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Tragédia árida e silenciosa martiriza comunidades da Índia, Etiópia e sertão de Minas Gerais

Fotógrafo registra um drama cada vez mais comum em diversas regiões do mundo nos últimos tempos: a escassez de água potável.Friday, March 22

Por Érico Hiller
A cidade de Turmi, no sul da Etiópia, é habitada pela etnia Hammer. Na estação seca, as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, cavam buracos nos leitos secos dos rios em busca de uma linha de água para consumo. Ingerida sem tratamento ou fervura, a água contaminada é fonte de grande parte das doenças que matam cerca de 8,5 mil crianças abaixo dos cinco anos de idade por ano.

Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais

Cruzei um trecho caudaloso do rio Jequitinhonha, em Minas Gerais, com meu carro sobre uma balsa. Parecia impossível reconhecer que justamente a água era um problema por ali. Um pouco mais adiante, quando passei por uma fazenda árida na comunidade Retiro, entrei na residência de Dona Márcia Lima. Ela começou se desculpando pela bagunça. Tentei criar um ambiente descontraído, mas, em vez de causos, desta vez pairava uma ansiedade no ar. Contei que estava ali para entender seus problemas relacionados à água. Foi então que ela não resistiu e começou a chorar com as mãos trêmulas sobre os olhos. “Eu pedi hoje mesmo a Deus que me enviasse anjos, e vocês apareceram!”, disse. “Nós vivemos nessa miséria. Olha as roupas que estamos usando. Bebemos só a água da chuva e nos banhamos num lamaçal”.

Dona Márcia me leva a uma nascente desprotegida, fétida e esverdeada. É a única forma de tomar banho, mesmo na época de chuvas. O caminhão pipa é um curativo não sustentável à situação – famílias esperam entre 90 e 120 dias para receberem água tratada. “Fazemos tudo que podemos, não temos recursos. Às vezes, o que dá para fazer é enviar o caminhão pipa uma vez ao dia. É uma família de cada vez, olha o tamanho da lista”, conta o secretário de obras da cidade de Almenara (MG), Juraci Botelho, com uma pilha enorme de papéis na mão.

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Este ano, todo o Vale do Jequitinhonha alimentou o plácito de um período mais chuvoso, com boas perspectivas para a lavoura, depois de mais de sete anos de estiagem. Passou janeiro e fevereiro e nada. Em plena estação de chuvas, o que vimos até agora foram apenas duas precipitações fortes, porém rápidas, que caíram em áreas dispersas e serviram apenas para dar um breve ânimo aos esperançosos trabalhadores rurais deste vale de cerrado, cheio de grotas e algumas veredas resilientes, no nordeste mineiro. Depois de nos mostrar uma jiboia que tinha acabado de matar, Dona Márcia se despediu de mim: “Dizem que estou ficando louca, mas não estou. Como se pode viver assim? A coisa que eu mais quero no mundo são meus filhos perto de mim… E água!”.

O clima mais seco bagunçou a vida no vale mineiro de uma década para cá, transformando a situação em inferno para os que moram em comunidades mais afastadas dos grandes municípios. São pequenos grupos rurais, famílias dispersas e alguns quilombolas que vivem como podem com pouca água e em constante espera de chuva para abastecer suas cisternas. São regiões como as que visitei de Córrego de Narciso, Prata, Chapada do Norte, Palestrina, entre outras. Em locais como esses, os jovens migram para as cidades grandes, e os pais, geralmente com idade avançada, não dão conta da roça, cuja produção mal dá para o consumo próprio. Sem alternativa, precisam fazer compras em mercados, gastando o que ganham de aposentadoria ou do Bolsa-família, esgotando suas economias para ter pelo menos um café para tomar.

Essa região do Brasil sofre especialmente com a crise da água, pois, ao contrário do vizinho semiárido no Nordeste, o Vale do Jequitinhonha é um ponto de confluência de biomas. Pior ainda, teve grande parte de seu cerrado (flora e fauna) devastado pelas plantações infinitas de eucaliptos, cujo destino é virar carvão para aquecer os fornos da indústria siderúrgica. E o reflexo mais facilmente percebido da insustentabilidade dessa cadeia produtiva de metais pesados é o dreno de nascentes em encostas. As minúsculas linhas d’água que perenizam o rio Jequitinhonha através de seus afluentes passaram a secar de forma assustadora. Em outros casos estão assoreando e poluindo rios como o Fanado e o Araçuaí.

Eu comia um delicioso requeijão fresco numa manhã de domingo na casa do Seu André Dias, na cidade de Turmalina, quando ele me mostrou na parede um desenho em uma cartolina. Ele teve o cuidado de mapear todas as nascentes conhecidas da região e o destino de cada uma delas. Das 29 que existiam, quatro já secaram. No passado, não era assim. Em conversas com mais de 20 famílias em diversas comunidades do Vale do Jequitinhonha em fevereiro de 2019, constatei, a partir da boca dos moradores – quase todos nascidos ali mesmo –, que o clima mudou. Muito. As chuvas eram mais regulares e mais bem distribuídas.

Garota toma água em sua humilde residência nos subúrbios da cidade de Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha.

“Estamos observando uma mudança do padrão de comportamento da chuva. É indiferente se a alteração do clima é antrópica ou não, o que estamos vivendo hoje é uma nítida aceleração dos processos de convecção”, disse Roberto Kirchhein, hidrogeólogo do Serviço Geológico Nacional. “A água evapora, circula e volta a chover. Chuvas torrenciais que antes tinham um período de retorno mais amplo começam a acontecer com mais frequência. E o período de estiagem, também. São tempestades intercaladas de secas”.

Encontrei acidentalmente o Seu Itamar Jesus cavando um poço no quintal de casa na área rural de Pedra Grande. “É o segundo que já perfurei na enxada. O primeiro já estava com 25 metros, mas desmoronou uma parte e perdi o trabalho. Agora, este aqui tem 13 metros”, conta ele. Para me explicar como fez para escolher o local da perfuração, ele quebra uma forquilha de madeira de uma planta e mostra o galho se curvando para o solo como um ponteiro. Eu me assustei com a cena quase mística e tentei fazer igual, sem sucesso. Esse método de achar água faz parte do imaginário e da transferência de saberes que são passados de geração em geração. De fato, trata-se de um fundamento de rabdomancia, em que um campo magnético é estabelecido entre a pessoa e a água profunda em movimento. Chega a ser perturbador quando vemos o fenômeno pela primeira vez. Agachado no chão, em uma posição que fazia eu parecer um sapo, tento de novo, sem sucesso. Cauê, filho do Seu Itamar, dá risadas, diz que meu sangue não deve ser tão bom. O método representa uma fonte de precisão formidável para os que o usam e combinam seu conhecimento com o da região. “Não costuma falhar, mas acho que terei que cavar muito até encontrar a água”, lembra Seu Itamar.

Ladakh, um grande deserto na Índia

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Assim como no Vale do Jequitinhonha, a fartura se converteu em temor em diversos outros confins do planeta. A mudança do clima pode ser um fenômeno global, mas se manifesta no estresse cotidiano de quem percebe a escassez se aproximando. Sobretudo famílias em vilarejos, longe das cidades, que dependem da chuva, de rios e do derretimento de geleiras, que outrora ofereciam tranquilidade hídrica. Um dos locais que mais sentem o aquecimento do planeta são as cidades que vivem encravadas nos veios do Himalaia, na Ásia. Estive em Ladakh, formalmente norte da Índia, em dezembro de 2018 para testemunhar essa metamorfose no estilo de vida das pessoas.

A senhora Stanzin Iadol me leva até seu vilarejo natal Shara, não muito longe da cidade de Leh, a maior da região. Hoje sua casa está abandonada e a vila inteira foi evacuada por um motivo primal: acabou a água. Certo dia, com o adubo já distribuído sobre a terra, os moradores olharam a geleira secar e a água veio apenas em miúdos filetes. O maior dos temores se transformara em realidade – a água nunca mais voltou. Ela me leva até sua antiga casa vazia onde nasceu e vivera anos de felicidade e fartura. Foi construída por seu avô há quase 100 anos. Apenas alguns sapatos velhos e utensílios domésticos empoeiradas restavam no chão. Assim como a água, a saga humana terminou em Shara e todos se foram.

Essa parte da Índia mais se assemelha a um grande deserto, não fosse o fato de que nos invernos severos tudo se transforma em uma massa branca infinita de neve. A contradição é que a mesma neve que deveria prover água pelo derretimento está vindo e indo mais rápido, não garantindo a perenidade e, portanto, o controle de sua vazão. O gelo precisaria derreter ao longo das meias estações e no verão, deixando o suficiente para as pessoas e para a lavoura pelo resto do ano. Assim, muitas soluções que eram eventualmente praticadas por antepassados tornaram-se o conhecimento vital para a sobrevivência em outras regiões de Ladakh – uma delas é desviar o curso da água do derretimento do gelo para se produzir pequenas geleiras artificias em encostas sombreadas. Funcionando como as barragens que vi no Jequitinhonha, as galerias artificiais têm permitido que as vilas “estoquem” água o suficiente na forma de gelo, driblando o clima enquanto ainda é possível, garantindo o mínimo para sobreviver, pelo menos até que chegue a um contribuinte do rio Indus, o maior da região. A vida ainda resiste por meio da sabedoria.

Etiópia – água suja é uma das principais causas de morte

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No começo de 2019, circulei por mais de 3 mil km pela Etiópia. Pude testemunhar histórias e encontros com pessoas que me fizeram sublinhar alguns números assustadores. De acordo com a ONG WaterAid, apenas nesse país africano mais de 69 milhões de pessoas não têm acesso à água limpa; mais de 93 milhões não têm acesso a um banheiro decente e 8,5 mil crianças abaixo de cinco anos morrem todos os anos por causa de diarreia ligada ao consumo de água suja.

Ao chegar no pequeno município de Turmi, encravado no vale do rio Omo, no extremo sul da Etiópia, fui visitar o hospital local. A unidade médica estava movimentada pois era dia de mercado, quando as pessoas da etnia hammer, passam pela região e aproveitam para se consultar com o médico, Dr. Seid Ebrahim, que domina os dialetos locais. Os casos são diversos – de picadas de cobra a pacientes com malária avançada. O hospital tem uma boa estrutura, por ter recebido equipamentos de entidades e doações. Há máquinas de ultrassom, uma maternidade bem arrumada e uma incubadora para os recém-nascidos que requerem cuidados especiais no pós-parto. As pessoas trabalham muito, os médicos possuem uma atitude sorridente e humanizada e penso que ali é uma dádiva em uma região que parece carecer de tudo. Ao passar os olhos pelo prontuário daquela manhã, vejo alguns números muito ilustrativos: de 20 pacientes, sete estavam lá por problemas relacionados à água.

No vilarejo de Densa, não longe da malha urbana de Lalibela, na Etiópia, mulheres e crianças carregam água que pegaram em um poço cavado pelo governo local. Mesmo sendo um oásis em um lugar desértico, as pessoas ainda precisam carregar pesados galões de água por muitos quilômetros.

Não muito longe do hospital de Turmi, caminhei pelo leito seco e arenoso do rio Keske. Os moradores estavam cavando enormes buracos com as mãos para achar uma linha de água barrenta a uns 2 metros de profundidade. Fiquei muito perturbado, mas a cena foi se tornando cada vez mais comum. Entrei em um desses buracos e percebi como são claustrofóbicos e como a água negra tinha uma infinidade de formigas, abelhas e outros insetos mortos. As pessoas se revezam no trabalho de coleta, usando um galho de árvore como escada. Para mim, a imagem mais emblemática da escassez de água que eu jamais havia testemunhado, era a rotina de todos – empresários, crianças, mulheres, idosos – que cavavam, pegavam um pouco de água escura e levavam embora como podiam – ora nas costas, ora em charretes puxadas por uma mula. De vez em quando, um caminhão pipa se acoplava ao buraco com uma bomba elétrica para sorver o barro úmido. Incomodado com a situação, inocentemente eu perguntei para algumas pessoas se a água era ao menos filtrada ou fervida para o consumo. Então, o pequeno garoto Musa pegou a garrafa com a água amarelada que carregava no ombro e bebeu diante dos meus olhos. Ninguém sequer limpa a água antes de beber, ela é servida inclusive para bebês recém-nascidos, e esse relato foi se confirmando cada vez mais.

De acordo com a especialista Maude Barlow, “o número de crianças mortas devido à água suja supera o de mortes por guerras, malária, HIV e acidentes de trânsito”. Em seu livro Água - Pacto Azul, ela aponta pelo menos três cenários para nossa reflexão: o mundo está ficando sem água doce por desvio, esgotamento ou poluição das fontes disponíveis; a cada dia, mais pessoas estão vivendo sem acesso à água limpa; há um obscuro cartel corporativo capaz de assumir o controle de todos os aspectos da água a fim de obter lucro em benefício próprio.

Toda essa documentação de histórias da água pelo mundo também me leva a constatar que essa é uma saga predominantemente feminina. Assim como Márcia, no Brasil, Stanzin, na Índia, ou as mulheres hammers na Etiópia, muitas outras mundo afora estão sendo as protagonistas de uma geração que precisa lidar com as decisões e o legado de quem não priorizou a água no passado. Hoje, a ideia da fonte infinita dá lugar a um tom mais realista: a água nunca vai acabar, mas as fontes limpas estarão disponíveis apenas para os que poderão pagar por elas. Um drama ecológico que deve aprofundar as diferenças entre as pessoas, transformando-o num drama humanitário.

A senhora Worku carrega água em um pote tradicional de barro. Ao lado de uma imensa árvore, a região seca sofre nas estações sem chuvas, forçando as mulheres a andarem muitos quilômetros para buscar água para o consumo diariamente.

A crise hídrica é uma pequena amostra do que estamos fazendo com nós mesmos. Trata-se de um lento suicídio coletivo. Alguns dos maiores problemas que enfrentamos hoje – pobreza, saúde precária, ausência de educação, injustiça social, insegurança alimentar – possuem uma razão em comum: a água. Ao observar os rios Jequitinhonha, Omo e Indus desaparecendo no horizonte – seja por estarem secos ou causando enchentes – percebi que não enxergo mais a crise hídrica como um alarme para o futuro, mas algo em pleno curso. Em alguma instância, cada um de nós já deve tê-la sentido. Estatísticas, descobertas e estudos nos dão apenas uma tímida perspectiva da tragédia.

Foi por isso que combinei o viés histórico, ecológico e geológico e resolvi olhar através de uma só perspectiva: a das pessoas que acordam e já precisam pensar em como conseguir água todos os dias. Apenas elas nos darão a real dimensão dessa crise.

Érico Hiller é fotógrafo colaborador da National Geographic e está trabalhando em um longo projeto sobre a crise hídrica ao redor do planeta. O resultado vai virar livro e filme a serem lançados em 2020.

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