Este espartilho foi desenhado por volta de 1851 por Madame Roxy Caplin com armação mínima e ...

Especial Dia da Mulher: dos espartilhos às Kardashians, um mergulho na história da obsessão por cinturas finas

O que começou como um símbolo de status aristocrático no século 16 se transformou em uma indústria bilionária de shapewear e procedimentos estéticos. Uma viagem pela história da modificação do corpo feminino.

Kim Kardashian no baile de gala beneficente do Costume Institute do Museu Metropolitano de Arte, em Nova York, em 6 de maio de 2024.

Foto de Nina Westervelt, The New York Times, Redux
Por Emily Alford
Publicado 4 de mar. de 2026, 17:01 BRT

obsessão cultural da humanidade com o emagrecimento e a modificação do corpo remonta a séculos atrásManter um rosto e um corpo firmes por meios socialmente aceitáveis, como exercícios, roupas modeladoras e até mesmo cirurgias plásticas sutis e de bom gosto, há muito tempo é um símbolo de autoestima e respeitabilidade

expectativa de que uma mulher bem educada deveria modificar seu corpo por meio de espartilhos remonta ao século 16, quando os chamados “espartilhos de baleia” (corpetes estruturados com tiras flexíveis retiradas da boca de baleias de barbatana, daí o nome). Conhecidos na época apenas como “corpos”, eram usados rotineiramente por mulheres e meninas aristocráticas, incluindo Catarina de Médici e a rainha Elizabeth 1ª

Em toda a Europa e nas Américas, nos séculos 18 e 19, os espartilhos tinham muitas funções. Havia espartilhos para corrigir a postura das crianças, outros projetados para dar suporte durante o trabalho físicoespartilhos modificados para mulheres grávidas e lactantes e até mesmo peças projetadas para militares e dândis do início do século 19. 

Em 1745, um visitante suíço na Inglaterra observou que, mesmo no campo, “todos usavam espartilhos”, já que, particularmente na Inglaterra, espartilhos folgados indicavam moral frouxa

Ainda que com bem menos adeptos, a moda dos espartilhos ou das roupas que comprimem o corpo das mulheres nunca foi embora de vez. Em meados da década de 2000celebridades como a estadunidense Kim Kardashian reviveram a popularidade do vestido bandagem do estilista francês Hervé Léger. No início da década de 2010, a era do bodycon (um estilo de roupa que se ajusta muito bem ao corpo, informa o Dicionário Cambridge, e cuja definição é a abreviação de body conscious, ou consciente do corpo, em português) estava em pleno andamento. Ela se alinhava à necessidade de roupas íntimas justas e suaves que criassem a ilusão de uma cintura bem definida

Mas mesmo com os vestidos bodycon saindo de moda, o interesse pela malha modeladora permaneceu. Em 2019Kim Kardashian lançou sua própria linha de peças de roupa ajustadíssimas ao corpo, uma empresa atualmente avaliada em cerca de 4 bilhões de dólares. 

Este espartilho foi desenhado por volta de 1851 por Madame Roxy Caplin com armação mínima e ...

Este espartilho foi desenhado por volta de 1851 por Madame Roxy Caplin com armação mínima e flexível para conseguir curvas elegantes. Prometia à sua utilizadora uma cintura com apenas 48 cm de circunferência. As mulheres com cinturas inferiores a 69-74 cm eram chamadas de “tight-lacers” (aperta-cintas) e eram controversas durante a era vitoriana.

Foto de LONDON MUSEUM, Heritage Images, SCIENCE PHOTO LIBRARY

A relação entre o espartilho e a posição social de quem usa

Como a historiadora de moda norte-americana Valerie Steele observa em seu livro “The Corset: A Cultural History” (“O Espartilho: Uma História Cultural”, ainda sem edução no Brasil), os espartilhos transmitiam status social, autodisciplina, arte, respeitabilidade, beleza, juventude e charme erótico”. 

Para as mulheres da classe altaexibir essas características era essencial para demonstrar sua posição social. Já as mulheres da classe baixa buscavam imitar as classes altas tornou-se um meio de possivelmente alcançar mobilidade social por meio do casamento ou do emprego.

Mesmo com os espartilhos deixando de estar em alta a partir da década de 1920, uma aparência bem cuidada e elegante continuou sendo importante por meio de dieta, exercícios e outras modificações corporais, como modeladores e cirurgias plásticas. 

Mas, embora esses padrões tenham sido socialmente impostos por muito tempo, modificações corporais excessivas, na forma de espartilhos apertados — sem mencionar procedimentos modernos como lipoaspiração, lifting facial e preenchimentos — eram consideradas antinaturais, prejudiciais à saúde e uma forma de chamar atenção. 

Dentro desse contexto, a história da peça acaba sendo uma faca de dois gumes: por um lado, aquelas que não usavam espartilhos eram rotuladas de libertinas e desleixadas, mas aquelas que apertavam demais — que modificavam seus corpos de forma muito óbvia — eram consideradas tolas e vaidosas.

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      ​​Um espartilho vitoriano. Um cientista do século 19 argumentou que a forma produzida por um espartilho ...
      À esquerda: No alto:

      Um exemplo suntuoso de um robe à la française, também chamado de vestido saco (ou sacque). Um saco era sempre usado sobre um espartilho e, gradualmente, o estilo evoluiu para se tornar muito mais justo na cintura, com apenas pregas nas costas.

      Foto de The Metropolitan Museum of Art
      À direita: Acima:

      ​​Um espartilho vitoriano. Um cientista do século 19 argumentou que a forma produzida por um espartilho era artificial “física e mentalmente, deixando o coração do homem desolado pela falta de uma mulher genuína para amar e pela qual viver; quando isso profana o templo da castidade feminina”. 

      Foto de The Brooklyn Museum Collection, The Metropolitan Museum of Art

      Como eram vistas as mulheres que apertavam seus espartilhos demais

      imagem mais duradoura que temos dos espartilhos é a da cintura fina (a famosa “cinturinha de pilão”, como se diz popularmente no Brasil), e esta é uma figura controversa. De acordo com Rebecca Gibsonprofessora assistente de antropologia na Universidade Virginia Commonwealth, nos Estados Unidos, e autora de “The Corseted Skeleton: A Bioarchaeology of Binding” (“O Esqueleto Corsetado: Uma Bioarqueologia da Compressão”), a indignação pública e o pânico em torno do laço apertado foram um fenômeno vitoriano e tinham como alvo aquelas pessoas, geralmente mulheres (e às vezes homens), que levavam longe demais” a prática comum de modificação corporal por meio de espartilhos. 

      Enquanto um espartilho padrão pode reduzir a cintura em 2,5 a 5 centímetrosdiminuindo o tamanho da cintura natural ao longo do tempo, um processo que Gibson compara ao uso de aparelhos ortodônticos, já que os espartilhos apertados forçavam a cintura a dimensões extremamente antinaturais. Os críticos condenavam essas cinturas artificialmente estreitas, alegando ter visto algumas com apenas 38 ou 41 centímetros

      Como alertou a revista vitoriana “The Family Herald” em uma edição de 1848:As mulheres devem ter uma cintura de 69 a 74 centímetros... milhares são apertadas até 53 centímetros, algumas até menos de 51 centímetros”.

      Em meados do século 19, as mulheres que usavam espartilhos apertados eram consideradas as “garotas más” da época, vistas como tolas que mutilavam seus corpos por causa da moda, prostitutas perigosas que comprimiam suas cinturas para obter satisfação sexual, ou ambos. 

      Steele escreve que “a literatura anticorset era semelhante em tom e linha de argumentação às diatribes sobre os terríveis efeitos da masturbação e do álcool”. A indignação com as mulheres que usavam espartilhos apertados vinha de todos os lados: escritores conservadores com medo de pessoas que expressavam sua autonomia sexual por meio das roupas as primeiras feministas reformadoras do vestuário, que exigiam roupas mais igualitárias para as mulheres.

      Os espartilhos apertados eram tema de gravuras satíricas e literatura moralista. No final da década de ...

      Os espartilhos apertados eram tema de gravuras satíricas e literatura moralista. No final da década de 1820, William Heath criou sátiras memoráveis que respondiam às modas exageradas. Aqui, ele mostra uma jovem mulher cuja silhueta distinta se baseia em uma cintura apertada por um espartilho e uma saia larga com bainha curta o suficiente para revelar os pés deslizados presos com fitas.

      Foto de Illustration By William Heath ('Paul Pry'), The Metropolitan Museum of Art
      Anúncio de 1907 de um espartilho flexível que não era feito de osso ou aço.

      Anúncio de 1907 de um espartilho flexível que não era feito de osso ou aço.

      Foto de Nawrocki, ClassicStock, Getty Images

      O fascínio e a fetichização do espartilho

      De 1867 a 1874, a revista “The Englishwoman’s Domestic Magazine” publicou mais de 150 cartas sobre o tema do espartilho apertado, tanto em defesa quanto em oposição à prática. De acordo com Steele, muitas dessas cartas eram pornografia mal disfarçada, com autores anônimos descrevendo encontros sadomasoquistas em escolas de espartilhos apertados. 

      As autoras das cartas, que em grande parte afirmavam ser adolescentes, descreviam ter sido enviadas para escolas de espartilhos apertados em Londres, Paris e Viena como punição por sua rebeldia. Enquanto estavam nas escolas, elas afirmavam ter sido forçadas a usar espartilhos por diretores e diretoras de mão firme. 

      Embora os historiadores acreditem que essas escolas sejam puramente fictíciasas cartas e outras semelhantes foram amplamente divulgadas em periódicos respeitáveis da época, aparentemente consumidas por leitores que também usavam espartilhos. O fascínio e a fetichização do espartilho realçam as maneiras pelas quais a modificação corporal excessiva poderia ser tanto uma fonte de entretenimento quanto uma linha de demarcação para a aceitabilidade cultural.   

      Algumas mulheres ganharam fama generalizada por causa de suas cinturas exageradamente estreitas. A artista de cabaré francesa e estrela do cinema Polaire foi um fenômeno internacional, em parte, por causa de sua cintura de vespa. Durante o auge de sua carreira no final do século, ela apertava tanto o espartilho que sua cintura media apenas 40 centímetros e era frequentemente anunciada como uma espécie de atração secundária. 

      Mas, embora o laço apertado fosse considerado um “hábito de classe baixa”, como escreve o estudioso britânico David Kunzel em “Fashion and Fetishism” (“Moda e Fetichismo”), os fotógrafos vitorianos usavam rotineiramente técnicas de retoque e ilusão de ótica para dar às modelos a cinturinha fina que a francesa Polaire tornou moda. Em uma edição de 1895 da “Photography Annual” (antologia publicada até os anos 1970 e que compilava algumas das melhores fotos do mundo no momento), o fotógrafo S. Herbert Fry escreveu sobre o uso de técnicas de retoque para criar rotineiramente “a cintura exagerada de uma senhora que mede apenas 45 centímetros”. 

      cintura diminutaos esforços que as mulheres fazem para alcançá-la continuam sendo motivo de escárnio aspiração. No Met Gala de 2019 (evento de gala beneficente que ocorre anualmente para conseguir fundos para o Costume Institute do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, o MoMa), outra vez Kim Kardashian – sempre ela – ganhou as manchetes por seu dramático corpo em forma de ampulheta em um vestido da marca francesa Thierry Mugler cor de pele adornado com gotas de cristal. 

      Sua cintura fina deixou os críticos das redes sociais igualmente irritados e invejosos; alguns até ficaram preocupados que ela tivesse removido uma costela para conseguir esse visual. Mas a cintura fina de Kardashian no evento era o resultado de um espartilho personalizado feito pelo famoso fabricante de espartilhos Mr. Pearl (a peça precisou de três pessoas para ser colocada na celebridade e ela teria feito “aulas de respiração com espartilho”). 

      Muitos espartilhos eram feitos à mão para se ajustar a cada pessoa, como este exemplo: um ...

      Muitos espartilhos eram feitos à mão para se ajustar a cada pessoa, como este exemplo: um reforço de espartilho em scrimshaw, provavelmente feito por um tripulante de um navio baleeiro. Eles eram esculpidos e dados à pessoa amada do tripulante, que então os inseria em uma manga correspondente em seu espartilho como uma lembrança única dos sentimentos de seu amado.

      Foto de National Museum Of American History
      O termo “snatched” tem suas raízes na cultura ballroom dos anos 80 e 90. Aqui, um membro da ...

      O termo “snatched” tem suas raízes na cultura ballroom dos anos 80 e 90. Aqui, um membro da Comunidade Ballroom Húngara se apresenta durante um evento de abertura do Mês do Orgulho em Budapeste, Hungria, em 7 de junho de 2025.

      Foto de Marton Monus, Reuters, Redux

      Existiu um movimento anti-espartilho

      Grande parte da reação ao visual de Kardashian foi quase vitoriana. Vários veículos de comunicação noticiaram sua “ansiedade” em relação ao espartilho. “Kim Kardashian lamenta vestido doloroso no Met Gala”, dizia uma manchete. Da mesma forma, em 1887, o escritor de beleza Henry T. Finck reclamou que “a única satisfação que uma mulher pode obter por ter uma cintura fina é a inveja de outras mulheres tolas”. 

      Os reformadores da moda da época concordavam, defendendo a abolição ou, pelo menos, o afrouxamento dos espartilhos. Sua oposição os tornou estranhos aliados dos supostos homens da ciência que acreditavam que os espartilhos afastavam as mulheres de seu estado maternalnatural”:

      “Deixou de ser uma metáfora que [a mulher] está vestida para matar... Seu pai ou seu marido poderiam viver com suas roupas?”, escreveu a crítica americana da feminilidade doméstica Elizabeth Stuart Phelps em 1873. “Ele poderia conduzir seus negócios e sustentar sua família com seus espartilhos?”

      Embora discordassem na maioria das questões feministas, os defensores dos papéis tradicionais de gênero, como o frenologista americano O.S. Fowler, também argumentavam contra o espartilho. “Ele perverte o caráter feminino, transformando sua beleza imaculada em um conjunto de aparências artificiais, física e mentalmente, deixando o coração do homem desolado pela falta de uma mulher genuína para amar e pela qual viver; quando ele profana até mesmo o templo da castidade feminina”, escreveu Fowler em 1870. 

      Mas, de acordo com Gibson, a maioria dos críticos não era tão radical em suas opiniões sobre os espartilhos quanto os reformadores da moda ou aqueles que argumentavam que o objeto transformava as mulheres em mentirosas”, pois modificavam seus corpos em formas não naturais. “Na sociedade ocidental, gostamos de encontrar maneiras de punir as mulheres por decisões que são culturalmente influenciadas e quase inevitáveis, a fim de manter o poder e a popularidade com o próprio grupo”, diz Gibson.

      Ao longo dos séculos 18 e 19, a literatura e a arte zombavam das mulheres que usavam espartilhos apertados. Uma ilustração de 1777 chamada “Tight-Lacing” (“Apertando o Espartilho”) retrata uma mulher mais velha e feia segurando a cabeceira da cama enquanto uma criada ajustava seu espartilho pressionando o pé contra o seu bustle (estrutura que pode ser uma almofada ou uma armação de metal ou laços usada sob as saias das mulheres principalmente nas décadas de 1870 e 1880 com o objetivo de dar volume à parte de trás da vestimenta). 

      Já outra ilustração de 1879 chamada “Considérations sur le Corset”, da revista masculina “La Vie Parisienne”, mostra a dona da casa se apoiando em uma lareira enquanto seu marido, criados e até mesmo um cachorro puxam seus laços de um lado, e um exército de cupidos puxa do outro. Um desenho de 1898, por sua vez, retrata um marido e uma empregada apertando o espartilho de uma mulher com tanta força que ela se parte ao meio. 

      Essas caricaturas sugeriam que as mulheres que usavam espartilhos apertados não o faziam por razões de respeitabilidade, mas sim para obter a aprovação de outras mulheres ou, pior ainda, para chamar a atenção. Em “The Complete Beauty Book”, de 1906, Elizabeth Anstruther relembrou uma jovem que usava espartilhos apertados e que ela afirma ter visto em um café famoso:

      “A garota tinha uma cintura natural de cerca de 50 centímetros, mas parecia ter no máximo 30 centímetros, embora provavelmente tivesse 40 centímetros. O efeito era tão grotesco que as pessoas riram abertamente quando ela desmaiou.” 

      Madonna, em sua turnê “Blonde Ambition”, de 1990, usou um espartilho exagerado desenhado por Jean Paul Gaultier.

      Madonna, em sua turnê “Blonde Ambition”, de 1990, usou um espartilho exagerado desenhado por Jean Paul Gaultier.

      Foto de Gie Knaeps, Getty Images

      Dos espartilhos à cirurgia plástica no século 20

      As bainhas mais curtas e as cinturas mais largas da década de 1920, juntamente com os avanços nos materiais de modelagem e roupas íntimaslevaram ao fim do espartilho, pelo menos para o uso diáriomas o desejo de ter uma cintura fina permaneceu

      À medida que a medicina se profissionalizou e a cirurgia plástica se tornou um campo à parte, a modificação corporal mudou-se para a sala de cirurgia — e os cirurgiões prometeram um visual esguio da cabeça aos pés. 

      No início do século 20, os médicos elogiavam os benefícios da cera de parafina como solução para o nariz deprimido, um efeito colateral da sífilis, doença comum até a década de 1940, quando se descobriu que a penicilina era uma cura eficaz. A parafina líquida era injetada nas depressões dos narizes afetados, dando aos pacientes a mesma aparência preenchida que as injeções de colágeno prometem hoje. 

      Embora de curta duração devido à tendência da parafina de migrar quando exposta à luz solar, as injeções também eram elogiadas por sua capacidade de suavizar linhas finas e rugas, despertando o interesse do público. Após avanços rápidos e transformadores para melhorar a aparência de lesões faciais durante a Primeira Guerra Mundial, os médicos, particularmente os norte-americanos, trouxeram essas inovações para casa, sendo pioneiros nas primeiras cirurgias estéticas, muitas vezes rinoplastias e liftings faciais

      À medida que essa nova forma de modificação corporal na moda se tornou mais difundida, os críticos foram rápidos em apontar as maneiras como algumas pessoas, principalmente mulheres, estavam exagerando. 

      “Estou louca de alegria”, disse uma parisiense que tinha vindo a Nova York para fazer um lifting facial ao “The New York Times” no verão de 1920 — embora tivesse algumas preocupações com o seu rosto recém-rejuvenescido. “Não me atrevo a sorrir”, disse ela. “Isso faria com que as rugas voltassem a aparecer.” No artigo, o “Times” rapidamente invocou Hamlet, observando que a sensibilidade “despreza todos aqueles que, tendo Deus lhes dado um rosto, criam outro para si mesmos”. 

      Ao longo do século 20os debates sobre a moralidade, as implicações feministas e o significado cultural da cirurgia plástica acabariam tornando os argumentos da era vitoriana sobre o uso de espartilhos apertados algo antiquado

      Os primeiros cirurgiões plásticos argumentavam que os homens que haviam sido feridos em batalha precisavam de cirurgia plástica para encontrar emprego. Artistas rapidamente entraram na briga, na esperança de que alterações cosméticas pudessem melhorar a disponibilidade de papéis, especialmente papéis para mulheres mais velhas. 

      Logo, pessoas de todas as classes sociais argumentaram que uma aparência mais jovem poderia melhorar suas chances de progressão na carreira ou casamento, embora o estigma em torno da cirurgia plástica para parecer mais jovem permanecesse. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, celebridades suspeitas de alterar cirurgicamente seus rostos apareceram nas capas de revistas. “Cirurgia plástica: quem se importa?”, dizia a capa da revista “Jane” com a atriz Meg Ryan em 2004. 

      À medida que a modificação corporal culturalmente aceitável volta a se inclinar para a beleza naturalsó o tempo dirá quem será apontado por exagerar — seja por negligência ou por vaidade em busca de atenção. 

      “Na sociedade ocidental, gostamos de encontrar maneiras de punir as mulheres.”

      por Rebecca Gibson
      professora assistente de antropologia na Universidade Virginia Commonwealth, nos Estados Unidos.

      Será a volta de uma beleza mais natural? 

      Acontece que muitas pessoas se importavam: à medida que os injetáveis e preenchimentos se tornaram mais acessíveis, a tendência se espalhou para a classe média. A Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos informou que seus membros licenciados realizaram 25,4 milhões de procedimentos cosméticos minimamente invasivos” em 2023 — um número que cresceu 9% em relação ao ano anterior. 

      Estrelas de reality shows e influenciadores das redes sociais se tornaram os vilões dos procedimentos cosméticos, retocando seus rostos tanto quanto suas cinturas, provando que impérios bilionários podem ser construídos com base na modificação corporal. 

      Como a professora e escritora estadunidense Victoria Pitts observa no livro “In the Flesh: The Cultural Politics of Body Modification” (“Na Carne: A Política Cultural da Modificação Corporal”) em sua história das alterações corporais contemporâneas, “os corpos humanos são sempre moldados e transformados por meio de práticas culturais”. No entanto, quando realizados por mulheres, esses procedimentos são frequentemente vistos como formas de automutilação baseadas no gênero, até que alcancem uma aceitação mais ampla. Agora, essa mudança parece ter chegado para o visual com muito preenchimento do passado recente. 

      Em vídeos populares nas redes sociais, celebridades e influenciadores explicam quais cirurgias fizeram e quais não fizeram, ao lado de outras pessoas que relatam a reversão de procedimentos cosméticos anteriores.

      Há alguns anos, era quanto maior, melhor’. Lábios maiores, bumbum maior, seios maiores”, diz o Dr. David Rosenberg, cirurgião plástico da Rosenberg Plastics em Beverly Hills, Califórnia, por e-mail. “Agora ouço ‘snatched’ o tempo todo. Elas querem seios menores e mais naturais, lábios mais macios e um corpo mais equilibrado. Parece menos ‘olhe para mim’ e mais ‘ela simplesmente acordou assim’.” 

      Talvez o novo visual mais elegante e esguio seja uma reação ao passado recente, em que bochechas, lábios e nádegas rechonchudos eram obrigatórios. Como observa Gibson, as mudanças tendem a ser cíclicas, com ondas de mudança seguidas de reações contrárias: “A moda em si geralmente segue um ciclo de 10 anos. Você tem uma reação contrária e, em seguida, uma reação contrária à reação contrária. Acho que atualmente estamos em uma reação contrária aos últimos dez anos.” 

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