O veneno do sapo bufo: como age o potente alucinógeno produzido por esse anfíbio

A espécie da América do Norte produz uma substância psicoativa de ação rápida em humanos e, por isso, seu veneno tem sido usado de rituais religiosos a tratamentos para transtornos mentais.

Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 29 de mai. de 2023, 15:54 BRT
Ilustração de três sapos do rio Colorado (Bufo alvarius).

Ilustração de três sapos do rio Colorado (Bufo alvarius).

Arte de HASHIME MURAYAMA

Ilustração de três sapos do rio Colorado (Bufo alvarius).

Arte de HASHIME MURAYAMA

O sapo da espécie Incilius alvarius, também conhecido como sapo bufo alvarius ou sapo do Rio Colorado (ou ainda sapo do Deserto de Sonora), é encontrado nos Estados Unidos e no México e se tornou popular nos últimos anos devido às características psicoativas das substâncias de seu veneno. Quem explica mais sobre a espécie é um artigo do Instituto Butantan publicado em 2022 no site oficial da instituição. 

O uso da toxina, segundo o Butantan – instituição brasileira de pesquisa que é a maior produtora de vacinas e soros contra venenos de animais peçonhentos da América Latina –, tem sido motivado por fins recreativos e em rituais de cunho religioso para tratar transtornos mentais com a finalidade de ajudar no tratamento de depressão e ansiedade. 

(Relacionado: como toxinas naturais contribuem para novos medicamentos)

Segundo a instituição, o tão cobiçado veneno é liberado quando o animal se sente ameaçado e acontece a partir da pressão nas glândulas de sua pele (que pode acontecer quando um predador o abocanha o aperta). Para o uso, o veneno bruto é seco para ser consumido como fumo ou por injeções intravenosas. 

Apesar dessa prática estar se tornando frequente, o Butantan alerta que as substâncias presentes no veneno podem trazer perigos à saúde humana e a coleta da espécie para este fim – geralmente ilegal – pode empurrá-lo para entrar na lista de animais ameaçados de extinção. Hoje, de acordo com a classificação da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), a espécie Incilius alvarius está na categoria de ameaça menos preocupante. 

Qual a principal substância do veneno do sapo bufo alvarius?

O princípio psicoativo do veneno do sapo bufo é ocasionado principalmente pela presença de uma substância chamada 5-MeO-DMT, (5-metoxi-N, N-dimetiltriptamina ou O-metil-bufotenina). 

Em baixas concentrações, a substância também está presente em uma variedade de plantas, arbustos e sementes, como os rapés sul-americanos Virola sebifera e em ingredientes da bebida ayahuasca, segundo explica o documento “Domínio Epidemiologia: Efeitos e riscos das novas Substâncias Psicoativas em circulação no país”, elaborado pelo Ministério da Cidadania do Brasil.

Considerado um agente psicodélico, o 5-MeO-DMT é da classe das triptaminas de ocorrência natural – assim como a psilocina e a psilocibina presentes nos “cogumelos mágicos”, informa o documento do ministério. 

No Brasil, o uso médico e recreativo da substância é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O mesmo ocorre em outros países, como nos Estados Unidos, em que o alucinógeno do sapo bufo é classificado – assim como a heroína – como uma substância que apresenta falta de segurança para uso sob supervisão médica e alto potencial de abuso de acordo com a Lei de Substâncias Controladas (CSA, na sigla em inglês) do país. 

Quais são os efeitos do veneno do sapo bufo no organismo humano? 

O documento apresentado pelo ministério brasileiro informa que o 5-MeO-DMT é um alucinógeno potente, de ação rápida e de curta duração em humanos. Os efeitos começam entre três a quatro minutos depois da ingestão, atingem o pico em cerca de 35 a 40 minutos e terminam depois de uma hora. 

Os efeitos são semelhantes aos de outros psicodélicos de triptamina, como o presente nos cogumelos, e podem incluir distorções na percepção visual, auditiva e temporal, experiências emocionais e comprometimento da memória. Além disso, o veneno do sapo bufo pode levar a uma amplificação de estados emocionais e sentimentos de dissolução do ego, informa o artigo do Butantan. 

O documento ressalta que entre os efeitos conhecidos relacionados à substância também estão: 

  • Medo;
  • Tristeza; 
  • Ansiedade; 
  • Confusão; 
  • Fadiga;
  • Choro; 
  • Paranoia; 
  • Tremores; 
  • Vômitos; 
  • Náusea; 
  • Dor de cabeça; 
  • Pressão no peito ou abdômen;  
  • Perda da percepção corporal. 

O veneno sapo bufo pode ser usado para tratamentos de saúde mental?

Nos últimos anos, ainda de acordo com o informe brasileiro, estudos científicos apontam o 5-MeO-DMT como útil no tratamento de condições de saúde mental quando em combinação com terapias psicológicas. 

Por exemplo, uma pesquisa realizada pelo Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), uma instituição sem fins lucrativos que visa promover o ensino e o conhecimento científico na área de saúde, em parceria com cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi a primeira a mostrar que o 5-Meo-DMT mexe com mais de mil proteínas no tecido cerebral humano vivo. 

A pesquisa, publicada na revista científica Journal of Neurochemistry em 2022, sugere que uma única exposição ao 5-MeO-DMT pode causar reduções rápidas e sustentadas nos sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Além disso, o trabalho também indica que a substância estimula a função neuroendócrina, imunorregulação e processos anti-inflamatórios no cérebro, o que pode contribuir em tratamentos de saúde mental.

O estudo alerta, no entanto, que mais pesquisas são fundamentais para aumentar a compreensão dos potenciais efeitos clínicos do psicoativo. 

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