Sistema agrícola tradicional – como os saberes indígenas podem salvar a Amazônia
Ao longo do Rio Negro e seus afluentes, 23 povos indígenas vivem, produzem e se alimentam com base em práticas agrícolas ancestrais que mantêm a floresta em pé. National Geographic lança série de minidocumentários no mês da Amazônia.

O rio Negro atravessa a porção norte da Amazônia brasileira, na divisa com Colômbia e Venezuela. Ao longo de seu curso habitam cerca de 80 mil indígenas de 23 povos, caso dos Baniwa, Baré, Desana, Piratapuya, Tariano, Tukano e Tuyuka. Cada etnia identifica-se com o seu território, suas entidades da floresta e suas práticas ancestrais. A soma dos conhecimentos, saberes e rituais dá forma ao que se conhece como sistema agrícola tradicional (SAT). Esse conjunto de símbolos, ritos e técnicas aplicado pelas comunidades que vivem no Alto Rio Negro e seus afluentes é patrimônio cultural brasileiro desde 2010. O SAT integra não só a cosmologia destes povos indígenas, mas é o modo como eles se relacionam com a floresta, como plantam e produzem, e como se alimentam.
Entre 28 de junho e 15 de julho, o fotojornalista Fellipe Abreu percorreu o Rio Negro, com o apoio do Instituto Socioambiental e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, e acompanhou in loco algumas das principais práticas do sistema agrícola tradicional: os plantios, o manejo da roça com o uso do fogo, as colheitas de diversos ingredientes e os muitos preparos e receitas tradicionais – em especial as que usam a maniva (ou mandioca), um ingrediente central no funcionamento da roça, da família e da comunidade, e base da cultura alimentar dos indígenas do Rio Negro.
Abreu também acompanhou a atuação dos agentes indígenas de manejo ambiental e registrou o alerta dos conhecedores indígenas sobre as consequências das mudanças climáticas para toda a biodiversidade amazônica. Ao todo, foram percorridos cerca de 1 mil quilômetros nos rios Negro, Uaupés e Demini, além de igarapés e igapós, nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, onde foram entrevistadas cerca de 30 pessoas.
Em setembro, o mês da Amazônia, a National Geographic Brasil publicará uma série de três reportagens e três minidocumentários sobre o sistema agrícola tradicional do Rio Negro. A primeira reportagem explicará como funciona as práticas agrícolas ancestrais e seu lugar na cosmologia dos povos indígenas da região. A segunda matéria será dedicada à relação entre o SAT e a economia da floresta, a exemplo do projeto Casa de Frutas e da participação da agricultura indígena no Programa Nacional de Alimentação Escolar. A terceira publicação abordará os impactos das mudanças climáticas no norte da Amazônia brasileira, bem como a relação disso com os conhecimentos da tradição indígena.

As Serras Guerreiras de Tapuruquara estão situadas próximo à comunidade Cartucho, no município de Santa Isabel do Rio Negro.
As Serras Guerreiras de Tapuruquara estão situadas próximo à comunidade Cartucho, no município de Santa Isabel do Rio Negro.

Já com as manivas descascadas e lavadas, as mulheres usam os aturás para transportar as manivas para a casa de forno, onde serão destinadas a uma série de preparos, como farinha, beiju, tapioca,, curadá, caxiri, tucupi, mingau, entre outros. Confira reportagem completa.
Já com as manivas descascadas e lavadas, as mulheres usam os aturás para transportar as manivas para a casa de forno, onde serão destinadas a uma série de preparos, como farinha, beiju, tapioca,, curadá, caxiri, tucupi, mingau, entre outros. Confira reportagem completa.

Seu Jaime, pescador da etnia Baniwa, aproveita as primeiras luzes do dia para revisar as armadilhas de pesca espalhadas em estreitos igarapés do rio Uaupés.
Seu Jaime, pescador da etnia Baniwa, aproveita as primeiras luzes do dia para revisar as armadilhas de pesca espalhadas em estreitos igarapés do rio Uaupés.

Pimentas de diversas variedades recentemente colhidas na roça da Dona Ducila, na comunidade Boa Vista, em São Gabriel da Cachoeira.
Pimentas de diversas variedades recentemente colhidas na roça da Dona Ducila, na comunidade Boa Vista, em São Gabriel da Cachoeira.

Cristina da Silva, 49 anos, do povo Baniwa, carrega seu pesado aturá, com aproximadamente 30 quilos de maniva.
Cristina da Silva, 49 anos, do povo Baniwa, carrega seu pesado aturá, com aproximadamente 30 quilos de maniva.

Rosivaldo Miranda, do povo Piratapuya, é um dos cerca de 50 agentes indígenas de manejo ambiental que atuam na bacia do Rio Negro. O projeto é uma parceria entre o Instituto Socioambiental e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.
Rosivaldo Miranda, do povo Piratapuya, é um dos cerca de 50 agentes indígenas de manejo ambiental que atuam na bacia do Rio Negro. O projeto é uma parceria entre o Instituto Socioambiental e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.

Roça queimada na comunidade Itacoatiara Mirim, no município de São Gabriel da Cachoeira. Aproximadamente uma semana após a queima da roça, acontece o plantio das manivas. O plantio não pode demorar muito a acontecer, para evitar que o mato cresça e dispute os nutrientes do solo com as manivas plantadas.
Roça queimada na comunidade Itacoatiara Mirim, no município de São Gabriel da Cachoeira. Aproximadamente uma semana após a queima da roça, acontece o plantio das manivas. O plantio não pode demorar muito a acontecer, para evitar que o mato cresça e dispute os nutrientes do solo com as manivas plantadas.

Seu Paulo Alves Miranda, 61, agricultor e pescador do povo Piratapuya, vira os peixes que estão moqueando na estrutura de madeira. Nesse tipo de preparo, o peixe é cozido e defumado aos poucos com o calor e a fumaça da fogueira.
Seu Paulo Alves Miranda, 61, agricultor e pescador do povo Piratapuya, vira os peixes que estão moqueando na estrutura de madeira. Nesse tipo de preparo, o peixe é cozido e defumado aos poucos com o calor e a fumaça da fogueira.

Na calha do Uaupés, um dos afluentes do Rio Negro, se concentram os povos indígenas da família linguística Tukano Oriental.
Na calha do Uaupés, um dos afluentes do Rio Negro, se concentram os povos indígenas da família linguística Tukano Oriental.

Dona Mercedes Gregório, 74, do povo Baniwa, descasca maniva na cozinha do Sítio São Bernardino, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira.
Dona Mercedes Gregório, 74, do povo Baniwa, descasca maniva na cozinha do Sítio São Bernardino, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira.

Cristina da Silva, Vanessa Hermínia e Elvi Hermínia Luiz, todas do povo Baniwa, preparam as manivas recém-colhidas e carregam os aturás – o tradicional cesto indígena.
Cristina da Silva, Vanessa Hermínia e Elvi Hermínia Luiz, todas do povo Baniwa, preparam as manivas recém-colhidas e carregam os aturás – o tradicional cesto indígena.

Dona Ducila Oliveira Álvares, do povo Baniwa, colhe pimentas em sua linda roça. Em poucos minutos, ela já tinha colhido oito variedades diferentes de pimenta.
Dona Ducila Oliveira Álvares, do povo Baniwa, colhe pimentas em sua linda roça. Em poucos minutos, ela já tinha colhido oito variedades diferentes de pimenta.

Dona Maria Célia, do povo Baré, prepara farinha de mandioca na cozinha do Sítio São Lázaro, localizado na comunidade Paraná, no município de Santa Isabel do Rio Negro.
Dona Maria Célia, do povo Baré, prepara farinha de mandioca na cozinha do Sítio São Lázaro, localizado na comunidade Paraná, no município de Santa Isabel do Rio Negro.

Após a colheita, as mulheres Baniwas levam as manivas para a beira do igarapé Cachoeirinha, onde serão descascadas e lavadas na água corrente.
Após a colheita, as mulheres Baniwas levam as manivas para a beira do igarapé Cachoeirinha, onde serão descascadas e lavadas na água corrente.

Barco corta as águas do rio Uaupés, depois de mais um dia de pesca.
Barco corta as águas do rio Uaupés, depois de mais um dia de pesca.
Esta série de reportagens e documentários contou com apoio do Instituto Socioambiental e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, pesquisa e roteiro de viagem de Ana Amélia Hamdan, Juliana Radler e Marina Terra e produção local de Ana Amélia Hamdan e Moisés Baniwa.










