Neste Carnaval, descubra o ritmo do samba carioca em uma nova rota da música no Rio de Janeiro
Em um lugar pouco visitado da Zona Norte do Rio de Janeiro, um novo roteiro musical está ajudando os viajantes a mergulharem na cultura do samba e a aprenderem sobre sua rica história.

Acima, o desfile da escola de samba Portela em 2025, que é da região história do samba carioca, a Zona Norte.
Em pleno Carnaval, o ritmo pulsa em todo o Brasil e o samba canta mais alto especialmente no Rio de Janeiro, com seus desfiles impressionantes das escolas de samba na Marquês de Sapucaí e nos blocos de rua pela cidade que reúne moradores e também recebe anualmente milhares de turistas do mundo inteiro para curtir toda a beleza e a alegria do Carnaval brasileiro na cidade mais famosa do país.
Nos ritmos envolventes do samba, em sua rebeldia, energia e paixão pela vida, reside a alma do Rio de Janeiro. Não somente no Carnaval, o samba é ouvido em todos os cantos da cidade, das arquibancadas do Maracanã aos conhecidos bairros de Copacabana e Ipanema, onde banhistas saboreiam caipirinhas e onde nasceu a bossa nova — prima descontraída e leve do samba.
Mas o coração do gênero musical, na verdade, fica bem longe do centro, na Zona Norte do Rio, menos visitada. E agora, os visitantes podem explorar sua origem na nova Rota do Samba, com um divertido passeio a pé organizado pelo vibrante bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte carioca.
Guiada por moradores locais, a rota celebra o fato de que o samba é mais do que um gênero musical — é a essência de uma comunidade. Uma parada imperdível é a escola de samba Portela, que detém o recorde de 22 títulos desde 1932 no concurso de escolas de samba do Carnaval do Rio. A organização também oferece orientação para crianças da região e lidera iniciativas de caridade.
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Na nova Rota do Samba, os músicos contam histórias através da música enquanto se caminha por ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro que fazem parte da história do samba.
Uma rota de samba raiz no Rio de Janeiro
O passeio é guiado por Marquinhos de Oswaldo Cruz, um sambista local, acompanhado por outros músicos que tocam ukulele, banjo e tamborim. Marquinhos e a banda conduzem os visitantes pelas ruas, parando em frente a locais associados a grandes figuras do samba, contando suas histórias e cantando suas canções ao longo do caminho.
As paradas ganham vida com a música. Há o Circo São Jorge, um antigo teatro — agora uma residência particular — onde o lendário sambista Paulo da Portela fez sua última apresentação pública em 1949. Há também a casa de Dona Ester, uma mulher que obteve uma licença para tocar samba em sua propriedade a fim de doá-la a músicos negros locais, aos quais ela permitia se apresentar ali.
Há cerca de um século, o samba era amplamente perseguido pelas autoridades brancas, que temiam seu poder como meio de unir e inspirar a comunidade afro-brasileira; as apresentações eram estritamente regulamentadas. O sobrinho idoso de Dona Ester, agora com mais de 90 anos, é quem ainda sai na rua para cumprimentar os grupos de turistas que passam.
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O Pão de Açúcar é um dos marcos mais emblemáticos do Rio, e com razão.
Hoje, se há um estado emocional mais associado ao samba, seria a alegria. É impossível não abrir um sorriso ao som de uma roda de samba em uma praia brasileira, com o canto apaixonado elevando-se sobre o som vibrante dos banjos e o tilintar dos pandeiros, enquanto os passos levantam nuvens de areia dourada. Mas as origens do gênero, como tantas outras grandes formas de arte, estão na luta.
Durante o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, entre os séculos 16 e 19, o Rio de Janeiro foi um dos portos mais importantes para o tráfico humano no mundo, com mais de dois milhões de africanos escravizados chegando à cidade antes de uma vida acorrentada no Novo Mundo.
O samba surgiu de formas de música e dança trazidas de suas casas na África Ocidental e Central, e foi ainda mais moldado pelas dificuldades que essas pessoas enfrentaram — diz-se que os ritmos se originaram com escravizados forçados a pisar grãos de café e, como o blues estadunidense, o samba tem a sensação de uma música criada para extrair força das profundezas do desespero.
Até o início do século 20, o samba ainda era reprimido. Na estação de trem de Oswaldo Cruz, Marquinhos conta aos visitantes sobre outra de suas iniciativas: o festival Trem do Samba, que reúne bandas de samba em trens que partem da Estação Central do Brasil, no Centro do Rio de Janeiro, com destino a Oswaldo Cruz, todo mês de dezembro.
Antigamente, os sambistas ensaiavam em trens em movimento, onde ninguém podia impedi-los. Hoje, 100 mil pessoas embarcam no Trem do Samba em sua homenagem, uma lembrança do passado e uma celebração da reinvenção do samba como a música da liberdade. Se estiver passeando pelo Rio de Janeiro neste Carnaval, além de curtir os desfiles e os blocos, não deixe de mergulhar nas raízes do samba com esse passeio pra lá de imperdível!
Publicado na edição de outubro de 2025 da National Geographic Traveller (Reino Unido).