Os anjos já tiveram uma imagem aterrorizante? Veja como eles eram retratados nos mitos antigos

Longe dos querubins de bochechas rosadas da arte renascentista, eles eram seres ardentes que inspiravam medo.

Por Candida Moss
Publicado 27 de mar. de 2026, 15:25 BRT
No judaísmo antigo e no cristianismo primitivo, os anjos eram retratados como seres poderosos que guardavam ...

No judaísmo antigo e no cristianismo primitivo, os anjos eram retratados como seres poderosos que guardavam o Jardim do Éden, registravam os feitos dos humanos e anunciavam o nascimento do Messias.

Foto de Benjamin Gerritsz. Cuyp, Erich Lessing, Bridgeman Images

Os anjos estão entre as figuras religiosas mais reconfortantes do imaginário moderno, representadas por seres alados e radiantes que pairam pacificamente sobre os presépios a cada dezembro e no imaginário mundial. De fato, sua presença na história cristã é essencial para o desenrolar dos acontecimentos. 

No Evangelho de Lucas, o anjo Gabriel anuncia tanto o nascimento de João Batista a seu pai, Zacarias, como também ele anuncianascimento milagroso de Jesus a sua mãe, Maria

São os anjos que proclamam as “boas novas de grande alegria” aos pastores sob o céu noturno. E, crucialmente, é um anjo que visita José em sonho para explicar a natureza da gravidez, de outra forma escandalosa, de sua noiva e, em seguida, instrui-o a levar a criança para o Egito para evitar a ira de Herodes. Sem a intervenção angelical, Jesus não teria chegado à idade adulta.

Porém, os anjos no mundo antigo eram muito mais estranhos, mais variados e, muitas vezes, mais intimidantes do que a história do Natal e as representações modernas sugerem. E até mesmo Gabriel, o anjo do Natal, tinha um lado punitivo.

(Sobre História e Cultura, leia também:  Em busca do local de um dos grandes milagres do Cristianismo)

Mensageiros, guerreiros e seres de fogo


A palavra anjo (do grego angelos, tradução do hebraico malaksignifica “mensageiro”. Essa é uma descrição precisa do que os primeiros anjos da Bíblia fazem: eles carregam mensagens de Deus e aparecem inesperadamente em assuntos humanos. Em Gênesistrês anjos chegam para anunciar o nascimento de Isaque

Outros anjos, mais tarde, conduzem Ló para fora da cidade condenada de Sodoma. Christy Cobb, professora associada de Cristianismo na Universidade de Denver (Estados Unidos), afirma que “na Bíblia, os anjos guardam o Jardim do Éden, trazem uma mensagem a Abraão, permanecem ao lado do Senhor no Céu, anunciam nascimentos milagrosos e até lutam contra Satanás”. Esses anjos são inegavelmente antropomórficos: eles falam, andam e até comem.

Esses papéis, explica Cobb, se desenvolvem ao longo do tempo. Livros posteriores da Bíblia Hebraica introduzem figuras com nomes específicos que desempenham funções particulares. O livro de Daniel se refere a duas figuras que se tornaram centrais na tradição posterior como arcanjos: Gabriel, um intérprete celestial de visões, e Miguel, um comandante militar que luta em nome de Israel

Nesse período, os anjos haviam se tornado mais do que mensageiros; eles eram administradores de um complexo reino celestial. No século 2 a.C., os anjos atuavam como agentes na burocracia celestial, mantendo registros dos atos humanos para o Dia do Juízo Final.

Outros textos bíblicos descrevem seres celestiais que ultrapassam os limites da imaginação humana. O profeta Isaías descreveu uma visão do céu na qual Deus está sentado em um trono rodeado por serafins. Os serafins tinham rostos, mas também três pares de asas. Escrevendo vários séculos depois, Ezequiel descreve seres angelicais "vivos" (ḥayyot) com quatro rostosquatro asas e corpos humanos. Acompanhando-os estão os enigmáticos ofanim, dentro de rodas feitas de fogo e cobertas de olhos.

Apesar de suas variadas aparências, a reação humana aos seres celestiais na Bíblia é consistente. Quase todos os humanos que encontram um anjo ficam aterrorizados. Por exemplo, quando Gabriel aparece a Zacarias e Maria, as primeiras palavras que ouvem são "não tenham medo". No entanto, o medo daqueles que os encontram é bem fundamentado. 

Na Bíblia Hebraica, o anjo do Senhor mata 185 mil soldados assírios em uma única noite durante o cerco de Jerusalém. Zacarias experimenta um vislumbre dessa disciplina angelical: quando duvida que ele e sua esposa idosa conceberiam um filho, Gabriel o pune deixando-o mudo até o nascimento de João.

(Você pode se interessar: Os 4 dados sobre Maria, a mãe de Jesus segundo o cristianismo)

Escribas e 'Vigilantes' no judaísmo antigo


Fora do cânone bíblico, os anjos assumem identidades e histórias ainda mais elaboradasTextos judaicos antigos, como 1 Enoque, descrevem vastas fileiras de anjos governando tudo, desde os ciclos cósmicos até o destino humano. 

Alguns anjos, como os Vigilantes caídos, que se envolveram em relações sexuais com mulheres e revelaram segredos tecnológicos à humanidade, tornam-se exemplos de advertência sobre seres divinos que ultrapassam limites proibidos. Outros anjos desse período servem como escribas celestiais, registrando os feitos humanos, ou como guias que acompanham as almas entre os reinos.

No Evangelho de Pseudo-Mateus, do início da Idade Média, diz Cobb, os anjos assumem um papel de apoio durante a gravidez de Maria: falam diariamente com ela e protegem Jesus durante o seu nascimento. Em outros textos, desempenham um papel mais ativo na concepção de Jesus. 

Os cristãos da Antiguidade Tardia acreditavam que, na anunciação, Maria concebeu Jesus simplesmente por ouvir Gabriel. "Através de seu ouvido", escreve Efrém, o Sírio, "a Palavra do Pai divino entrou e habitou secretamente em seu ventre".

Em sua obra "Anjos no Cristianismo da Antiguidade Tardia", a historiadora Ellen Muehlberger argumenta que os primeiros cristãos viam os anjos como participantes essenciais no funcionamento do mundo. Os anjos permeavam o cosmos da Antiguidade Tardia, criando o que ela chama de "cosmovisão angélica" — a noção de que o universo estava repleto de seres invisíveis cujas ações afetavam todos os aspectos da vida.

A evolução dos 'anjos da guarda'


Na Idade Média, os anjos adquiriram hierarquias definidas, em parte graças aos influentes escritos atribuídos a Pseudo-Dionísio, o Areopagita, que os dividiu em nove coros: de serafins e querubins a anjos comuns. 

Teólogos medievais elaboraram sobre suas habilidades, natureza e deveres, imaginando os anjos como intelectos puros capazes de transitar rapidamente entre o céu e a terra. O teólogo do século 13, Tomás de Aquino, argumentou que “cada homem tem um anjo da guarda designado para si”.

Os pintores da Renascença humanizaram ainda mais os anjos, suavizando seus traços e adicionando vestes esvoaçantes, instrumentos musicais e expressões serenas. Os querubins — bebês alados e rechonchudos artisticamente inspirados em Cupido — surgiram de uma mistura de linguagem bíblica, imagens clássicas e fantasia artística. No Iluminismo, os anjos tornaram-se símbolos morais tanto quanto seres teológicos, personificando virtude e sentimentalismo.

No entanto, os anjos de Natal que muitas pessoas imaginam hoje devem tanto à estética vitoriana e à cultura popular quanto à tradição religiosa. A arte e a literatura natalinas do século 19 colocavam os anjos no centro dos presépios, frequentemente como presenças radiantes e reconfortantes, em vez de mensageiros aterrorizantes do poder divino. Na mídia moderna, os anjos aparecem em formas que enfatizam a gentileza, a orientação e a proteção pessoal.

Apesar de sua evolução de seres flamejantes e compostos para guardiões alados e gentis, os anjos permanecem símbolos poderosos da conexão entre o humano e o divino. Para os antigos judeus e cristãos, os anjos explicavam como um Deus todo-poderoso interagia com o mundo; para os crentes posteriores, eles ofereciam conforto, proteção e beleza. 

Hoje, os anjos continuam a aparecer em diversas tradições religiosas, na cultura popular e na espiritualidade pessoal, refletindo tanto ideias antigas quanto anseios contemporâneos — um desejo profundamente humano de compreender as forças invisíveis que moldam o mundo.

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