subsistência das famílias. Os idosos ensinam às crianças as regras básicas de sobrevivência, como o conhecimento sobre os recursos naturais, que servem para a alimentação ou construção de moradias.

Há ainda determinadas sabedorias tradicionais que transitam apenas em restritos clãs familiares, também através dos idosos. “Tem o que é especialista em fazer canoa, o outro em tratamentos xamânicos, em narrativas políticas ou como as populações se assentarem nos locais onde estão, no conhecimento do ambiente, dos rios, das matas”, diz Garnelo. “Portanto, a perda de indivíduos singulares que tenham uma apropriação específica é grave.”

Laureano foi criado pelo avô, que o introduziu ao universo de saberes históricos, míticos e terapêuticos. Sua sobrinha, a enfermeira Eufélia Lima, de 34 anos, lembra como era fascinante ouvir, por horas, o tio narrando sagas ou liderando rituais que pediam proteção do povo e a harmonia com a natureza. “Titio tinha esse dom, esse empoderamento”, diz Lima. “Era um benzedor, que é um pouco do médico, do padre e do psicólogo.” 

Ele cresceu às margens do Papuri, curso d'água que divide Brasil e Colômbia. Falava piratapuya, tukano e espanhol. Já o português era escasso. Quando internado no hospital de Manaus, Cordeiro era pouco compreendido, disseram profissionais de saúde a Eufélia. Filhos e netos se mudaram para centros urbanos e tiveram menos interesse e disciplina com o treinamento tradicional. O genro começava a se aventurar. Mas não houve tempo suficiente: o corpo forte e ativo de Laureano foi perdendo vigor, e seu vasto acervo, evaporando nos 20 dias de internação.

Sua irmã Deomida Lima, 72 anos, vive na periferia de São Gabriel da Cachoeira com a filha Eufélia, mas não pôde visitá-lo na unidade de saúde, como tantas famílias separadas pelo coronavírus. “Eu sinto muito porque não pude me despedir na última hora, isso que está doendo muito”, contou à National Geographic Brasil com a voz embargada de choro. “Eu sinto muito a falta do meu irmão, eu não aproveitei tudo o que ele tinha para conversar comigo”.

O ‘tradutor de culturas’

O povoado quase desabitado de Airão Velho, às margens do Rio Negro, foi outro ponto de parada. Os exploradores passavam as noites em redes penduradas no barco gaiola e os dias visitando sítios considerados sagrados pelas etnias da região.

Balançando a rede sob uma construção de madeira, Higino Tenório fala num português articulado sem perder o leve sotaque tukano. Ele conta como o calendário de produção rural de seu povo tuyuka vem, ao longo dos anos, se adaptando às mudanças climáticas. Segundo o ancião, o aquecimento do universo foi previsto pelo Deus Preguiça – numa mistura de narrativas históricas e míticas que nem sempre é de fácil tradução às sociedades brancas.

“Por isto que, às vezes, eu brinco com o antropólogo que estuda comigo: para aprender essa filosofia, esse conteúdo, você primeiro tem que aprender nossa língua”, afirmou numa das cenas do Pelas Águas do Rio de Leite.

Tenório também padeceu pelo coronavírus, aos 65 anos, em 18 de junho, após mais de um mês internado em unidades de São Gabriel da Cachoeira e Manaus. Professor, artesão, tradutor e líder regional, ele fazia um papel de mediador entre o mundo indígena e dos brancos, comenta Aline Scolfaro, antropóloga e diretora do documentário.

“Ele transitava no universo dos conhecimentos mais restritos do mundo dos conhecedores, pajés, benzedores, ao mesmo tempo em que fazia a interface política com os brancos. Ele foi uma figura central do Alto do Rio Negro”, conta Scolfaro.

“Quando a doença entrou no rio Negro, a comunidade parou tudo. Ficamos um mês sem ir à cidade, e não tinha mais evento, nada.”

por Dulce Maria Tenório
Agricultora

‘Um mês sem ir à cidade’

Um homem atendeu ao toque do orelhão, a única forma de comunicação da comunidade indígena de Curicuriari, na zona rural de São Gabriel da Cachoeira. “O senhor conhece a Dulce, filha do seu Higino?”, indagou a repórter. “Sei sim, vou chamá-la, liga de volta daqui a pouco”, respondeu.

Quinze minutos depois, a agricultora Dulce Maria Tenório, de 33 anos, aguardava do outro lado da linha naquela remota área onde o coronavírus chegara antes da internet e telefonia móvel. “A maioria aqui pegou [o coronavírus]. Chegou como se fosse uma gripe normal, e teve gente que ficou grave”, contou.

“Quando a doença entrou no rio Negro, a comunidade parou tudo. Ficamos um mês sem ir à cidade, e não tinha mais evento, nada”, continuou. A aldeia à beira do rio Negro fica há duas horas de distância, por canoa com motor rabeta, de São Gabriel da Cachoeira, onde moradores se abastecem de combustível, produtos de higiene e alguns alimentos, como arroz e feijão. Outros itens, como peixe e mandioca, vêm das águas e roças locais.

A aldeia carece de posto de saúde, e atendimentos são feitos por agentes que visitam o local periodicamente – a última incursão ocorreu em abril, recorda Dulce. Higino começou a sentir os sintomas da covid-19 em maio e se deslocou para um hospital militar em São Gabriel. De lá, foi transferido para uma UTI em Manaus. Dulce permaneceu em Curicuriari cuidando da mãe Amélia, de 55 anos, que adoeceu “talvez de tristeza”, diz a filha. Há uma semana elas ansiavam por notícias de Higino, que faleceu um dia após a entrevista.

Ele nasceu na aldeia de São Pedro, três dias de lancha à noroeste do rio Negro. Uma missão salesiana instaurada em 1915 mudou o rumo da região ao longo do século 20. Ele cresceu longe dos pais num internato que proibia línguas e rituais indígenas. “Foi uma experiência intensa e dramática, com muita repressão cultural, e isso marcou várias gerações, inclusive o Higino”, contou o antropólogo Aloisio Cabalzar, do Instituto Socioambiental, que o conheceu em 1991, quando a influência religiosa começava a arrefecer.

Higino transformou a vivência traumática em combustível de luta. Entendia que seus “valores culturais indígenas estavam sendo escamoteados e marginalizados”. Ele resgatou em sua aldeia um ritual de boas-vindas aos recém-nascidos que ficou proibido por 40 anos. Também liderou um processo de reforma das escolas locais, inserindo no currículo o aprendizado da língua tuyuka e de tradições indígenas.

“Ele era muito respeitado porque trabalhou na escola com outra forma de educar, pelo conhecimento tradicional, com artesanato, danças, remédios indígenas”, conta Dulce.

As redes vazias e as roupas penduradas em varais improvisados, típicos de fim de viagem, balançam com o vento da embarcação acelerada. “Meus avós falavam que lugares sagrados, para eles, significavam vida”, surge a voz de Higino numa das cenas finais do documentário. “Hoje queremos dizer para o Estado brasileiro, que desconhece nossa história, essa relação que nós temos com esses sítios sagrados”. É ainda nos ancestrais que esses povos buscam a sabedoria de viver o presente.

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