Deslumbrante pterossauro escocês é o maior fóssil do seu tipo

Descoberto na ilha de Skye, na Escócia, o esqueleto do período Jurássico está muito bem preservado e oferece uma rara visão do processo evolutivo destes gigantes alados.

Por Michael Greshko
Publicado 9 de mar. de 2022 15:06 BRT
Um novo gênero de pterossauro encontrado na costa da ilha de Skye, na Escócia, pode ter ...

Um novo gênero de pterossauro encontrado na costa da ilha de Skye, na Escócia, pode ter tido uma envergadura de mais de 2,5 metros, em linha com os maiores albatrozes da atualidade. Pela aparência da sua estrutura óssea, o réptil voador ainda estava crescendo quando morreu.

Foto de Natalia Jagielska

Há cerca de 167 milhões de anos, no que é hoje a ilha de Skye, na Escócia, um réptil alado, possivelmente tão grande quanto um albatroz, voava sobre uma lagoa subtropical agarrando peixes e lulas com a sua boca dentada, enquanto os dinossauros andavam pela costa.

De alguma forma esse réptil morreu, e sua carcaça foi rapidamente sepultada em sedimentos no fundo daquela lagoa. Em 2017, uma descoberta casual ao longo da agitada costa de Skye revelou um dos fósseis de pterossauros melhor preservado já encontrado nos últimos dois séculos.

Revelado na revista Current Biology, o fóssil, chamado Dearc sgiathanach, está espetacularmente bem preservado, com porções do crânio, ossos das extremidades, cauda, costelas e vértebras ainda intactas.

O fóssil agora faz parte de uma turma de elite: poucos locais no mundo preservam bem os pterossauros, e menos ainda preservam fósseis de um tempo tão antigo.

“Normalmente, quando podemos descrever fósseis, trata-se de um pedaço de fêmur, um pouco do bico”, diz a paleontóloga Natalia Jagielska, doutora da Universidade de Edimburgo e principal autora do estudo. “Felizmente, este Dearc está extremamente bem preservado, tão bem preservado, que é uma espécie de anomalia.”

Como era o Dearc, o maior pterossauro do Jurássico

A equipe de Jagielska também afirma que o Dearc é o maior pterossauro bem preservado encontrado até agora do período Jurássico, que durou de 205 milhões a 145 milhões de anos atrás.

Como acontece com as aves modernas, o tamanho dos pterossauros é normalmente considerado pela envergadura, a amplitude combinada das duas membranas das asas de um animal, cada uma mantida esticada por um osso extremamente longo do quarto dedo.

Os pterossauros posteriores encontrados em outras partes do mundo, como o Quetzalcoatlus, atingiram gigantescas envergaduras – de 5,7 metros ou mais durante o período Cretáceo, que durou de 145 milhões a 66 milhões de anos atrás.

Em contraste, o Dearc data da metade do Jurássico. Os fósseis desse período anterior são raros, e antes do Dearc, os cientistas tinham encontrado poucas evidências concretas de que os pterossauros do período alcançaram envergaduras maiores que 1,8 metros.

Agora, os cientistas que descobriram o Dearc estimam que a sua envergadura era de pelo menos 1,9 metros e possivelmente mais de 2,5 metros. Com esse tamanho, o Dearc poderia concorrer com algumas das maiores aves da nossa era.

A história dos pterossauros

O Dearc se soma à herança paleontológica da Escócia como o primeiro novo pterossauro a ser nomeado no país desde que Mary Anning, uma pioneira colecionadora de fósseis e paleontóloga, encontrou o pterossauro Dimorphodon em 1828.

“Este é provavelmente o esqueleto mais bonito encontrado na Grã-Bretanha desde a época de Mary Anning”, reflete Steve Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo e autor sênior do estudo.

Sendo os primeiros vertebrados a desenvolver o voo, os pterossauros eram os reis dos céus mesozóicos: um grupo extraordinariamente diversificado de répteis alados que iam de criaturas peludas com olhos largos e bocas de sapo a gigantes do tamanho de girafas com a envergadura de um avião de caça.

Com dentes adaptados para fixar as presas escorregadias do mar, visão afiada e asas mais compridas do que um jogador da NBA, o Dearc é o novo membro desse grupo tão apreciado pelos paleontólogos.

Ainda assim, esse fóssil valioso quase não conseguiu sair do chão.

Como desenterrar os vestígios de um pterossauro

Durante anos, Brusatte explorou a ilha de Skye em busca de ossos fossilizados e locais de trilhas, incluindo rastros de dinossauros de pescoço comprido tão grandes que suas pegadas parecem piscinas naturais.

O Dearc emergiu do calcário da ilha durante uma expedição de maio de 2017 liderada por Brusatte e financiada pela National Geographic Society.

Na manhã de 23 de maio, Amélia Penny, membro da equipe, inspecionava um local na costa norte de Skye quando notou um objeto escuro saindo da rocha.

Se Penny estivesse lá semanas antes, ela não teria visto: recentemente, fortes rajadas de vento haviam agitado as águas da costa o suficiente para mover pedregulhos que cobriam a laje do fóssil.

Durante o almoço, Penny mostrou a Brusatte uma foto do que ela tinha visto, e Brusatte reconheceu uma mandíbula de pterossauro. A partir dos pedaços que emergiram para fora da rocha, a equipe pôde afirmar que o pterossauro era enrome e, pelo que parece, extremamente bem preservado.

O descobrimento do fóssil

Como regra geral, os pterossauros fossilizam mal: seus ossos eram leves e cheios de sacos de ar, o que era ótimo para voar, mas terrível para preservar os ossos pelo processo de fossilização.

Além disso, o registro fóssil dos pterossauros tem muito mais espécimes jovens – ossos adultos são raros e geralmente mal preservados.

101| Pterossauro
Conheça melhor esses famosos e admirados dinossauros alados.

A partir daí, a equipe de Brusatte se esforçou para salvar o fóssil. Os locais de escavação da ilha estão dentro de camadas de rocha em um litoral atingido por ondas, e ficam submersos ou expostos de acordo com a maré.

No dia seguinte, Brusatte convocou o empreiteiro Dugald Ross, dono de um museu local, para cortar a laje fóssil da rocha com uma serra com ponta de diamante. Mas, quando Ross começou a trabalhar, a equipe rapidamente percebeu que o fóssil não era apenas uma mandíbula, nem apenas um crânio. Era a maior parte do esqueleto do animal.

De repente, a equipe teve que cortar enormes lajes de rocha enquanto a maré subia e ameaçava engolir o local. Eles tiveram que carregar cada pedaço de fóssil que saiu do solo até a encosta, secá-los e aplicar aos frágeis ossos expostos um material estabilizador chamado consolidante.

“Estamos correndo contra a maré para cortá-lo”, diz Brusatte.

Por volta das 16h00 e com a água batendo na laje fóssil ainda embutida na rocha, a equipe chegou a uma conclusão: eles não conseguiriam tirar o resto do fóssil de pterossauro do chão até a próxima maré baixa, por volta da meia-noite.

Para tentar salvar os frágeis ossos da água salgada que subia, os pesquisadores cobriram o fóssil com consolidante e cruzaram os dedos. A tática funcionou e a equipe finalmente levou a laje de 180 quilos em um carrinho de mão na noite seguinte.

“Eu diria que é, de longe, a coisa mais importante que já encontramos em qualquer uma das minhas viagens, e foi certamente a mais estressante de coletar”, lembra Brusatte. “Nunca antes estive tão exultante e aterrorizado ao mesmo tempo, porque a cada passo tudo podia correr mal.”

Qual é a envergadura do pterossauro da ilha de Skye

Com o fóssil fora do solo, a equipe o transportou para as coleções nos Museus Nacionais da Escócia, em Edimburgo, onde o preparador Nigel Larkin o limpou meticulosamente do excesso de rocha e consolidante. Foi ali que Jagielska começou a trabalhar.

Geóloga por formação, Jagielska já havia estudado as rochas de Skye e tinha experiência com a anatomia das aves. Com o Dearc teve a chance de estudar um tipo de animal voador ao mesmo tempo familiar e totalmente alienígena.

Por mais de dois anos, Jagielska mediu cuidadosamente os ossos do pterossauro e os comparou com os de pterossauros conhecidos. O pterossauro de Skye, em muitos aspectos, se assemelhava ao conhecido Rhamphorhynchus, mas era muito maior.

Para descobrir a envergadura do pterossauro, Jagielska mediu os ossos das asas de espécies mais conhecidas e elaborou a relação entre os comprimentos desses ossos individuais e a envergadura geral dos animais. Ela então usou essa relação para estimar a envergadura do Dearc entre 2,2 e 3,8 m, semelhante com a envergadura de albatrozes modernos.

A equipe de Jagielska e Brusatte também escaneou o fóssil, revelando um modelo aproximado da sua forma cerebral, incluindo os lóbulos ópticos, as regiões associadas à visão, e a estrutura do ouvido interno do pterossauro.

Greg Funston, membro da equipe e pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Edimburgo, cortou um dos ossos do pterossauro para olhar a sua estrutura interna e revelou que o espécime ainda era imaturo. Por mais que o Dearc fosse grande quando morreu, tinha ainda mais para crescer.

A diversidade de pterossauros da Escócia

Jagielska e Brusatte dizem que o tamanho do Dearc ajudará os pesquisadores a entender melhor o registro fóssil global em pterossauros, pois fornece uma referência para interpretar ossos menos completos encontrados no Reino Unido e em outros lugares.

O fóssil também mostra que, no espaço e no tempo, havia tanto pterossauros pequeninos, como os do Jurássico, quanto gigantes, como os do Cretáceo posterior.

“É surpreendente encontrar um pterossauro maior no Jurássico Médio, mas pessoalmente eu esperava que essa lacuna fosse preenchida”, comenta Taissa Rodrigues, paleontóloga da Universidade Federal do Espírito Santo que não participou do estudo.

A Escócia pode mostrar mais indícios de uma fauna de pterossauros altamente diversificada. Em um relatório preliminar que ainda não passou por revisão de pares, uma outra equipe de cientistas anunciou em 16 de fevereiro que havia encontrado um pterossauro na ilha de Skye que pertence a um ramo diferente da árvore genealógica do Dearc.

As duas descobertas reforçam a importância evolutiva do Jurássico Médio. Durante a primeira metade do período jurássico, acredita-se que muitos grupos diferentes, incluindo dinossauros, mamíferos e até plantas em floração, se diversificaram rapidamente, possivelmente estimulados pelo rompimento contínuo do supercontinente Pangeia.

Quando comparados com outros pterossauros de todo o mundo, os fósseis escoceses sugerem que os pterossauros se diversificaram muito nesse período, que também é mais ou menos quando os dinossauros com penas que evoluíram para as aves começaram a planar e, mais tarde, a voar.

“Quase podemos imaginar os pterossauros olhando para tudo isso e pensando que já está muito lotado aqui!”, comenta David Unwin, paleontólogo da Universidade de Leicester que foi coautor do estudo preliminar do pterossauro.

“É realmente muito surpreendente que todos esses diferentes pilotos e protopilotos tenham sobrevivido um ao lado do outro.”

No entanto, ao contrário de Rodrigues, Unwin ainda não está convencido sobre o tamanho proposto do Dearc. O Rhamphorhynchus, o animal usado para calcular a envergadura do novo pterossauro, tinha ossos de asa especialmente longos e exagerados, comenta Unwin.

Isso significa que as estimativas de tamanho baseadas nas suas extremidades podem correr o risco de serem altas demais. Unwin argumenta que a envergadura do Dearc provavelmente não tenha superado os 2,1 metros de diâmetro.

Independentemente do tamanho final do Dearc, ele se destaca como um importante fóssil escocês e uma homenagem às descobertas de Mary Anning, um fato que enche Jagielska de orgulho. Trabalhando com dois séculos de diferença, as duas paleontólogas nos deram uma visão mais completa dos céus jurássicos da Escócia.

Anning é considerada um símbolo do feminismo e também da classe operária, diz Jagielska. “Sinto esse tipo de conexão.”

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