Os cientistas estão repensando o que realmente significa "consumo moderado de álcool" e qual a quantidade ...

Carnaval e álcool: como ter um consumo consciente para não prejudicar a saúde

Estudos recentes mostram que os riscos para a saúde aumentam consideravelmente mesmo com poucos drinques por semana. Reduzir o consumo, mesmo que um pouco, pode fazer uma diferença significativa.

Os cientistas estão repensando o que realmente significa "consumo moderado de álcool" e qual a quantidade que é verdadeiramente segura.

Foto de Getty Images, Cavan Images
Por Rachel Fairbank
Publicado 12 de fev. de 2026, 16:35 BRT

Carnaval está aí e, nessa época, as pessoas querem festejar ao máximo. E isso, para muita gente a festa acaba andando lado a lado com o abuso do consumo de bebidas alcóolicas. Porém, há algo essencial para levar em contaa sua saúde e como curtir o Carnaval sem prejudicá-la. 

Assim, vale a pena entender melhor os efeitos do álcool no organismo, o quanto ele é nocivo e como tentar não prejudicar o seu corpo e aumentar os riscos de doenças. E, dessa forma, festejar o Carnaval de forma mais segura e equilibrada: com um consumo em menor volume ou nenhum, substituindo por bebidas sem álcool. Afinal, o que vale é a festa em si.

Durante décadas, a ideia de "consumo moderado de álcool", como uma taça de vinho no jantar ou drinques no fim de semana, foi apresentada como parte de um estilo de vida saudável — um ritual que poderia até proteger o coração. No entanto, como mostram as pesquisas mais recentesnão existe de fato um nível "seguro" de consumo de álcool.

"Apesar de desejarmos que fosse assim, nenhum estudo jamais demonstrou um efeito protetor ou benéfico do álcool", afirma Patricia Molina, pesquisadora de fisiologia do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual da Louisiana, nos Estados Unidos, cuja pesquisa se concentra no impacto do álcool no organismo.

Isso não significa que cada gole represente o mesmo risco, mas levanta uma nova questão muito importanteo que significa realmente um "consumo moderado de álcool" e quanto é demais? 

Embora nenhuma quantidade de álcool seja totalmente isenta de riscos, existem sim níveis de consumo que causam menos danos — e reduzir o consumo, mesmo que ligeiramente, pode fazer uma diferença considerável.

“Se você busca fazer alguma mudança de comportamento que ajude a reduzir o risco de diversas doenças crônicasdiminuir o consumo de álcool pode ser uma maneira muito fácil e viável de fazer isso”, afirma Andrea Weber, psiquiatra e especialista em dependência química da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. “Mesmo reduzir o consumo atual pode trazer benefícios gerais.”

Um limão fresco adorna a borda de uma caipirinha gelada, a bebida nacional do Brasil feita ...

Um limão fresco adorna a borda de uma caipirinha gelada, a bebida nacional do Brasil feita aqui com cachaça orgânica local.

Foto de FERNANDA PRETO MARIANO

O que o álcool faz ao corpo?


No momento em que o álcool entra na corrente sanguíneafígado já começa a metabolizá-lo. Nesse processo, produz acetaldeído, um composto que é altamente reativo e conhecido como o carcinógeno responsável por grande parte dos danos causados ​​pelo álcool. 

"Quando bebemos álcool, cada célula do nosso corpo, cada órgão do nosso corpo, é exposto ao álcool", afirma Molina. "Isso explica por que tantos órgãos que normalmente nem imaginamos serem afetados pelo álcool sofrem consequências."

consumo de álcool está associado a mais de 200 problemas de saúde, incluindo doenças cardíacasdemênciaperda muscularosteoporose e vários tipos de câncer, inclusive o de mama. Além de contribuir para diversos problemas de saúde, "ele pode acelerar o processo de envelhecimento", explica Molina. 

"É quase como um fardo adicional para o nosso corpo, o que faz com que muitos dos nossos sistemas orgânicos comecem a apresentar um fenótipo de envelhecimento em uma idade mais precoce."

Para algumas pessoas — que possuem uma mutação em um gene que processa o acetaldeído — o risco de desenvolver problemas de saúde relacionados ao álcool é ainda maior, pois o corpo leva mais tempo para metabolizar a substância. “Se você tem essas variantes genéticas, ao ingerir álcool, você apresenta essa reação de rubor facial”, afirma Iona Millwood, epidemiologista da Universidade de Oxford, na Inglaterra. 

“É realmente desagradável. Você fica vermelho vivo. Seu coração começa a bater mais rápido. Você não se sente bem porque não está metabolizando o álcool corretamente, e esse metabólito tóxico do álcool persiste na sua corrente sanguínea.”

Essa mutação é mais prevalente entre pessoas de ascendência do Leste Asiático e as coloca em um risco muito maior de desenvolver problemas de saúde relacionados ao álcool, como câncer, caso optem por beber. “O limiar para o risco de câncer é muito menor”, ​​diz Che-Hong Chen, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford (Estados Unidos), cuja pesquisa se concentra no estudo dessas variantes genéticas.

(Você pode se interessar também: Beber álcool pode mesmo prejudicar a saúde? Veja 8 pontos recém-descobertos pelos cientistas)

Quais são os riscos do consumo moderado de álcool?


Historicamente, a maioria dos estudos que analisam os efeitos do álcool na saúde o fazem perguntando às pessoas sobre seus hábitos de consumo e, em seguida, acompanhando-as por anos ou décadas para observar os impactos na saúde.

Nesses estudos, os pesquisadores observaram o que se chama de curva em J. Pessoas que bebiam moderadamente pareciam viver mais do que aquelas que bebiam em excesso e do que as que se abstinham completamente. Isso parecia sugerir que uma pequena quantidade de álcool poderia ser benéfica.

No entanto, “não se trata necessariamente de uma relação causal, pois o álcool está frequentemente correlacionado com muitos outros fatores relacionados à saúde”, como tabagismocondições de saúde preexistentes, nível socioeconômico ou padrões alimentares, afirma Millwood.

Esses fatores de confusão podem fazer com que o álcool pareça mais saudável do que realmente é. Por exemplo, pessoas com problemas de saúde frequentemente param de beber devido às suas condições de saúde, o que pode criar o que é conhecido como efeito de causalidade reversa, onde o problema de saúde é o que levou à interrupção do consumo de álcool, em vez de o álcool causar os problemas de saúde.

consumo moderado de álcool, que antes era considerado um nível saudável, e era frequentemente associado a outros fatores que contribuem para um estilo de vida saudável, como uma renda mais alta, uma dieta mais nutritiva e maior acesso a serviços de saúde, o que pode ajudar a mascarar os danos que o álcool causa ao organismo.

consumo moderado de álcool também pode ser difícil de pesquisar, já que os padrões de consumo de uma pessoa podem mudar de um dia para o outro ou de um ano para o outro. "O grupo moderado é provavelmente o mais heterogêneo entre os diferentes grupos de consumo, porque seus integrantes podem ser grandes consumidores em um ano e pequenos consumidores em outros", afirma Carolin Kilian, epidemiologista da Universidade do Sul da Dinamarca.

Depois de levar em conta esses fatores de confusão, os pesquisadores identificaram um padrão claro de riscos à saúde associados ao álcool, com a probabilidade de desenvolver problemas crônicos de saúde aumentando conforme o consumo de álcool aumenta.

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    Foto de Visit Greenwich (CC BY 2.0)

    Mesmo o consumo moderado de álcool pode aumentar drasticamente o risco para a saúde


    Quando se trata de álcool, o perigo não aumenta gradualmente — ele se acelera. Pesquisas mostram que, à medida que o consumo de álcool aumenta, também aumenta a probabilidade de desenvolver problemas de saúde, desde câncer até doenças cardíacashepáticas.

    o ponto de inflexão acontece mais cedo do que a maioria das pessoas imagina. Como demonstraram dois importantes relatórios governamentais nos Estados Unidos, para a mortalidade por todas as causas, ou seja, mortes por qualquer causa relacionada ao álcool, esse aumento no risco ocorre por volta da marca de uma dose por dia, com o risco de morrer por uma causa relacionada ao álcool passando de 1 em 1 mil para 1 em 100 para quem consome álcool nessa quantidade.

    relatório "Orientações do Canadá sobre Álcool e Saúde", publicado em 2023, estima que esse aumento de risco ocorre quando se passa de duas doses por semana para três a seis doses por semana. Já o Estudo sobre Ingestão de Álcool e Saúde, conduzido pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos com metodologia semelhante, estima que esse aumento de risco ocorre quando se passa de sete para nove doses por semana.

    "O risco aumenta muito rapidamente", afirma David Streem, psiquiatra e diretor médico do Centro de Recuperação de Álcool e Drogas da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos.

    (Conteúdo relacionado: Por que a sua tolerância ao álcool diminui à medida que você envelhece?)

    Benefícios para a saúde de reduzir o consumo de álcool


    Como os efeitos do álcool aumentam a cada goleportanto mesmo pequenas reduções na quantidade que você bebe podem trazer benefícios mensuráveis. Diminuir o consumo não apenas reduz o risco de doenças, como também pode ajudar o corpo a iniciar o processo de recuperação de vários órgãos e doenças já existentes.

    Para ajudar a entender como o consumo de álcool contribui  para a saúde geral, as Diretrizes Canadenses sobre Álcool e Saúde desenvolveram uma ferramenta que estima o risco de morte por causas relacionadas ao álcool ao longo da vida e o impacto de cada dose na expectativa de vida.

    "Uma pessoa que bebe, em média, uma dose por dia, ao longo da vida, espera que cada dose reduza sua expectativa de vida em cerca de cinco minutos", afirma Tim Stockwell, pesquisador e diretor do Instituto Canadense de Pesquisa sobre o Uso de Substâncias da Universidade de Victoria.

    Esse risco diminui se a pessoa reduzir o consumo de álcool. As diretrizes canadenses estimam que duas doses por semana terão um impacto quase insignificante na saúde geral e na expectativa de vida.

    Em termos de desenvolvimento de câncer, o risco aumenta com o consumo elevado de álcool. No entanto, esse risco pode ser atenuado. "Muitos dos riscos de doenças ou câncer relacionados ao álcool são reversíveis", afirma Chen, observando que alguns estudos mostram que, ao parar de bebero fígado e o cérebro podem se recuperar, enquanto o risco de câncer diminui.

    Para outras doenças crônicas, como doenças cardíacas, doenças hepáticas ou diabetes, reduzir o consumo pode ter um impacto benéfico, especialmente se for feito precocemente. "Reduzir o consumo antes de desenvolver a doença é fundamental", explica Mike Ren, médico de família do Baylor College of Medicine, no Texas, Estados Unidos. 

    Para pessoas com problemas de saúde associados ao consumo de álcool, como doenças cardíacas ou diabetes, reduzir a ingestão de álcool pode facilitar o controle da doença. "Ao adicionar álcool às condições preexistentes, você agrava a situação", afirma Molina.

    Na experiência de Weber, iniciativas como o Janeiro Seco ou o Outubro Sem Álcool têm a vantagem de oferecer uma desculpa socialmente aceitável para tentar parar de beber. "Infelizmente, o álcool está tão presente em nossa cultura que as pessoas nem percebem que podem ter amigos, colegas ou familiares que estão lutando contra o alcoolismo", diz Weber.

    Como alguns estudos mostraram, pessoas que param de beber por um mês, geralmente depois desse período bebem menos depois, mesmo que não optem por parar completamente.

    "Muitas pessoas que experimentaram o Janeiro Seco talvez não tivessem um problema com alcoolismo, mas elas percebem o quanto se sentem melhor, o quanto dormem melhor, o quanto têm mais energia e força", diz Streem. "Elas simplesmente se sentem melhor quando tiram o álcool de suas vidas por um mês."

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