Conheça a primeira nova espécie de felino descoberta em 100 anos

Um pequeno gato-tigre pintado da Bolívia pode ser apenas o começo de uma onda de novas espécies de felinos de pequeno porte.

Por Jason Bittel
Publicado 18 de set. de 2026, 17:32 BRT
Embora os cientistas tenham encontrado esse felino pela primeira vez há quase uma década, foram necessárias ...

Embora os cientistas tenham encontrado esse felino pela primeira vez há quase uma década, foram necessárias análises genômicas avançadas recentes para confirmá-lo como uma nova espécie.

Embora os cientistas tenham encontrado esse felino pela primeira vez há quase uma década, foram necessárias análises genômicas avançadas recentes para confirmá-lo como uma nova espécie.

Em 2017Paola Nogales-Ascarrunzuma bióloga boliviana e National Geographic Explorer que trabalha na Bolívia, recebeu uma ligação de um santuário de vida selvagem local que tinha acabado de receber o que descreveram como "um gato estranho". Ele veio de um homem local que o encontrou como um filhote em uma estrada perto de uma floresta. 

O homem levou o animal para casa, acreditando ser um gato de uma raça doméstica. Mas, depois de cerca de um ano vivendo com o animal claramente selvagem, ele percebeu que seria melhor levá-lo para um santuário.

Como cientista principal e fundadora do Bolivian Felids Research Program (Programa de Investigação de Felinos da Bolívia), Nogales-Ascarrunz ficou intrigada. O animal tinha um rosto pequeno e enrugadoorelhas curtas e arredondadas e bigodes longos

Era, de fato, pequeno demais para ser um gato doméstico e, mais notavelmente, era coberto por manchas semelhantes às de um leopardo. Então, ela foi visitar a criatura no santuário de vida selvagem Senda Verde, na encosta subtropical dos Andes bolivianos.

"Tirei cem fotos dele", lembra Nogales-Ascarrunz. "Fiquei fascinada."

O que ela não podia saber na época era que esse gato curioso tinha um segredo. Ele se tornaria a primeira nova espécie de felídeo (ou seja, a família dos gatos) descoberta em mais de 100 anos, de acordo com um estudo publicado em 17 de setembro de 2026 no periódico acadêmico Current Biology. O que é empolgante é que a descoberta não é uma validação de uma espécie proposta no passado distante, nem uma subespécie previamente reconhecida elevada ao status de espécie — que são achados importantes e reportados com mais frequência. Não, este gato era algo totalmente novo para a ciência.

Na época, no entanto, Nogales-Ascarrunz assumiu que o gato incomum era um membro da espécie Leopardus tigrinus. Às vezes chamada de tigrinasoncillastigrillos ou gatos-do-mato, essa espécie foi descrita em 1775 a partir de uma única ilustração de um animal visto na Guiana Francesa e, subsequentemente, presumiu-se que existia em toda a América Central e do Sul, incluindo, na época, a Bolívia.

(Sobre Animais, leia também este artigo: Abrindo caminho para os tamanduás-bandeira do Brasil)

A Exploradora da National Geographic Paola Nogales-Ascarrunz está ao lado do felino que encontrou pela primeira ...

A Exploradora da National Geographic Paola Nogales-Ascarrunz está ao lado do felino que encontrou pela primeira vez há quase uma década. Ela é coautora de um novo artigo que o classifica como uma nova espécie.

A Exploradora da National Geographic Paola Nogales-Ascarrunz está ao lado do felino que encontrou pela primeira vez há quase uma década. Ela é coautora de um novo artigo que o classifica como uma nova espécie.

Mas então, em 2019, enquanto preparava um livro sobre as espécies de felinos da Bolívia, ela percebeu que o gato que havia fotografado não se parecia com a foto de referência de um guia do vizinho Brasil. Seu gato-do-mato tinha rosetas muito maiores do que as do outro lado da fronteira. "Isso está muito errado", a bióloga pensou.

Levaria mais alguns anos até que Nogales-Ascarrunz desenvolvesse suas habilidades em análise genética a ponto de poder investigar o genoma do gato misterioso com precisão. Então, trabalhando com Eduardo Eizirik, um geneticista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no Brasil, e com o coautor principal do estudo, Jonas Lescroart, da University of Antwerp, da Bélgica, a equipe conseguiu encontrar seu lugar distinto na árvore genealógica dos felinos.

Em seu artigo, os pesquisadores propõem que o gato deve ser conhecido como Leopardus tilcayo, em homenagem à palavra pela qual a população local o conhece. "Perguntamos às pessoas locais: 'Por que vocês o chamam de tilcayo?'", diz Nogales-Ascarrunz, que é da Bolívia. "E eles disseram: 'Não sei! Meu avô o chamava de tilcayo, então eu o chamo de tilcayo'." (O nome não parece significar nada em particular em espanhol ou no idioma Quéchua falado na Bolívia.)

Até agora, tudo o que os cientistas podem dizer é que L. tilcayo vive na ecorregião da floresta de Yungas na Bolívia, que fica na encosta oriental da Cordilheira dos Andes. Mas quanto ao que esses gatos comem ou por quem são devorados, como se reproduzem e muitos outros facetas de suas vidas cotidianas, resta muito mistério. "Tantas coisas básicas não são conhecidas", comenta Nogales-Ascarrunz, que é coautora principal do novo estudo.

Mas a descoberta é monumental, e não apenas porque é o primeiro novo felino descoberto desde o gato-do-pampa em 1923. O novo artigo não apenas nomeia uma nova espécie; ele redesenha a árvore genealógica dos felinos para ter muito mais ramos do que se pensava anteriormente. Além do mais, os pesquisadores esperam que os métodos usados para identificar o L. tilcayo possam em breve ser usados para encontrar ainda mais espécies de felinos espalhadas pelo mundo e até mesmo transformar a forma como os protegemos.

Embora diferenças físicas, como comprimento da cauda, tamanho da roseta ou formato dos dentes, sejam sempre indicadores importantes para cientistas que buscam delimitar espécies, as análises genômicas são cada vez mais o padrão de ouro, simplesmente porque podem contar uma história oculta ao olho nu.

"Trabalhamos com gatos-do-mato há cerca de 25 anos, tentando organizar todo o gênero Leopardus", revela Eizirik. Quanto mais fundo esses cientistas olham para os genomas desses felinos, mais variação oculta encontram.

Em 2013, cientistas forneceram evidências de que o Leopardus tigrinus — a espécie da qual Nogales-Ascarrunz originalmente supôs que o novo gato fosse membro — era na verdade composto por duas espécies distintas. Então, em 2024, o cenário mudou novamente com a proposta de que outra espécie geneticamente distinta fosse separada das duas anteriores. 

Agora, o estudo mais recente eleva para cinco as espécies de gato-do-mato. "O que tínhamos como uma única espécie, começamos a ver que era na verdade um complexo de espécies", diz Eizirik.

(Você pode se interessar também: Descubra como o seu gato vivencia o mundo)

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Nova espécie de gato-do-mato é fotografada contra um fundo preto.

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Embora esse tipo de confusão seja inaudito em, digamos, o gênero Panthera — que inclui os grandes felinos como tigresleopardos-das-neves e leões —, os pequenos felinos selvagens do mundo são muito menos estudados. Eles também são excepcionalmente bons em permanecer fora de vista. Mesmo fotos tiradas por armadilhas fotográficas remotas podem não fornecer evidências suficientes para distinguir as espécies. 

Por exemplo, um dos espécimes de museu incluídos no novo estudo era originalmente considerado outro pequeno felino pintado chamado de margay, até ser posteriormente identificado como um gato-do-mato (L. tigrinus) devido à direção dos pelos da sua nuca.

genômica moderna permite que os cientistas vejam diferenças mais profundas que fotografias e notas de campo perdem. No novo estudo, quando os pesquisadores compararam genomas completos de 38 indivíduos do gênero Leopardus, os resultados mostraram que não apenas L. tilcayo era diferente das outras espécies de gato-do-mato, mas que ele havia se divergido delas há cerca de 1,4 milhão de anos — uma distância evolutiva comparável àquela entre leões modernos e leões-das-cavernas extintos.

Embora a descoberta de mais um novo gato-do-mato seja "por si só uma notícia surpreendente, os resultados obtidos mudam profundamente como os especialistas em pequenos felinos agrupam as espécies de pequenos felinos no gênero Leopardus", explica James Sanderson, fundador e diretor da Small Wild Cat Conservation Foundation, que não foi autor da nova publicação. 

Para esse fim, o estudo também fornece evidências para uma nova subespécie de gato-do-mato no PeruLeopardus tigrinus antisuyo, e, de acordo com Sanderson, suas descobertas também sugerem que o margay (ou gato-maracujá, como é conhecido no Brasil) — que os cientistas presumiam ser uma espécie espalhada do México até a Argentina — não é uma espécie, mas quatro.

"Este estudo sugere que, tendo se dividido de um ancestral comum há cerca de [1 milhão de anos], existem quatro espécies distintas de margay", diz Sanderson, que também é membro do IUCN Cat Specialist Group, em um e-mail. Por sua vez, Eizirik diz que um estudo mais focado na genética do margay será necessário antes que ele faça tal afirmação.

Sanderson diz que este é provavelmente apenas o começo de mais descobertas. "Não é de forma alguma um exagero da imaginação que os métodos aprimorados usados neste estudo revelem novas espécies de pequenos felinos selvagens na África e na Ásia", comenta ele. Todos esses ramos adicionais na árvore genealógica dos felinos terão consequências no mundo real para a conservação.

Um dos fatores decisivos para estabelecer o status de conservação de uma espécie é sua distribuição geográfica. "Se você pensa que [o gato-do-mato] é uma coisa única desde o sul do Brasil até a Costa Rica, você vai descobrir que ele não está ameaçado", diz Eizirik. "Mas se descobrirmos que não é uma coisa única, mas na verdade cinco coisas, cada uma delas deve ser avaliada separadamente."

Segundo Sanderson, tais distinções adicionam urgência aos esforços de conservação. "Uma vez que três espécies se tornam cinco, cada população é reduzida", diz ele. "Portanto, os esforços de conservação devem aumentar, talvez com urgência, dependendo do tamanho estimado das populações." (Por enquanto, os cientistas não têm certeza de quantos tilcayos existem na natureza.)

Genética e questões de taxonomia à parte, Nogales-Ascarrunz não quer perder o foco no encantamento. "Nosso mundo é extremamente complexo", afirma a bióloga. "Às vezes pensamos que a maior parte dele é conhecida, que não há muito a descobrir, mas, na verdade, é o oposto."

Hoje é comum que cientistas anunciem a descoberta de novas espécies, embora a descrição de novos insetos, micróbios e outros pequenos organismos domine a literatura. E isso faz sentido, porque eles se escondem facilmente, são difíceis de encontrar e muitas vezes escapam ao nosso entendimento. Mas um felídeo de dois quilos e meio?

"Mesmo entre os felinos, existem coisas por aí que não foram descritas, coisas que as pessoas ainda não encontraram", diz Nogales-Ascarrunz. "Então vamos lá fora encontrá-los e protegê-los."

Jason Bittel é um National Geographic Explorer e autor de Grizzled: Love Letters to 50 of North America’s Least Understood Animals.

Joel Sartore  é um National Geographic Explorer, fotógrafo e fundador do National Geographic Photo Ark, que usa o poder da fotografia para inspirar as pessoas a ajudar a proteger espécies em risco antes que seja tarde demais.

A organização sem fins lucrativos National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho da Exploradora Paola Nogales-Ascarrunz. A Society também financia o projeto Photo Ark do Explorador Joel Sartore. Saiba mais sobre o apoio da Society aos Explorers.

Uma versão anterior desta história informava incorretamente o ano em que Paola Nogales-Ascarrunz encontrou pela primeira vez a nova espécie de felino. Ela foi atualizada.

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