A pintura  “Madona com o Menino”, de 1485, feita por Giovanni Bellini em óleo sobre madeira, ...

Quem foi a verdadeira Virgem Maria, a mãe de Jesus no cristianismo?

Um novo livro sobre a popular figura religiosa argumenta que a mãe de Jesus era uma força da natureza e uma das mais importantes mulheres da história. Recuperar a sua trajetória pode reescrever as origens do cristianismo.

A pintura  “Madona com o Menino”, de 1485, feita por Giovanni Bellini em óleo sobre madeira, atualmente no Metropolitan Museum of Art (MoMa) em Nova York, Estados Unidos.

Foto de Bridgeman Images
Por Candida Moss
Publicado 16 de dez. de 2025, 16:05 BRT

Durante 2 mil anosMariaa mãe de Jesus, foi venerada em catedrais, hinos e pinturas como a Virgem Mãe de Deus. Da famosa escultura Pietà de Michelangelo aos mosaicos dourados de Bizâncio, ela é frequentemente retratada como serena, jovem e eternamente pura

No entanto, por trás da auréola e dos ícones, esconde-se uma mulher muito diferente, cuja vida concreta foi obscurecida por séculos de interpretação teológica

Segundo o estudioso bíblico estadounidense James D. Tabor, respeitado arqueólogo e professor aposentado de Judaísmo Antigo e Cristianismo Primitivo na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, recuperar a Maria histórica poderia não apenas reformular nossa compreensão de Jesus, mas também reescrever as próprias origens do cristianismo.

argumentação de Tabor, apresentada em seu livro recente, lançado nos Estados Unidos em outubro de 2025, "The Lost Mary" (ainda sem título em português, mas que em tradução livre seria algo como "A Maria perdida"), se desdobra em cinco afirmações radicais. 

Ele acredita que Maria foi uma das fundadoras do cristianismo, que descendia da realeza e do primeiro sumo sacerdote; ela também teria sido que foi deliberadamente apagada da memória cristã e foi alguém que transmitiu a essência dos ensinamentos de Jesus; e que é melhor compreendida como uma mulher judia real que enfrentou a violência da Judeia ocupada pelos romanos no primeiro século da era cristã. 

Juntos, esses argumentos representam a tentativa de Tabor de resgatar Maria da abstração piedosa e revolucionar nossa visão dela como uma das mulheres mais importantes da História da humanidade.

(Sobre História e Cultura, leia também: Quem foi o imperador romano que morreu de tanto comer queijo?)

Maria é uma das fundadoras do Cristianismo


Na narrativa tradicional, o cristianismo começa com Jesus e se expande através da pregação dos apóstolos Pedro e PauloMaria aparece à margem: uma presença discreta na manjedoura, no casamento em Caná e aos pés da cruz. Mas Tabor insiste que tais representações minimizam seu verdadeiro papel.

Maria, argumenta ele, não era apenas a mãe de Jesus, mas a matriarca de uma dinastia. Ela era mãe de Tiago, que sucedeu Jesus como líder do movimento em Jerusalém, e parente de João Batista por meio de sua parente Isabel. Esses três homens — João, Jesus e Tiago — moldaram as primeiras décadas do movimento de Jesus, e Maria os conectava. Era um "assunto de família". 

Na crucificação, no Evangelho de João, Jesus confiou sua mãe a um discípulo anônimo conhecido apenas como "o discípulo a quem Jesus amava". Tabor argumenta que esse discípulo amado era Tiagoirmão de Jesus, e que, do início ao fim de seu ministério, Maria e Tiago estiveram intimamente envolvidos na liderança.

Se assim for, então — longe de ser uma figura secundária — Maria teria sido a âncora do movimento, proporcionando estabilidade, continuidade e inspiração após a crucificação de seu filho. Uma das razões pelas quais os historiadores não reconheceram seu papel, escreve Tabor, é que, no século 19, quando os acadêmicos começaram a buscar o Jesus histórico, justamente foi uma época em que “as mulheres eram amplamente marginalizadas da academia, da igreja e da sociedade em geral”. 

A marginalização das mulheres no século 19, afirma ele, levou os estudiosos a projetarem suas próprias estruturas sociais na Galileia do século 1 e, como resultado, a ignorarem o papel de Maria.

As mulheres também eram marginalizadas na Galileia do século 1, mas havia mulheres influentes na Antiguidade. Bernadette Brooten, professora emérita da Universidade Brandeis (Estados Unidos), por exemplo, reuniu evidências epigráficas sobre mulheres líderes na antiga sinagoga, demonstrando a influência e o poder que as mulheres detinham no judaísmo antigo. Isso não significa que Maria em si tenha sido influente, e quase não existem fontes antigas que sugiram isso, mas, em princípio, Tabor está correto.

Vista dessa forma, segundo Tabor, Maria não estava simplesmente presente nos primórdios do cristianismo; ela foi sua primeira fundadora — uma matriarca cuja sabedoria e perseverança teriam possibilitado o surgimento de uma nova tradição religiosa.

Acima, a reprodução do quadro "A Virgem em Oração" do pintor italiano Giovanni Battista Salvi da ...

Acima, a reprodução do quadro "A Virgem em Oração" do pintor italiano Giovanni Battista Salvi da Sassoferrato. A obra atualmente está exposta na National Gallery em Londres, Inglaterra.

Foto de Domínio público

A árvore genealógica de Maria era “duplamente real”?


autoridade de Maria não era apenas materna, mas também genealógica. Tabor argumenta que Maria carregava linhagens tanto sacerdotais quanto reais, tornando-a, e seus filhos, “duplamente reais”.

A principal evidência reside na genealogia escrita por Lucas, que os estudiosos há muito presumem traçar a ascendência de José. De forma incomum, Tabor vê essa lista, que se estende de Davi a Jesus, como um relato da linhagem de Maria

Ao contrário da genealogia de Mateus, que segue a linhagem real de Salomão, a de Lucas inclui nomes associados à classe sacerdotal de IsraelLevi, EliezerJanai

De acordo com essa linha descrita por Lucas, Maria descendia tanto de Davi, o rei icônico de Israelquanto de Aarão, o primeiro sumo sacerdote (de acordo com Levítico, todos os sacerdotes do Templo deveriam ser descendentes de Aarão).

Uma dificuldade com esse argumento é que, embora o relato de Lucas sobre o nascimento de Jesus se concentre em Maria, a genealogia em si nunca a menciona, traçando, em vez disso, sua linhagem por meio de José. Tabor apresenta um argumento convincente sobre por que poderíamos ver uma alusão a Maria em Lucas 3:2, mas outros estudiosos que consideraram essa possibilidade — por exemplo, Raymond Brown, autor de “O Nascimento do Messias” — discordaram.

Se Tabor estiver correto, essa herança teria dado aos filhos de Maria o direito à liderança como herdeiros legítimos tanto do trono quanto do templo (embora presumivelmente muitos outros pudessem ter feito reivindicações semelhantes, se ousassem). 

Porém, não há evidências disso no Novo Testamento, mas alguns escritores cristãos primitivos, como Hipólito de Roma e Orígenes, do final do século 2 e início do século 3, chegaram a descrever Jesus como "de origem tribal mista", combinando a linhagem real de Judá com a linhagem sacerdotal de Levi. 

Da mesma forma, Tiago, o segundo filho de Mariafoi lembrado nos escritos do convertido cristão do século 2, Hegesipo, como vestindo trajes sacerdotais, o que só seria permitido se Tiago fosse considerado um membro da classe sacerdotal. O escritor do século 4, Epifânio, sugere que Tiago usava trajes sacerdotais no próprio Templo de Jerusalém. 

Essas fontes são muito posteriores e têm motivações teológicas, mas demonstram um interesse dos primeiros cristãos em estabelecer uma linhagem sacerdotal para Jesus. Essa linhagem sacerdotal deve vir de Maria, argumenta Tabor, "já que José não tinha qualquer direito a um status sacerdotal".

(Conteúdo relacionado: Quem foram os apóstolos de Jesus, segundo o cristianismo?)

Apagada da história cristã


Se o papel de Maria era tão central, por que o Novo Testamento a relegaria com tanta frequência a um segundo plano? Se Maria descendia da realeza religiosa e secular, por que há apenas uma vaga menção a isso nos Evangelhos? Tabor aponta para o que ele considera um apagamento deliberado.

No Evangelho de Marcos, o mais antigo, Jesus é surpreendentemente chamado de "filho de Maria", uma forma incomum de identificar um homem judeu. José está completamente ausente da narrativa, deixando Maria como a figura central da família. Mas visões concorrentes sobre o legado de Jesus empurraram Maria para as margens

Nas epístolas paulinas, do apóstolo PauloMaria desaparece quase por completoPaulo nunca a nomeia; ele se refere a Jesus apenas como "nascido de mulher". Evangelhos posteriores reinserem José na história e o elevam à condição de pai legal, desviando ainda mais a atenção de Maria.

Tabor argumenta que esse silêncio não é acidentalAo apagar Maria, Paulo e os líderes cristãos posteriores puderam desviar a atenção da família judaica de Jesus para sua identidade cósmica como Cristo

A ênfase teológica mudou de uma dinastia de carne e osso enraizada na política judaica para uma mensagem universal de salvação. Maria, Tiago e o restante da família de Jesus foram eclipsados ​​por Pedro e Paulo, que então se tornaram os "pilares" oficiais da fé.

Argumentos semelhantes sobre o apagamento e a marginalização das mulheres na igreja primitiva foram apresentados por outros estudiosos. Em uma série de publicações, Elizabeth Schrader Polczer, professora assistente de Novo Testamento na Universidade Villanova, Estados Unidos, demonstrou que os primeiros manuscritos cristãos removeram referências a Maria Madalena

Um artigo recente publicado no Journal of Biblical Literature por Yii-Jan Lin, professora associada da Yale Divinity School, demonstra como Júnia — mencionada como apóstola por Paulo — foi rebaixada e teve seu gênero alterado na interpretação cristã. 

Tabor apresenta um argumento igualmente forte e ainda mais controverso: Maria foi deixada de lado em favor de Paulo e de seu modelo de discipulado. Nesse processo secular, Maria foi reinterpretada como a eterna Virgem, a Mãe de Deus submissa; santa, sim, mas historicamente silenciada.

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    Foto de Domínio público

    A fonte da mensagem de Jesus


    Mas e se a mensagem radical de justiça e compaixão de Jesus viesse não apenas da revelação divina, mas também de sua mãe?

    Maria viveu em meio à pobrezaopressão e perdas. Se tornou uma viúva jovem, criou uma família numerosa em uma terra assolada por revoltas e pela brutalidade romana. Suas experiências, sugere Tabor, lhe conferiram um profundo senso de justiça. No Evangelho de Lucas, ela profere palavras frequentemente chamadas de Magnificat: “Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lucas 1:52-53).

    Independentemente de essas palavras serem ou não historicamente dela, argumenta Tabor, elas refletem a ética que o próprio Jesus proclamaria mais tarde: o Reino de Deus pertence aos pobres, os últimos serão os primeiros, os mansos herdarão a terra. A voz de Maria ressoa no ensinamento mais famoso de seu filho, as bem-aventuranças encontradas no Sermão da Montanha. Sua visão de um mundo reordenado moldou não apenas a pregação de Jesus, mas também a liderança de Tiago em Jerusalém.

    Após a crucificação de Jesus, foi Tiago quem assumiu a liderança do grupo de seguidores em Jerusalém. Isso é o que sabemos por meio de Paulo, que se refere a Tiago e ao seu relacionamento tenso com os líderes da igreja em Jerusalém. Tabor retrata Maria vivendo com Tiago e liderando a igreja de Jerusalém, sendo ela o "centro nevrálgico de todo o movimento de Jesus". 

    Ele chega a identificar uma casa do século 1, localizada abaixo da Igreja dos Apóstolos, construída na época das Cruzadas, no Monte Sião, em Jerusalém, como sendo a residência deles nesse período. É um retrato convincente que abarca as realidades sociais da época: viúvas como Maria geralmente viviam com familiares, como Tiago. Vale ressaltar, porém, que a Bíblia curiosamente silencia sobre a vida de Maria após os eventos da Páscoa.

    Sob essa perspectiva, Maria não era apenas o ventre que gerou Jesus; ela era a fonte de sua mensagem. Pode-se argumentar que esse aspecto da argumentação de Tabor é o menos controverso e o mais instintivo de seus argumentos. 

    tradição católica pressupõe que Maria teria compartilhado os detalhes da anunciação (quando o anjo Gabriel lhe disse que ela conceberia um filho) com o jovem Jesus. Em um artigo para o Catholic Answers, um banco de dados online de ensinamentos católicos, Michael Pakaluk argumentou que Maria também influenciou a composição do Evangelho de João.

    Uma mulher judia histórica


    Por fim, Tabor defende que Maria seja retirada da “câmara de vidro” da tradição cristã e lembrada como uma figura histórica: uma mulher judia do século 1, criando filhos sob o peso do domínio do Império Romano. Isso deveria ser óbvio, mas a densa nuvem de séculos de interpretação e tradição cristãs obscureceu tanto sua identidade religiosa original quanto as dificuldades que ela enfrentou.

    Tudo começa com seu nome. Embora a chamemos de Maria, o Novo Testamento se refere a ela com o nome grego Mariam, um nome hebraico que a conecta a Mariam, irmã de Moisés e Aarão, e que poderia ser melhor traduzido para o português como Miriam

    Essa Maria é uma jovem mãe que provavelmente deu à luz em condições precárias, buscava água diariamente e lutava para alimentar seus filhos. Ela provavelmente era jovem, por volta dos quatorze anos, quando deu à luz Jesus.

    A ascendência de Jesus era envolta em controvérsia. Embora os Evangelhos apresentem Deus como pai de Jesus, é improvável que os contemporâneos de Maria fossem tão generosos. Existem lendas posteriores, explica Tabor, que afirmam que Jesus era filho de um soldado romano, mas, em última análise, “do nosso ponto de vista histórico, teríamos que dizer ‘pai desconhecido’”. 

    José pode tê-la protegido de rumores e fofocas cruéis, como atestam os Evangelhos, mas seu apoio foi apenas temporário. É provável que, algum tempo depois de seu casamento arranjado com José, ela tenha ficado viúva e criado seus filhos e filhas com pouca ajuda. 

    José, observa Tabor, nunca aparece em nossas fontes depois que Jesus completa doze anos. Em vez disso, Maria é mostrada viajando sozinha apenas com seus filhos.

    Segundo os Evangelhos, ela também era uma mulher judia que visitava Jerusalém e o Templo para as festividades religiosas e estava profundamente inserida na vida judaica. Ela viveu em meio ao terror político, enquanto a dinastia de Herodes e Roma executavam os aspirantes a messias

    Em 4 a.C., justamente quando Maria estava entrando na idade adulta, a Galileia entrou em erupção em revolta. Um rebelde chamado Judas, o Galileu, tomou o arsenal real em Séforis e se declarou rei, inflamando as esperanças messiânicas entre as aldeias vizinhas — incluindo Nazaré, onde Maria e José viviam. 

    resposta de Roma foi rápida e implacável. O legado sírio Varo marchou com duas legiões (aproximadamente 12 mil homens) para a Galileia, incendiando Séforis e desencadeando um terror em massa. O historiador judeu Flávio Josefo relata que os romanos crucificaram cerca de dois mil rebeldes ao longo das principais estradas, de modo que, até onde a vista alcançava, cruzes ladeavam as vias, cada uma com uma vítima contorcendo-se em agonia.

    Para aldeões como Maria e sua família, que podiam ver a fumaça da cidade da vizinha Nazaré, o espetáculo era inescapável: o fedor das ruínas carbonizadas, os gritos dos crucificados, a visão dos corpos de seus vizinhos pendurados a poucos metros das estradas por onde passavam diariamente. 

    Foi, como observa Tabor, um trauma formativo — uma lição precoce sobre os custos do Império e o preço da esperança messiânica. Mas não foi a experiência mais terrível. No final de sua vidatrês de seus filhos (Jesus, Tiago e Simãoforam mortos por suas reivindicações ou por sua liderança. Sua vida foi definida por resistêncialuto e resiliência.

    Tabor acredita que resgatar Maria para a história significa vê-la não como uma figura etérea, mas como uma mulher cuja fé e coragem foram forjadas no sofrimento. Sua identidade judaica importava: ela vivia e respirava a Torá, os rituais do templo e as esperanças de Israel pela libertação. Ela pertencia a uma comunidade que ansiava por justiça e incutiu essa esperança em seus filhos.

    Durante séculos, a tradição cristã celebrou Maria como a Virgem Mãe, negligenciando a mulher por trás do mito. A reconstrução de Tabor não está isenta de controvérsias, e muitos debaterão elementos de sua argumentação, mas ela nos convida a ver Maria sob uma nova perspectiva: como fundadora, matriarca, visionária e sobrevivente.

    Ao recuperar sua história, descobrimos não apenas as raízes ocultas do cristianismo, mas também um modelo de resiliência que transcende o tempo. Maria, como demonstra Tabor, nos lembra que por trás de cada movimento existem mulheres cujas vozes foram silenciadas, cuja influência permaneceu oculta à vista de todos.

    Dois mil anos depois, talvez o ato mais radical seja chamá-la pelo que ela foi: não apenas “abençoada entre as mulheres”, mas uma fundadora esquecida do cristianismo.

    ** Esta matéria foi atualizada para refletir as pesquisas e ideias do título do livro deJames Tabor.

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