Fóssil de 230 milhões de anos é dinossauro mais antigo da África

Encontrado no atual Zimbábue, fóssil vai ajudar a revelar a origem de todos os dinossauros. Novo achado é um ancestral relativamente pequeno dos saurópodes, os gigantes de pescoço comprido.

Por Michael Greshko
Publicado 2 de set. de 2022 10:08 BRT
Mbiresaurus raathi

Em um sistema fluvial trançado no que hoje é o norte do Zimbábue, há 230 milhões de anos viveu um primo ancestral distante dos dinossauros saurópodes gigantes de pescoço comprido. Ossos deste dinossauro, chamado Mbiresaurus raathi, foram revelados como os mais antigos fósseis de dinossauros definitivos na África.

Foto de Illustration by Andrey Atuchin

Os dinossauros de pescoço comprido, conhecidos como saurópodes, foram os maiores animais a caminharem na Terra. Contudo, um esqueleto incrivelmente completo, encontrado no norte do Zimbábue, indica que o surgimento desses gigantes – alguns dos quais pesavam mais de 60 toneladas – foi um pouco mais modesto. 

O fóssil recém-descoberto, revelado recentemente na revista científica Nature, é o dinossauro mais antigo descoberto na África, datado de cerca de 230 milhões de anos, durante o período Triássico. O animal também é um dos primeiros ancestrais conhecidos dos saurópodes, o grupo que inclui os icônicos gigantes de pescoço comprido, como o braquiossauro e o brontossauro. Embora o animal estivesse se aproximando da idade adulta quando morreu, os especialistas estimam que teria menos de 60 centímetros de altura até o quadril.

Local onde foi encontrado o Mbiresaurus, visto aqui em 2019, quando os paleontólogos Sterling Nesbitt e Kudzie Madzana o escavaram cuidadosamente. O campo fica nas terras de Dande, no norte do Zimbábue.

Foto de Murphy Allen

Com uma cabeça pequena, dentes alongados e um pescoço de comprimento modesto, “é quase como um dinossauro genérico não carnívoro, como aqueles desenhados pelas crianças”, afirma o paleontólogo Chris Griffin, pesquisador da Universidade de Yale, que realizou o estudo enquanto cursava seu doutorado na Virginia Tech. 

Seu nome científico, Mbiresaurus raathi, homenageia Mbire, um império histórico do povo shona, do Zimbábue, que já incluiu o local onde o fóssil foi recuperado. O dinossauro também foi batizado em homenagem ao paleontólogo sul-africano Michael Raath, cujo trabalho na década de 1990 contribuiu para sua descoberta.

Devido à sua idade, o Mbiresaurus e outros fósseis encontrados nas proximidades esclarecem como os dinossauros surgiram e se espalharam pela Terra antiga durante o Triássico, que se estendeu de 252 milhões a 205 milhões de anos atrás. Marcado por duas extinções em massa e repleto de grandes mudanças climáticas, o Triássico foi um importante período de transição para a vida na Terra. Durante esse período, as linhagens ancestrais de diversos grupos importantes de répteis começaram a se separar, dando origem aos dinossauros, bem como aos crocodilianos e aos répteis voadores conhecidos como pterossauros.

“Foi nessa época em que a magia aconteceu”, destaca a paleontóloga Kimi Chapelle, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, que não participou do novo estudo.

Novo local com antigos dinossauros

Décadas de achados fósseis sugerem que os dinossauros evoluíram pela primeira vez há cerca de 245 milhões de anos nas regiões mais ao sul do antigo supercontinente conhecido como Pangeia. Agora, divididas entre África, América do Sul e Índia, as massas de terra restantes do sul da Pangeia contêm fósseis que revelam que os primeiros dinossauros não eram nem de longe tão grandes ou diversificados quanto se tornariam um dia. Pequenos, limitados e esquivos, viveram durante grande parte do Triássico na sombra de um grupo de antigos primos crocodilos conhecidos como pseudossúquios.

Embora a Pangeia fosse uma única massa de terra, seu clima variava muito. As extensões do supercontinente próximas aos polos eram exuberantes e hospitaleiras, mas os cinturões tropicais ao norte e ao sul do equador eram pouco convidativos: quentes, áridos e suscetíveis a incêndios. 

“Na Pangeia, era possível caminhar do Polo Norte ao Polo Sul. Não havia grandes barreiras físicas visíveis, como cadeias de montanhas gigantes”, comenta um dos autores do estudo, Sterling Nesbitt, paleontólogo da Virginia Tech e antigo orientador de doutorado de Griffin. “Mas existiam algumas barreiras climáticas.”

Em um laboratório de paleontologia na Virginia Tech, Christopher Griffin segura um dos pequenos, porém robustos ossos do quadril do Mbiresaurus sobre bandejas contendo o esqueleto do dinossauro.

Foto de Murphy Allen

Reconstruir como a vida reagia a essas barreiras é complicado, com base em pistas obtidas apenas em alguns sítios fossilíferos espalhados por aí. Com base principalmente em espécimes do início do Triássico encontradas na Argentina e no Brasil, os paleontólogos acreditam que, durante o período de origem dos dinossauros, desertos ao longo da linha do equador separavam os animais. Isso fez Griffin pensar: a África Austral possui rochas tão antigas quanto as da Argentina e do Brasil. Será que esses depósitos também abrigam os dinossauros mais antigos do mundo?

Griffin visitou o Zimbábue em 2015 e conheceu uma equipe de paleontólogos e funcionários do museu que estavam dispostos a trabalhar juntos para encontrar a resposta. “Já estávamos trabalhando na área, mas com recursos e experiência limitados”, conta um dos autores do estudo, Darlington Munyikwa, do Departamento Nacional de Museus e Monumentos do Zimbábue. “Estabelecer essa parceria foi muito importante para nós.”

Durante sua então visita, Griffin se deparou com um artigo de 1992, de coautoria do paleontólogo Michael Raath, que descrevia locais nas terras comunais de Dande, uma região tribal no norte do Zimbábue, perto da fronteira com a Zâmbia e o Moçambique. Para a alegria de Griffin, os locais descritos por Raath continham os ossos de um réptil triássico de cabeça triangular chamado rincossauro. Com base em fósseis sul-americanos, Griffin sabia que rochas com idade suficiente para abrigar rincossauros também podiam conter os dinossauros mais antigos.

À esquerda: No alto:

 

Christopher Griffin limpa cuidadosamente o excesso de rocha de uma tíbia de Mbiresaurus no laboratório de paleontologia da Virginia Tech.

À direita: Acima:

Para ver quão maduro era o Mbiresaurus quando morreu, os pesquisadores cortaram uma seção fina da tíbia e a poliram até ficar translúcida. Com base nos padrões de crescimento do osso e outras características esqueléticas, o dinossauro estava mais maduro quando morreu.

fotografias de Murphy Allen

Em parte devido a um subsídio oferecido pela National Geographic Society, Griffin retornou no fim de julho de 2017 e refez os passos de Raath com uma equipe de paleontólogos locais. Ele se lembra da brisa fresca de uma manhã de inverno do Zimbábue, que balançava a folhagem ao longo dos leitos secos dos rios, e das abelhas sem ferrão do tamanho de mosquitos, da espécie Plebeina hildebrandti, zumbindo perto de sua cabeça, quando os pesquisadores começaram a trabalhar.

Eles tiveram sucesso quase que imediatamente. “No primeiro dia em que estávamos em campo, encontramos uma enorme quantidade de fósseis – os fósseis estavam simplesmente saindo da rocha”, diz Griffin.

No primeiro dia em campo, a paleontóloga do Zimbábue e coautora do estudo Hazel Turavinga encontrou um fragmento de osso da perna que indicou que a equipe estava no caminho certo. Antes do meio-dia do dia seguinte, Griffin olhou para baixo e viu um fêmur fossilizado saindo do chão. À medida que escavava para retirar o osso do solo sedoso, percebeu que o fóssil era um dinossauro – e que o quadril estava bem próximo ao osso da perna, sugerindo que uma boa parte do animal ainda estava enterrada.

“Naquele momento, precisei me sentar e respirar um pouco”, conta Griffin.

Conhecendo melhor os dinossauros e seu habitat

As cuidadosas escavações revelaram o que hoje é o Mbiresaurus em condições esplêndidas. Entre o primeiro esqueleto e alguns restos de um segundo indivíduo, faltam apenas algumas vértebras, ossos da mão, um osso do tornozelo e algumas partes do crânio.

Algumas partes do esqueleto, como um dos pés, preservaram até mesmo as articulações. Após conhecerem o potencial fóssil do local, Griffin e seus colegas voltaram em 2019 para mais três semanas de escavações, novamente financiadas pela National Geographic Society.

À esquerda: No alto:

Mbiresaurus não foi o único tipo de dinossauro encontrado no campo. Na foto, Griffin escava algumas vértebras da cauda de um tipo de dinossauro predador chamado herrerassaurídeo.

À direita: Acima:

Para proteger blocos de rochas ricas em fósseis, os paleontólogos os revestem com jaquetas de gesso protetoras antes de tirá-los do campo.

fotografias de Murphy Allen

O Mbiresaurus se destaca porque ajuda a revelar a anatomia dos primeiros sauropodomorfos, diz Chapelle, especialista nesse grupo de dinossauros. Por exemplo, para Chapelle, o quadril parece especialmente primitivo quando comparado aos dos dinossauros que vieram depois.

Os quadris são uma estrutura importante para os dinossauros. Desde a década de 1880, a maior bifurcação na árvore genealógica dos dinossauros foi definida pelo formato do quadril, e uma das principais características esqueléticas que define os dinossauros pode ser encontrada no encaixe do quadril. O osso do quadril do Mbiresaurus possui características antigas o suficiente para especificar a posição que ele ocupa perto da base da árvore genealógica dos dinossauros. “É um espécime incrível”, diz ela.

O local também ajudou os paleontólogos a aprender mais sobre o ecossistema que o Mbiresaurus chamava de lar: um sistema fluvial ramificado com vazão suficiente para desprender rochas e formar os seixos da Formação Pebbly Arkose, as camadas de rocha nas quais o Mbiresaurus foi encontrado.

Uma vegetação exuberante servia de alimento a diferentes herbívoros e onívoros cobertos por escamas, incluindo os rincossauros de crânio triangular, os aetossauros, uma versão mais robusta de seus primos jacarés, e os cinodontes, primos reptilianos distantes dos mamíferos. A equipe até mesmo encontrou alguns ossos de um dinossauro predador chamado herrerassaurídeo que teria quase dois metros de altura até o quadril.

Os animais da Formação Pebbly Arkose se assemelham a fósseis de idade semelhante encontrados na Argentina e no Brasil. A correspondência sugere fortemente que as áreas no sul da Pangeia ao longo de latitudes semelhantes tinham os mesmos grupos de animais, embora não as mesmas espécies. “É estranho escavar um monte de ossos na África e, dois anos depois, ver tudo o que você escavou em exposição em um museu brasileiro”, brinca Griffin.

As rochas do Zimbábue abrigam muitos fósseis diferentes do período Triássico, incluindo essas folhas encontradas em um depósito de turfa fossilizada com mais de 227 milhões de anos.

Foto de Murphy Allen

Esse tempo condiz com o que se sabe sobre o clima triássico. Entre 235 milhões e 230 milhões de anos atrás, a Terra sofreu com o aumento dos níveis de chuva e umidade durante alguns milhões de anos, um período conhecido Evento Pluvial Carniano. Durante esse período, os desertos tropicais da Pangeia foram reduzidos e se tornaram mais hospitaleiros, o que poderia ter dado aos dinossauros a oportunidade de migrar para novas áreas.

“É bastante possível que os primeiros dinossauros não tenham dominado o planeta logo de cara. Eles estavam restritos, habitavam apenas uma determinada área, apenas um determinado ambiente e somente ganharam o mundo mais tarde ao longo de sua evolução”, explica Griffin.

Construindo um novo legado

O trabalho nos fósseis da Formação Pebbly Arkose está apenas começando. Até o momento, os pesquisadores descreveram em detalhes apenas os ossos do Mbiresaurus e suspeitam que alguns dos outros répteis encontrados ao lado dele também representem espécies novas.

Os pesquisadores estão animados com as descobertas que estão por vir – especialmente agora que mostraram que a África contém fósseis dos primórdios dos dinossauros.

“Na África, encontramos as linhagens mais antigas de humanos e hominídeos, mas ainda não havíamos encontrado as de dinossauros, pois simplesmente não tínhamos esse período representado”, diz Nesbitt. “Isso realmente coloca a África como local de origem dos dinossauros.”

De modo importante, a equipe está tomando medidas para garantir que os fósseis encontrados na Formação Pebbly Arkose permaneçam no Zimbábue. Muitos estão atualmente emprestados à Virginia Tech para preparação e digitalização, mas assim que ficarem prontos, serão devolvidos ao Museu de História Natural do Zimbábue, onde ficarão para sempre. 

“É nossa herança, simples assim”, destaca Munyikwa. “Deve ser acessível a todos, mas deve ficar sob a guarda da nossa instituição.”

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