
Especial Dia da Mulher: as 6 mulheres cientistas que a história (e o Nobel) ignoraram
A cientista britânica Rosalind Franklin trabalhando em um microscópio.
Em abril de 2013, a National Geographic publicou uma reportagem sobre a carta em que o cientista Francis Crick descreveu o DNA para o seu filho de 12 anos. Em 1962, Crick recebeu o Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura do DNA, juntamente com os cientistas James Watson e Maurice Wilkins.
Várias pessoas comentaram na reportagem, notando a ausência de um nome na lista de laureados com o Nobel: Rosalind Franklin, uma biofísica britânica que também estudou o DNA. Justamente os seus dados foram cruciais para o trabalho de Crick e Watson.
Mas descobriu-se que Franklin não teria sido elegível para o prêmio — pois ela havia falecido quatro anos antes de Watson, Crick e Wilkins receberem a premiação pelo estudo, e o Prêmio Nobel nunca é concedido postumamente.
Mas mesmo que estivesse viva, ela ainda poderia ter sido ignorada. Como muitas mulheres cientistas, Franklin teve seu reconhecimento negado ao longo de sua carreira (leia ao longo da reportagem, a seção sobre ela para mais detalhes sobre sua história).
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Ela não foi a primeira mulher a sofrer indignidades no mundo da ciência, dominado até os dias de hoje pelos homens, mas o caso de Rosalind Franklin é particularmente grave, disse Ruth Lewin Sime, professora aposentada de química do Sacramento City College, nos Estados Unidos, que escreveu sobre mulheres na ciência.
Ao longo dos séculos, pesquisadoras tiveram que trabalhar como professoras "voluntárias", viram o crédito por descobertas significativas que fizeram ser atribuído a colegas homens e foram excluídas dos livros didáticos.
Elas geralmente tinham recursos escassos e travaram batalhas árduas para alcançar o que alcançaram, apenas para "ter o crédito atribuído a seus maridos ou colegas homens", afirmou Anne Lincoln, socióloga da Southern Methodist University, no Texas, Estados Unidos, que estuda preconceitos contra mulheres nas ciências.
As cientistas de hoje acreditam que as atitudes mudaram um pouco, disse Laura Hoopes, do Pomona College, na Califórnia (Estados Unidos), que escreveu extensivamente sobre mulheres nas ciências — "até que a realidade as atinja em cheio".
O preconceito contra mulheres cientistas é menos explícito, mas não desapareceu.
Confira, a seguir, a história de seis pesquisadoras que realizaram trabalhos inovadores — e cujos nomes provavelmente são desconhecidos por um motivo: porque são mulheres.

Acima, a astrofísica Jocelyn Bell Burnell em 1967.
Jocelyn Bell Burnell: a astrofísica que descobriu os pulsares
Nascida na Irlanda do Norte em 1943, Jocelyn Bell Burnell descobriu os pulsares em 1967, enquanto ainda era estudante de pós-graduação em radioastronomia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Os pulsares são remanescentes de estrelas massivas que explodiram em supernovas. Sua própria existência demonstra que esses gigantes não se destruíram completamente — em vez disso, deixaram para trás pequenas estrelas incrivelmente densas e em rotação.
Bell Burnell descobriu os sinais recorrentes emitidos por sua rotação enquanto analisava dados impressos em quase cinco quilômetros de papel, provenientes de um radiotelescópio que ela ajudou a montar.
A descoberta lhe rendeu um Prêmio Nobel, mas não exatamente à ela. O prêmio de Física de 1974 foi concedido a Anthony Hewish — orientador de Jocelyn Bell Burnell — e Martin Ryle, também radioastrônomo da Universidade de Cambridge.
A rejeição gerou uma "onda de simpatia" por Bell Burnell. Mas, em uma entrevista à National Geographic, a astrônoma se mostrou bastante pragmática.
"A imagem que as pessoas tinham na época de como a Ciência era feita era a de um homem sênior — e era sempre um homem — que tinha sob seu comando uma série de subordinados, funcionários juniores, que não eram incentivados a pensar, apenas a fazer o que ele mandava", explicou Bell Burnell, agora professora visitante de astronomia na Universidade de Oxford, no Reino Unidos.
Mas, apesar da simpatia e de seu trabalho inovador, Bell Burnell disse que ainda estava sujeita às atitudes predominantes em relação às mulheres na academia.
"Nem sempre tive empregos de pesquisa", disse ela. Muitas das posições que a astrofísica recebeu em sua carreira eram focadas em ensino ou em funções administrativas e de gestão.
"[E] foi extremamente difícil conciliar família e carreira", revelou Bell Burnell, em parte porque a universidade onde trabalhava durante a gravidez não oferecia licença-maternidade.
Desde então, ela se tornou bastante "protetora" das mulheres na academia. Algumas instituições podem oferecer apoio, mas Bell Burnell defende uma abordagem sistêmica para aumentar o número de pesquisadoras.
Recentemente, ela presidiu um grupo de trabalho da Royal Society de Edimburgo, na Escócia, encarregado de encontrar uma estratégia para aumentar o número de mulheres em diversas áreas, como ciência, tecnologia, engenharia e matemática na Escócia.
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Esther Lederberg: uma pioneira na genética de bactérias
Nascida em 1922 no Bronx, em Nova York, Esther Lederberg lançou as bases para futuras descobertas sobre hereditariedade genética em bactérias, regulação gênica e recombinação genética.
Microbiologista, ela é talvez mais conhecida por ter descoberto um vírus que infecta bactérias — o bacteriófago lambda — em 1951, enquanto trabalhava na Universidade de Wisconsin, Estados Unidos.
Lederberg, juntamente com seu primeiro marido, Joshua Lederberg, também desenvolveu um método para transferir facilmente colônias bacterianas de uma placa de Petri para outra, chamado de replicação em placa, que possibilitou o estudo da resistência a antibióticos. O método de Lederberg ainda é utilizado atualmente.
O trabalho de Joshua Lederberg com a replicação em placa contribuiu para a conquista do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1958, que ele compartilhou com George Beadle e Edward Tatum — e não com a esposa, também pesquisadora da descoberta.
"Ela merecia reconhecimento pela descoberta do bacteriófago lambda, por seu trabalho com o fator de fertilidade F e, especialmente, pela técnica de replicação em placas", escreveu Stanley Falkow, microbiologista aposentado da Universidade Stanford, na Califórnia, em um e-mail. Mas ela não o recebeu.
Lederberg também não foi tratada com justiça em relação à sua posição acadêmica em Stanford, acrescentou Falkow, um colega de Lederberg que discursou em sua homenagem em 2006. "Ela teve que lutar apenas para ser nomeada professora associada de pesquisa, quando certamente deveria ter recebido o título de professora titular. Ela não estava sozinha. As mulheres eram maltratadas na academia naquela época."

A física chinesa Chien-Shiung Wu, que refutou uma lei da física e contribuiu com o Projeto Manhattan, em um laboratório em 1978.
Chien-Shiung Wu: a física que trabalhou no polêmico Projeto Manhattan de energia atômica
Nascida em Liu Ho, na China, em 1912, Chien-Shiung Wu revolucionou uma lei da Física e, ainda, participou do desenvolvimento da bomba atômica.
Wu foi recrutada pela Universidade Columbia, em Nova York, na década de 1940 como parte do Projeto Manhattan e, então, ela conduziu pesquisas sobre detecção de radiação e enriquecimento de urânio. Ela permaneceu nos Estados Unidos após a guerra e ficou conhecida como uma das melhores físicas experimentais de sua época, afirmou Nina Byers, professora de física aposentada da Universidade da Califórnia, Los Angeles.
Em meados da década de 1950, dois físicos teóricos, Tsung-Dao Lee e Chen Ning Yang, procuraram Wu para ajudá-la a refutar a lei da paridade. Essa lei afirma que, na mecânica quântica, dois sistemas físicos — como átomos — que são imagens especulares se comportariam de maneira idêntica.
Os experimentos de Wu usando cobalto-60, uma forma radioativa do metal cobalto, derrubaram essa lei, que havia sido aceita por 30 anos.
Esse marco na Física levou ao Prêmio Nobel de 1957 para Yang e Lee — mas não para Wu, que foi totalmente excluída apesar de seu papel fundamental. "As pessoas acharam [a decisão do Nobel] ultrajante", disse Byers.
Pnina Abir-Am, historiadora da ciência da Universidade Brandeis, também nos Estados Unidos, concordou, acrescentando que a etnia também desempenhou um papel discriminatório.
Wu morreu de um derrame cerebral em 1997, em Nova York.

Retrato de Lise Meitner, física que descobriu que os núcleos atômicos podem ser divididos ao meio.
Lise Meitner: a física austríaca que descobriu a fissão nuclear
Nascida em Viena, Áustria, em 1878, Lise Meitner, com seu trabalho em física nuclear, descobriu algo muito significativo: a fissão nuclear — o fato de que núcleos atômicos podem se dividir em dois. Essa descoberta lançou as bases para a bomba atômica. Porém, a sua história é um emaranhado complexo de sexismo, política e etnia.
Após concluir seu doutorado em Física na Universidade de Viena, Meitner mudou-se para Berlim em 1907 e começou a colaborar com o químico Otto Hahn. Eles mantiveram sua relação profissional por mais de 30 anos.
Após a anexação da Áustria pelos nazistas em março de 1938, Meitner, que era judia, foi para Estocolmo, Suécia. Ela continuou a trabalhar com Hahn, trocando correspondências e se encontrando secretamente com ele em Copenhague em novembro daquele ano.
Embora Hahn tenha realizado os experimentos que produziram as evidências que apoiavam a ideia da fissão nuclear, ele não conseguiu encontrar uma explicação. Meitner e seu sobrinho, Otto Frisch, elaboraram a teoria.
Só que Hahn publicou suas descobertas sem incluir Meitner como coautora, embora vários relatos afirmem que Meitner compreendeu essa omissão, dada a situação na Alemanha nazista.
"Foi assim que Meitner perdeu o crédito pela descoberta da fissão nuclear", disse Lewin Sime, autor de uma biografia de Meitner.
Outro fator que contribuiu para o descaso com o trabalho de Meitner foi o seu gênero. Meitner chegou a escrever a um amigo que ser mulher na Suécia era quase um crime. Um pesquisador do comitê do Prêmio Nobel de Física tentou ativamente excluí-la. Dessa forma, Hahn ganhou sozinho o Prêmio Nobel de Química de 1944 por suas contribuições para a fissão do átomo.
"Os colegas de Meitner na época, incluindo o físico Niels Bohr, acreditavam que ela era fundamental para a descoberta da fissão nuclear", disse Sime. Mas, como seu nome não constava no artigo inicial com Hahn — e ela foi excluída do Prêmio Nobel que reconhecia a descoberta —, ao longo dos anos, ela não foi associada a essa descoberta.
A física nuclear morreu em 1968 em Cambridge, na Inglaterra.

A pesquisadora britânica Rosalind Franklin fotografada em Paris, na França.
Rosalind Franklin: a pesquisadora que determinou a estrutura do DNA
Nascida em 1920 em Londres, Rosalind Franklin usou raios X para obter uma imagem do DNA que mudaria a biologia.
Seu caso é talvez um dos mais conhecidos — e vergonhosos — de uma pesquisadora que teve seu crédito roubado, disse Lewin Sime.
Franklin formou-se doutora em físico-química pela Universidade de Cambridge em 1945 e, em seguida, passou três anos em um instituto em Paris, na França, onde aprendeu técnicas de difração de raios X, ou seja, a capacidade de determinar as estruturas moleculares de cristais.
Ela retornou à Inglaterra em 1951 como pesquisadora associada no laboratório de John Randall no King's College de Londres e logo conheceu Maurice Wilkins, que liderava seu próprio grupo de pesquisa estudando a estrutura do DNA.
Franklin e Wilkins trabalharam em projetos de DNA separados, mas, segundo alguns relatos, Wilkins interpretou erroneamente o papel de Franklin no laboratório de Randall como o de assistente, em vez de chefe de seu próprio projeto.
Enquanto isso, James Watson e Francis Crick, ambos da Universidade de Cambridge, também tentavam determinar a estrutura do DNA. Eles se comunicaram com Wilkins, que em algum momento lhes mostrou a imagem do DNA feita por Franklin — conhecida como Foto 51 — sem o seu conhecimento.
A Foto 51 permitiu que Watson, Crick e Wilkins deduzissem a estrutura correta do DNA, que publicaram em uma série de artigos na revista científica Nature em abril de 1953. Franklin também publicou na mesma edição, fornecendo mais detalhes sobre a estrutura do DNA.
A imagem da molécula de DNA feita por Franklin foi fundamental para decifrar sua estrutura, acontece que apenas Watson, Crick e Wilkins receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1962 por seu trabalho.
Franklin morreu de câncer de ovário em 1958, em Londres, quatro anos antes de Watson, Crick e Wilkins receberem o Nobel. Como os Prêmios Nobel não são concedidos postumamente, nunca saberemos se Franklin teria recebido uma parte do prêmio por seu trabalho.
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Nettie Stevens: geneticista que descobriu os cromossomos sexuais
Nascida em 1861 em Vermont, Estados Unidos, Nettie Stevens realizou estudos cruciais para determinar que o sexo de um organismo era ditado por seus cromossomos, e não por fatores ambientais ou outros.
Após receber seu doutorado pelo Bryn Mawr College, na Pensilvânia, Stevens continuou na faculdade como pesquisadora, estudando a determinação do sexo.
Ao trabalhar com larvas de tenébrio, ela conseguiu deduzir que os machos produziam espermatozoides com cromossomos X e Y — os cromossomos sexuais — e que as fêmeas produziam células reprodutivas apenas com cromossomos X. Isso corroborou a teoria de que a determinação do sexo é dirigida pela genética do organismo.
Um colega pesquisador, chamado Edmund Wilson, teria realizado um trabalho semelhante, mas chegou à mesma conclusão mais tarde do que Stevens.
Stevens foi vítima de um fenômeno conhecido como Efeito Matilda: que é definido como a repressão ou negação das contribuições de pesquisadoras para a ciência.
Thomas Hunt Morgan, um geneticista proeminente da época, é frequentemente creditado pela descoberta da base genética da determinação do sexo, afirmou Hoopes, do Pomona College. Ele foi o primeiro a escrever um livro didático de genética, observou ela, e queria ampliar suas contribuições.
"Os livros didáticos têm essa terrível tendência de escolher as mesmas evidências que outros livros didáticos", acrescentou ela. E assim o nome de Stevens não foi associado à descoberta da determinação do sexo.
Hoopes não tem dúvidas de que Morgan era grato a Stevens. "Ele se correspondia com outros cientistas da época sobre suas teorias", disse ela. "[Mas] suas cartas com Nettie Stevens não eram assim. Ele pedia detalhes de seus experimentos."
"Quando ela morreu [de câncer de mama em 1912], ele escreveu sobre ela na revista Science, [e] escreveu que achava que ela não tinha uma visão ampla da ciência", disse Hoopes. "Mas isso porque ele não perguntou a ela."