Abrindo caminho para os tamanduás-bandeira do Brasil
As criaturas enormes e lentas estão sendo empurradas cada vez mais para rodovias perigosas. Veja como ambientalistas pensam formas criativas para mantê-las em segurança

O biólogo Arnaud Desbiez (à esquerda) e o veterinário Rafael Ferraz realizam uma avaliação de saúde em um tamanduá-bandeira equipado com um arnês de rastreamento. Em 2017, Desbiez fundou o Programa de Conservação do Tamanduá-Bandeira, que hoje monitora os deslocamentos dos animais para elaborar novas formas de protegê-los.
O biólogo Arnaud Desbiez (à esquerda) e o veterinário Rafael Ferraz realizam uma avaliação de saúde em um tamanduá-bandeira equipado com um arnês de rastreamento. Em 2017, Desbiez fundou o Programa de Conservação do Tamanduá-Bandeira, que hoje monitora os deslocamentos dos animais para elaborar novas formas de protegê-los.
Se Charles Dickens tivesse escrito um romance sobre a fauna brasileira, ele poderia ter inventado uma protagonista como Jane, uma tamanduá-bandeira de três anos cuja curta vida foi repleta de desventuras. Antes de ela nascer, um de seus irmãos provavelmente foi morto por uma assustadora puma, e outro por um carro.
A própria Jane, dotada, como todos da sua espécie, de um focinho tubular banguela e uma cauda esplendidamente franjada, veio ao mundo não em uma floresta, mas em uma fazenda no oeste do Brasil, o tipo de ambiente onde os tamanduás enfrentam ameaças humanas como ataques de cães e exposição a pesticidas.
Quando ela tinha um ano, sua mãe também foi atropelada ao tentar atravessar uma rodovia próxima. Um ano depois, o proprietário da fazenda colheu os eucaliptos do local, privando Jane de uma proteção importante. Jane, agora aproximadamente do tamanho de um cachorro golden retriever, encolheu-se entre os troncos e levou uma vida tênue, sempre ameaçada pela rodovia que a deixou órfã e delimitou seu território.
Os tamanduás-bandeira passam os dias caminhando devagar entre formigueiros e cupinzeiros, lambendo insetos com uma língua pegajosa de 60 centímetros de comprimento. No Brasil, o país com a quarta maior rede rodoviária do mundo, isso significa que eles às vezes atravessam rodovias.
Esse estilo de vida itinerante tornou-se perigoso no ecossistema de Jane, o Cerrado, uma savana tropical rica, mas subvalorizada, que vem sendo transformada por um boom agrícola. De 2019 a 2023, cerca de 33 mil Km² de habitat do Cerrado foram substituídos por soja, milho, eucalipto e outras commodities.
Esse avanço do desenvolvimento também trouxe mais construção de rodovias e tráfego de caminhões, resultando em um aumento desastroso de colisões com tamanduás. O andar lento, o corpo escuro e os hábitos noturnos desses animais os tornam especialmente suscetíveis. Arnaud Desbiez, biólogo e Explorador da National Geographic que fundou o Projeto Tamanduá — a iniciativa de pesquisa que monitorou Jane e muitos outros tamanduás —, chama o atropelamento de "a maior ameaça à sobrevivência do tamanduá-bandeira no Brasil".
(Leia também: Se não agirmos rápido, o tamanduá-bandeira corre o risco de ser extinto)

Um tamanduá-bandeira caminha pesadamente pelo Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, no centro-oeste do Brasil. Na última década, a espécie sofreu um declínio drástico em toda a América Central e do Sul devido a incêndios florestais, perda de habitat e atropelamentos.
Um tamanduá-bandeira caminha pesadamente pelo Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, no centro-oeste do Brasil. Na última década, a espécie sofreu um declínio drástico em toda a América Central e do Sul devido a incêndios florestais, perda de habitat e atropelamentos.
Até poucos anos atrás, o declínio dos tamanduás no Brasil e talvez a eventual extinção de algumas populações pareciam um problema intratável. No entanto, Desbiez e seus colaboradores avançaram recentemente ao reconfigurar a questão do atropelamento de tamanduás também como um risco para os motoristas.
Os tamanduás-bandeira podem pesar mais de 45 quilos (mais de cinco vezes o tamanho de qualquer outra espécie de tamanduá), o que significa que os motoristas costumam se ferir e às vezes até morrem ao colidir com esses animais robustos. Ajudar tamanduás e outros grandes mamíferos a atravessar estradas, argumenta Desbiez, é portanto uma questão de segurança pública — uma lógica que começou a convencer os órgãos rodoviários brasileiros a enfrentar a crise redimensionando rodovias em uma escala nunca antes vista na América Latina.
"Nossa missão é tornar as estradas seguras para todos", afirma Desbiez. "Não se trata [apenas] de salvar tamanduás; trata-se de salvar vidas humanas e a biodiversidade."
Assim como seus companheiros exóticos, as preguiças e os tatu-bolas, os tamanduás-bandeira são xenartros, membros de uma superordem de mamíferos que surgiu na América do Sul logo após a extinção dos dinossauros. Capazes de viver cerca de 15 anos na natureza, esses animais desempenham um papel importante em seu ecossistema ao controlar populações de insetos.
Um tamanduá-bandeira pode devorar cerca de 30 mil insetos ao longo de um único dia. As fêmeas são dedicadas aos seus filhotes e passam por uma gestação de um único bebê durante seis meses, que depois pode ser carregado como uma mochila nas costas da mãe por mais seis meses.
(Você pode se interessar: Estes são alguns dos maiores insetos da América Latina)
Protegendo tamanduás-bandeiras gigantes de serem atropelados
Embora a primeira paixão de Desbiez seja, na verdade, o tatu-canastra, meados dos anos 2010 ele começou a notar que eram os tamanduás, e não os raros e ariscos tatus, cujas carcaças espalhavam-se pelas margens das estradas brasileiras. Em 2017, ele lançou uma investigação formal sobre o problema. Ao longo de três anos, ele e um pequeno exército de patrulheiros dirigiram mais de 80 mil quilômetros, o suficiente para dar duas voltas na Terra, em quatro estradas brasileiras, contando cada criatura morta que encontravam.
No final, sua equipe contabilizou mais de 12 mil animais mortos em estradas, entre eles jacarés, capivaras, handus (raposas-do-campo) e 766 tamanduás-bandeira. E esse número alarmante provavelmente subestima o verdadeiro impacto. Suas pesquisas sugerem que animais carniceiros arrastam cerca de 1/4 das carcaças de tamanduás e que mais da metade de todos os tamanduás atingidos por carros podem cambalear para longe do acostamento antes de morrer, escapando dos pesquisadores.
Contudo, a equipe de Desbiez não se limitou a documentar uma catástrofe; eles vislumbraram soluções. Além de contabilizar as mortes na pista, o grupo colocou coleiras com rastreadores em tamanduás vivos e os seguiu pelo Cerrado. Cada tamanduá monitorado recebeu o nome de um dos colaboradores ou apoiadores do projeto. Jane ganhou seu nome em homenagem a uma querida veterinária da equipe.
Embora os tamanduás monitorados muitas vezes caminhassem descontraidamente pelo asfalto, em raras ocasiões eles seguiam margens de riachos arborizados até pontes e passagens de gado, usando-as para passear com segurança por baixo das rodovias, aparecendo nas armadilhas fotográficas que Desbiez posicionou dentro dessas passagens subterrâneas informais. Se as autoridades rodoviárias instalassem mais passagens, percebeu ele, com cercas de cada lado para guiar os tamanduás até as entradas, isso poderia ser suficiente para deter o colapso da espécie.

No estado de Mato Grosso do Sul, a rodovia BR-267 atravessa o ecossistema nativo do tamanduá-bandeira, que vem sendo transformado pela agricultura. As terras do lado esquerdo da estrada ainda são dominadas por vegetação de cerrado, enquanto, do lado direito, a área foi desmatada para o cultivo agrícola.
No estado de Mato Grosso do Sul, a rodovia BR-267 atravessa o ecossistema nativo do tamanduá-bandeira, que vem sendo transformado pela agricultura. As terras do lado esquerdo da estrada ainda são dominadas por vegetação de cerrado, enquanto, do lado direito, a área foi desmatada para o cultivo agrícola.

A veterinária Grazielle Soresini examina a carcaça de um tamanduá-bandeira atropelado na BR-267. Após cada ocorrência, ela e sua equipe coletam amostras de tecido e afastam o animal da pista, quando necessário, para proteger animais necrófagos do tráfego.
A veterinária Grazielle Soresini examina a carcaça de um tamanduá-bandeira atropelado na BR-267. Após cada ocorrência, ela e sua equipe coletam amostras de tecido e afastam o animal da pista, quando necessário, para proteger animais necrófagos do tráfego.

Trabalhadores em Mato Grosso do Sul montam uma passagem para a fauna sob a rodovia BR-262, trecho marcado por frequentes atropelamentos de animais. Em 2024, autoridades federais decidiram construir cerca de 160 quilômetros de cercas e 10 novas passagens nas proximidades de pontos críticos de colisões.
Trabalhadores em Mato Grosso do Sul montam uma passagem para a fauna sob a rodovia BR-262, trecho marcado por frequentes atropelamentos de animais. Em 2024, autoridades federais decidiram construir cerca de 160 quilômetros de cercas e 10 novas passagens nas proximidades de pontos críticos de colisões.
Essa infraestrutura amigável aos animais está longe de ser um conceito novo. Passagens de fauna e cercas à beira das estradas têm ajudado animais ameaçados, desde panteras na Flórida (Estados Unidos) até pangolins em Singapura, e amplas pesquisas sugerem que elas reduzem drasticamente os atropelamentos e reconectam habitats fragmentados.
No estado de São Paulo, no Sudeste do Brasil, muitas rodovias são equipadas com passagens subterrâneas para antas, pumas, capivaras e outros animais, e um viaduto ecológico permite que micos-leões-dourados transitem sobre quatro faixas de tráfego denso na Mata Atlântica.
No entanto, quando a equipe de Desbiez procurou pela primeira vez as autoridades rodoviárias governamentais no estado de Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste, sobre passagens para tamanduás, encontrou pouca disposição para gastar milhões de reais em passagens subterrâneas e cercamento. "Tivemos algumas divergências grandes", reconhece Desbiez.
O projeto de conservação do tamanduá, que opera sob o guarda-chuva do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), sediado no Brasil, obteve progresso ao enfatizar a segurança humana, um assunto caro ao coração de qualquer planejador de transportes. Nos Estados Unidos, onde uma colisão média com cervos custa à sociedade mais de US$ 8 mil em despesas hospitalares, reparos de veículos e outros gastos, pesquisas sugerem que muitas passagens de fauna são investimentos inteligentes.
Uma rede de viadutos, passagens subterrâneas e cercas ao longo de um corredor migratório de cervos e antilocapras no estado norte-americano de Wyoming, por exemplo, evitou tantos acidentes que deve pagar seu próprio custo em menos de duas décadas.
A mesma lógica se aplica ao Brasil, onde cerca de 20 motoristas morrem anualmente em colisões com tamanduás, antas e outros animais apenas em São Paulo. Desbiez e seus colegas calcularam que as cercas ao longo dos pontos críticos de atropelamento de tamanduás em Mato Grosso do Sul se pagariam em 10 anos.
O programa de conservação até mudou de forma estudada a linguagem usada para descrever o problema, passando de "atropelamentos" para "colisões", uma palavra que conota melhor o perigo para a vida humana e a propriedade.

Um filhote se agarra às costas da mãe enquanto ela percorre o Pantanal. As fêmeas de tamanduá dão à luz apenas um filhote por ano, e a cria precisa de cuidados por cerca de seis meses. Essa taxa de reprodução lenta torna a espécie vulnerável ao declínio populacional.
Um filhote se agarra às costas da mãe enquanto ela percorre o Pantanal. As fêmeas de tamanduá dão à luz apenas um filhote por ano, e a cria precisa de cuidados por cerca de seis meses. Essa taxa de reprodução lenta torna a espécie vulnerável ao declínio populacional.

Os veterinários Mario Alves (à esquerda), Mario Tabosa (ao centro) e Janecler Oliveira realizam um ecocardiograma para visualizar o coração de um tamanduá-bandeira selvagem na fazenda Santa Lourdes, em Mato Grosso do Sul. Pesquisadores estudam os animais e monitoram seus deslocamentos para desenvolver formas de protegê-los de ameaças como atropelamentos, ataques de cães e incêndios florestais.
Os veterinários Mario Alves (à esquerda), Mario Tabosa (ao centro) e Janecler Oliveira realizam um ecocardiograma para visualizar o coração de um tamanduá-bandeira selvagem na fazenda Santa Lourdes, em Mato Grosso do Sul. Pesquisadores estudam os animais e monitoram seus deslocamentos para desenvolver formas de protegê-los de ameaças como atropelamentos, ataques de cães e incêndios florestais.

Um filhote órfão de tamanduá-bandeira segue seu cuidador por um centro de reabilitação no estado de Minas Gerais, no Sudeste do país. Após quase dois anos de acompanhamento, o filhote foi devolvido à natureza.
Um filhote órfão de tamanduá-bandeira segue seu cuidador por um centro de reabilitação no estado de Minas Gerais, no Sudeste do país. Após quase dois anos de acompanhamento, o filhote foi devolvido à natureza.
Armados com esses argumentos, Desbiez e seus colaboradores obtiveram mais sucesso — particularmente na BR-262, uma importante rodovia de duas faixas que cruza o Cerrado e o Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo. Animais esmagados são tão onipresentes nessa estrada famosa que ela foi apelidada de "rodovia da morte", mas essa via de alta velocidade está se tornando rapidamente mais segura.
Em 2025, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e concessionárias privadas começaram a reformar a BR-262 em prol da vida selvagem, uma iniciativa que inclui mais de 160 quilômetros de cercas em pontos críticos, 10 novas passagens subterrâneas para animais e a modificação de dezenas de pontes e bueiros existentes para torná-los mais atraentes para a fauna. Sete novas pontes de corda reconectarão a copa das árvores para bugios e outros primatas.
"Com este projeto, elevamos o patamar para todo tipo de rodovia no Brasil", comenta Fernanda Abra, ecóloga de estradas e Exploradora da National Geographic que fundou a ViaFauna, empresa que projetou a reformulação da rodovia da morte. Abra espera que o plano motive outros países da América Latina, como Colômbia, Costa Rica e México, que recentemente começaram a construir suas próprias passagens. "O Brasil pode ser uma inspiração para outros países aqui na América Latina", diz ela.
Passagens de fauna e cercas por si só, apesar de todas as suas virtudes, não salvarão os tamanduás-bandeira. Elas não podem impedir que o agronegócio destrua o Cerrado, nem proteger os animais selvagens de outras ameaças, como cães e queimadas. E algumas estradas perigosas inevitavelmente permanecerão sem intervenções. Em dezembro de 2023, uma fêmea de tamanduá foi encontrada morta em uma das muitas estradas municipais sem cerca no estado de Minas Gerais, uma tragédia agravada pelo filhote indefeso agarrado aos pelos de sua mãe morta.
O filhote, perto da morte, foi transferido para o CETAS-Belo Horizonte, um centro da crescente rede brasileira de instalações de reabilitação de animais selvagens equipadas para cuidar de tamanduás, onde recebeu o nome de Cali e ficou sob os cuidados de Érika Procópio, veterinária e reabilitadora. As perspectivas de Cali não eram animadoras: com o sistema imunológico enfraquecido pelo estresse, ela desenvolveu uma infecção fúngica e perdeu pelos.
De forma improvável, no entanto, Cali resistiu, aceitando um coquetel especial de vitaminas, medicamentos e uma mistura de leite de cabra com ração para pets formulado por veterinários. Eventualmente, ela passou para um recinto ao ar livre e depois para a natureza, onde Procópio e seus colegas esperam que ela prospere e se reproduza. "Temos expectativas muito altas", diz Procópio.
Jane, a jovem e resistente fêmea orfanada por um carro, também floresceu em meio a circunstâncias difíceis. Em novembro de 2025, ela fugiu de seu bosque de eucaliptos desmatado e, na calada da noite, aventurou-se na mesma rodovia que ceifara a vida de sua mãe. Jane sobreviveu à travessia e começou a caminhar para o nordeste em busca de um território vago no qual possa, algum dia, criar seus próprios filhotes. Até a primavera deste ano, ela já havia percorrido quase 30 quilômetros, uma grande conquista em um mundo tomado por estradas.

Desbiez, Ferraz e o veterinário Mario Alves soltam um tamanduá-bandeira, que passou por uma avaliação de saúde, em um eucaliptal no Mato Grosso do Sul. Ao estudar essa espécie e orientar a instalação de passagens para a fauna, eles esperam criar um modelo que outras comunidades possam utilizar para salvar animais vulneráveis.
Desbiez, Ferraz e o veterinário Mario Alves soltam um tamanduá-bandeira, que passou por uma avaliação de saúde, em um eucaliptal no Mato Grosso do Sul. Ao estudar essa espécie e orientar a instalação de passagens para a fauna, eles esperam criar um modelo que outras comunidades possam utilizar para salvar animais vulneráveis.
Ben Goldfarb é jornalista ambiental e autor dos livros premiados Crossings: How Road Ecology Is Shaping the Future of Our Planet e Eager: The Surprising, Secret Life of Beavers and Why They Matter. Ele mora nas montanhas do Colorado com sua esposa, sua filha e seu cachorro, Kit — que é, claro, como se chama um filhote de castor.
Fernando Faciole é um premiado Explorador da National Geographic, fotógrafo de conservação e biólogo de São Paulo, Brasil. Ele é membro da Liga Internacional de Fotógrafos de Conservação (iLCP) e seu trabalho, que abrange mais de 30 países, concentra-se em questões urgentes nos campos da conservação e da ecologia.
