Líder indígena alerta para reabertura ilegal de estrada em território ashaninka

Em entrevista exclusiva, Francisco Piyãko alerta para as ameaças que rondam os indígenas que vivem nos dois lados da fronteira entre Acre e Peru.

Próximos da fronteira entre Brasil e Peru e distribuídos em várias canoas, ashaninkas de ambos países sobem o rio Amônia na tradicional expedição de reconhecimento do território. A viagem serve para monitorar a área e mostrar a riqueza e importância da terra para os mais jovens.

Foto de André Dib
Fotos de André Dib
Publicado 9 de nov. de 2021 12:11 BRT, Atualizado 14 de nov. de 2021 11:13 BRT

Ente junho e julho de 2021, mais de 200 pessoas do povo ashaninka partiram para uma expedição até as cabeceiras do principal rio de seu território, o Amônia.

Mesmo sendo realizada há décadas, como uma tradição, o caráter da expedição deste ano foi diferente. Organizada pela Associação Ashaninka do Rio Amônia-Apiwtxa, a jornada teve como finalidade a produção de um documentário para mostrar como a reabertura ilegal da estrada UC-105 – que tem 300 km e liga as cidades peruanas de Nuevo Italia e Puerto Breu – ameaça o povo ashaninka, que vive nos dois lados da fronteira entre Peru e Brasil.

A expedição durou oito dias e juntou as comunidades Apiwtxa, do lado brasileiro, e Sawawo, do lado peruano. O fotógrafo André Dib acompanhou a viagem e fez as imagens que ilustram esta entrevista.

Empreender pelo território, levando todas as famílias, é uma tradição cultural dos ashaninka. São dias de trocas entre gerações, de reconhecimento e aprendizado para os mais jovens e crianças.

O povo do rio Amônia monitora o território há mais de trinta anos, inclusive com um plano de gestão, mas, desta vez, os perigos trazidos por uma rota ilegal, que ameaça há décadas os indígenas nos dois países, tem contornos mais urgentes e perigos mais próximos. A estrada, que estava fechada no passado e era usada por madeireiros, agora está sendo reaberta de forma ilegal, trazendo novos interesses e ameaças como tráfico de drogas, invasão de território e extração ilegal de madeira.

Conversamos com uma das lideranças deste povo, Francisco Piyãko. Em entrevista à National Geographic Brasil, ele falou sobre ancestralidade, mudanças climáticas e os medos que rondam o povo ashaninka no lado brasileiro. Francisco é um dos sete filhos de Antônio Piyãko, principal liderança da comunidade Apiwtxa, e Piti, sua esposa. Por ser o mais velho, assumiu a função de líder político da comunidade.

Em uma conversa emotiva, Francisco desabafou. “O sentimento que a gente tem é de que essa foi a última viagem com esse caráter de liberdade”, disse, pois não sabe como será a segurança do seu povo no futuro. Para as lideranças ashaninka, a partir de agora nada será como antes.

As palavras de Piyãko, ouvidas em uma chamada de vídeo, ecoam o que a ciência e as Nações Unidas já avisaram: para o mundo conter o avanço da degradação ambiental e a perda de biodiversidade, a proteção dos territórios indígenas é fundamental.

O povo ashaninka, depois desta expedição, se prepara para tempos ainda mais duros, de defesa de seu território e cultura ancestral. “A nossa vida é aqui. Não tem outro lugar no mundo para nós.”

Em uma entrevista emotiva, realizada por vídeo-chamada, o líder ashaninka Francisco Piyãko falou sobre ancestralidade, mudanças climáticas e as demais ameaças que rondam seu povo.

Foto de André Dib

P.C.: Este ano vocês fizeram o que talvez seja a última expedição para a cabeceira do rio Amônia. Qual foi o trajeto e qual o principal objetivo dessa expedição?

F.P.: Nós, ashaninkas, percebemos as coisas e temos a sensibilidade de entender como que elas estão em volta da gente. Porque a natureza fala, a gente ouve, traduz e começa a agir. Creio que essa expedição tenha sido por um impulso chamado pela natureza. Falei para os meus irmãos que tínhamos que fazer uma expedição levando toda a família este ano. Então levamos mais de 100 pessoas. Juntamos com outra comunidade e fomos ao longo do rio, fazendo aquilo que é normal entre nós, família tradicional ashaninka.

Mas com um tom muito especial, porque entendemos que essa missão pode ser a última com um caráter de liberdade.

De coração aberto, de vida, digo que o nosso único compromisso e preocupação era fazer o bem para a natureza e receber da natureza um abraço de bondade. Falamos várias vezes que esse momento não podia ser adiado para um outro tempo. Porque não tem mais tempo.

O sentimento que temos é que essa foi a última viagem. Não temos mais o mesmo lugar, o mesmo ambiente, o mesmo nada. Mudou tudo. Já não podemos andar em família como andávamos – esse tempo passou. Quando eu falo [se emociona], isso mexe muito comigo, porque eu não queria estar falando como se fosse um passado. Nossa luta ainda é presente e vamos continuar lutando.

Estávamos preocupados que poderia ser a última expedição, mas vamos trabalhar para que não seja. Esse é o nosso desafio.

Amanhecer na floresta, próximo a aldeia Apiwtxa. A maioria dos ashaninkas ainda vive no Peru. No Brasil, estão dispersos em terras indígenas diferentes e descontínuas na região do Alto Juruá, no extremo oeste da Amazônia.

Foto de André Dib
À esquerda: No alto:

Aldeia Apiwtxa, na TI Kampa do Rio Amônia, município de Marechal Thaumaturgo, no Acre.

À direita: Acima:

Canoas de expedição ashaninka chegam a Comunidade indígena Sawawo Hito 40, na fronteria entre Brasil e Peru.

Foto de André Dib

P.C.: Como era esta viagem antes? Faziam essas expedições?

F.P.: As famílias ashaninka fazem esta expedição todo ano. Sai de família em família – é uma tradição. O que fizemos foi juntar todas as famílias para fazer uma espécie de um reconhecimento – trabalhar a história, o significado do rio no passado, no presente e no futuro, preparar as próximas gerações sobre a importância do rio, a importância de tudo, na verdade. Nunca tínhamos feito uma expedição com outra comunidade do lado do Peru, e ela foi motivada porque sabíamos que a situação, o que vem se aproximando da gente, ia acabar com essa possibilidade de pensar o rio como um território, como uma região nossa, com a liberdade que a gente tinha.

Por isso fizemos uma expedição pensada, planejada. Claro que a gente não adivinha, mas previmos que essa poderia ser a última.

P.C.: Logo quando vocês voltaram da expedição, os temores se concretizaram porque vieram os anúncios de invasão de terra. Queria que você nos contasse sobre a história das estradas que ameaçam o território ashaninka.

F.P.: Esta é a terceira tentativa. Nos anos 1970 para os 80, já tentaram pesquisar essa região, com um processo de investimento muito forte. Não era só o Peru, envolvia outros países em busca de petróleo, mineral, madeira e recursos nesta região.

Agora, neste momento, as empresas estão agindo de uma maneira mais complicada. Teve o momento da pandemia, quando as instituições praticamente pararam, se ausentaram das fiscalizações e ficaram distante das comunidades. Todo mundo se isolou. E agora estamos vendo e sofrendo as consequências de empresas que entraram sem autorização, nem do governo, nem das comunidades. Estão cortando as florestas, entrando em direção das comunidades indígenas.

E eu me refiro à UC-105, que nunca foi uma estrada legal. Ela não tem nenhuma autorização para funcionar, para ser aberta, e está chegando no Juruá.

Isso está mais do que claro nos mapas apresentados. Quem está monitorando essa questão, está acompanhando o deslocamento de muita gente de outra região do Peru, seguindo a estrada para fazer agricultura, plantações, para poder fazer a sua subsistência... estão plantando coca.

As máquinas estão abrindo a estrada sem nenhuma permissão. Enganando as comunidades como se fosse o progresso, colocando líderes de comunidades uns contra outros. É um problema muito sério.

Em Pucallpa, no Peru, um quilo de arroz custa R$ 3. Aqui no Brasil, o preço do arroz, na nossa região de fronteira, está em torno de R$ 6 a 8. Se o motivo fosse abrir mercado, como essas comunidades daqui do Juruá vão sair para vender arroz em Pucallpa, onde o preço está em R$ 3? Não tem sentido.

Só que a comunidade entende que abrir um caminho para Pucallpa é uma oportunidade de escoar a produção. Não existe isso. Não há estudo de viabilidade. Qualquer governo que seja responsável vai estudar, porque não é só o desejo de uma comunidade, é a importância e a viabilidade que uma estrada como essa tem. E sabemos que não tem viabilidade nenhuma. Essa demanda não nos pertence, não tem nada a ver com a gente.

Existe uma estrada que se chama Interoceânica, que liga Iñapari-Puerto Maldonado com o Oceano Pacífico. Ela sai de Rio Branco (AC), passa por Assis Brasil e faz essa ligação. Agora, com a UC-105, estão querendo ligar um outro extremo – Cruzeiro do Sul a Pucallpa – passando pelo Parque Nacional da Serra do Divisor. É uma outra estrada – se uma não deu certo, querem fazer outra.

É uma tristeza andar na região de Assis Brasil e Iñapari e ver como não tem controle, não tem fiscalização.

Nossa questão não é a estrada, estamos discutindo quanto isso pode estar relacionado com a nossa necessidade, até onde isso atende. E sabe o que eles estão fazendo agora? Estão querendo abrir uma outra Interoceânica, saindo da nossa terra.

Lideranças ashaninka
À esquerda: No alto:

Wewito Piyãko toca instrumento tradicional às margens do rio Amônia, na TI Kampa do Rio Amonea, Acre. Wewito co-dirigiu, com Vincent Carelli, o filme Antônio & Piti, que conta a história do casamento dos Antonio, líder ashaninka, e Piti, filha de seringueiros.

À direita: Acima:

O pajé ashaninka Moises Piyãko fuma cachimbo às margens do rio Amônia.

Foto de André Dib

O patriarca Antônio Piyãko, cacique da aldeia Aptwa, no Acre, e líder ashaninka.

Foto de André Dib

P.C.: Saindo do território ashaninka?

F.P.: Saindo no território ashaninka, isso é um absurdo. Eu não consigo compreender que governo são esses, tanto do Brasil, quanto do Peru, que não entendem a região, não consultam nada. A estrada vai destruir com a nossa vida, não tem relação com a nossa realidade. Eu acho que estamos no momento mais difícil das nossas vidas, isto aqui é o extremo.

Vamos ter uma grande assembleia em novembro para tomar uma decisão. Talvez fechemos este rio para sempre, ou por muito tempo, para muita coisa. Terão que passar por cima de nós, porque não aceitamos isso, é muito revoltante. A gente troca a vida por isso. 

P.C.: Como vocês veem a aproximação e a entrada de pessoas nos territórios por essas duas eminentes estradas? Já tem indícios de gente dentro do território indígena?

F.P.: Sim. Tem duas questões que eu queria colocar. Quando o governo brasileiro, a partir de primeiro de janeiro de 2019, baixa uma portaria propondo mudanças radicais na legislação brasileira, no ambientalismo e no indigenismo e leva a embates, discussões e recuos, a consequência disso é muito grave. Hoje tem um quadro de invasões em terras indígenas, de mortes de líderes indígenas, de queimada da Amazônia, inclusive com um dia da queimada das florestas. É muito triste isso. Não é uma coisa para a qual eu tenho palavra. Se fizermos o resumo de tudo que mudou, na direção de tirar direitos – não só dos povos indígenas, mas todas as conquistas sociais –, foi muito sério. E nós sofremos as consequências aqui.

As pessoas olham para nós dizendo: ‘O tempo de vocês já passou, agora os tempos são outros’. É como se a gente tivesse que baixar a cabeça para eles, tomar a benção e dizer 'Ah, desculpa, eu estou na terra de vocês de novo’. É muito ruim.

Nós, aqui na comunidade Apiwtxa, somos um problema para o narcotráfico, para a ilegalidade, para o madeireiro, para as questões ilegais. E quando somos um problema, a tradição desses grupos é eliminar os problemas. Se o estado não está presente, terá que contar a história do que aconteceu.

Estamos ameaçados, não só pela ilegalidade, mas pelos próprios que poderiam proteger essas terras. Não vi, em nenhum momento, o estado brasileiro vir aqui discutir, perguntar alguma questão sobre as ameaças nessa fronteira, nenhuma. E a situação aqui nas nossas fronteiras não é desconhecida, vários dos nossos meios sociais estão apontando o que está passando. E ninguém se manifesta. Estamos sozinhos aqui. 

P.C.: Vocês fazem algum tipo de monitoramento da área além dessa expedição? Há monitoramento de invasões no território indígena do rio Amônia?

F.P.: Sim, fazemos. Não é de agora. Tem mais de 30 anos que monitoramos nosso território. A gente produziu um plano de gestão e tem acompanhado ao longo do tempo toda as ameaças. Talvez seja um dos projetos mais avançados do ponto de vista de gestão territorial. O mundo precisaria entender o que a gente está fazendo, não é por acaso que a gente está lutando para manter este lugar.

A tradicional expedição ashaninka é um momento "de trocas entre gerações, de reconhecimento e aprendizado para os mais jovens e crianças", diz Francisco Piyãko.

Foto de André Dib
À esquerda: No alto:

Os líderes Alípio Piyãko, Antônio Piyãko – da aldeia Apiwtxa, no Brasil – e Carlos Paredes – de Sawawo, no Peru –, se reunem às margens do rio Amônia durante a expedição.

À direita: Acima:

Indígenas ashaninka fazem fogueira ao amanhecer duraante expedição pelo rio Amônia e a TI Kampa do Rio Amônia.

Foto de André Dib

P.C.: Quantas pessoas têm na aldeia Apiwtxa e no território indígena do rio Amônia?

F.P.: Nós estamos aqui em 1,3 mil pessoas. E temos muita clareza de que a nossa vida é aqui. Não tem outro lugar no mundo para nós.

P.C.: Como é a história do povo ashaninka nessa região? Há quanto tempo estão no território do rio Amônia?

F.P.: O meu avô falava do avô dele e de outros, mais antigos, que não tinha nem um branco aqui nesta região. Ele dizia que a gente sabia que os brancos existiam, mas que buscávamos o branco para tentar entender o que era esse mundo deles. E ninguém sabia o que era Peru, o que era Brasil, não tinha nada disso. E que as línguas – tanto portuguesa, quanto outras – não tinham diferença, eram línguas estrangeiras. Nos últimos 100 anos, começamos a entender que tem língua peruana, língua brasileira – é muito novo para nós. Mas o nosso povo se conhece desde quando não tinha ninguém aqui, só a gente. Era nosso. Tínhamos os grandes líderes dos rios, bacias. Meu bisavô era chefe de grandes rios, para cuidar da sua família, do seu povo, depois o meu avô.

E a presença nesse rio não tinha fronteiras, não tinha limites. Era um rio da paz. A gente tinha um rio sagrado, onde ninguém nunca ia chegar. Porque o único lugar, para nós, era o céu. Aqui, onde Deus tinha começado tudo, estava protegido. Mas acabou. Hoje não sabemos mais onde tem um lugar de Deus, de Pawa, como chamamos. Estamos muito tristes por isso, porque esta geração não vai ter mais o sentimento que nós tínhamos. Vamos lutar, mas com uma tristeza muito grande com a covardia que essas pessoas estão fazendo com a gente. [Emociona-se muito]

P.C.: Você citou a gestão territorial e tem outros projetos muito importantes que são desenvolvidos pela associação. Eu queria que você os comentasse – o de sementes florestais nativas, com mogno, o de coleta, de arte, de polpas de fruta. Eles são desenvolvidos há muito tempo? Como começou essa organização pela associação?

F.P.: Primeiro, entendemos o que é necessário. Estamos acompanhando o movimento do planeta todo. Na nossa cultura, não podemos ficar vivendo de doação do outro, isso não é sustentável. Temos muito claro que temos algo para dar. Temos esse espírito de troca, de dar e receber, mas também existe uma burocracia do mundo global que precisa ser respeitada. Então criamos uma cooperativa e uma associação que são nossos instrumentos de trabalho. Conseguimos fazer deles meios importantes para poder dialogar e trabalhar. E estamos entendendo que alguns projetos atendem a parte mais política de proteção do território, de lutar pela informação, pela capacitação, pela política. Mas também precisamos dialogar sobre troca de produtos. Estamos, inclusive, acompanhando o que estão falando da bioeconomia, da Amazônia 4.0, aquecimento global. Ninguém está desinformado. Tanto é que estamos falando da nossa aldeia aqui. Nem todo mundo aqui tem acesso a essa tecnologia [de vídeo-chamadas]. Mas esse é um instrumento de trabalho nosso.

Temos muito claro que essa relação se dá a partir do momento que se mede cada coisa. Por exemplo: a semente tem que estar disponível para atender uma demanda de um mercado muito grande hoje. O planeta precisa ser reflorestado. Às vezes, a pessoa não tem de onde tirar a semente, não tem semente qualificada, segura, então ajudamos. Claro que tem um custo. Tem uma burocracia que temos que tratar, e é o que estamos fazendo.

Temos outras questões relacionadas a alimentos, que também discutem como levar alguma coisa e, com isso, receber em troca. Essa troca cria condições para a gente continuar resistindo, lutando pelo nosso território, pela nossa floresta. Temos essa clareza, ninguém faz nada só por fazer. Estamos lutando para fazer com que essa relação seja sob medida. Se alguém se encanta com um produto que a comunidade ashaninka produz, ótimo, isso é uma oportunidade. Mas temos uma causa. Não temos um produto para ganhar dinheiro, porque a nossa vida não é pensada assim. E entendemos que o sistema capitalista influencia o consumismo e tenta envolver o planeta todo numa regra, mas a nossa regra é outra. Vivemos a regra da abundância.

A gente trabalha a nossa ciência, ela é distribuída para todos. Não pertence a só um, é diferente. Ela não se vende. Conhecimento é prazer de ajudar o outro, não é negócio para viver. Quanto mais você faz para ajudar o outro, mais rico você é, porque você tem todos a seu favor. Quando você é um cara que vende o seu conhecimento, você passa a ser um pobre. A vida é o que nos move, essa é a lógica da vida. Não temos negócio. Esses são os princípios da nossa cultura.

Estamos num lugar em que pessoas vêm aqui por conta de uma espécie florestal, madeireira ou não, e querem destruir o que temos. Eles não perguntam nem quanto a gente quer, por que a gente quer, o que a gente quer. Essa imposição não dá. Eu, que tenho uma idade mais avançada, queria morrer mais tranquilo, não queria morrer nesse sufoco. Queria fazer minha passagem contribuindo. Queria alcançar um pouco dessa vontade de respeito aos modos de vida, à diversidade.

À esquerda: No alto:

Watxa Ashaninka segura uma cuia para tomar caiçuma, também conhecido como piyarentsi, bebida a base de fermentado de mandioca, muito consumida em rituais.

À direita: Acima:

Benki Piyãko, fotografado na TI Kampa do Rio Amonea, é líder espritual e político dos ashaninka.

Foto de André Dib

P.C.: Você tem filhos? Como as próximas gerações do povo ashaninka recebem esses ensinamentos, principalmente agora que estão em pleno momento de luta e resistência?

F.P.: Eu tenho oito filhos, já sou avô. Sou filho mais velho do cacique e tenho uma responsabilidade muito grande. E eu não consigo ver outras crianças, outros jovens, diferente de como filhos também, com a mesma necessidade. Essa é a grande coisa que mexe comigo. Preciso ter mais pernas para atingir a todos e levar a todos essa mensagem, essa preocupação. Não é fácil. Às vezes as regras, as coisas bonitas, estão colocadas, mas se não forem muito bem aprofundadas no seu coração, elas se perdem, passam a não ter tanta importância. Às vezes as coisas de fora falam mais alto, ficam mais bonitas e a gente fica sofrendo com isso. Temos aqui uma geração que tratamos assim. Talvez a palavra não seja muito dura, mas a gente tem tratado com muita responsabilidade essas crianças, para que o tamanho da liberdade seja compreendido também na sua responsabilidade. Mas sentimos que o entorno é muito cruel conosco. Sofremos muito porque, enquanto orientamos por um lado, as questões que vêm do outro lado desconstroem. Querem desconstruir a nossa luta. Isso é no mundo todo, né?

P.C.: Apesar de tudo que vocês fazem através de projetos pela associação ou pelo próprio povo ashaninka, existem impactos que fogem da nossa mão, como, por exemplo, o das mudanças climáticas e das queimadas no Acre agora. Eu queria saber se vocês estão sentindo esses impactos no território e quais seriam.

F.P.: Muito. É difícil, mas a gente procura se adaptar, mas já teve situação aqui da pessoa plantar e não nascer. Às vezes, quando nasce, cai uma chuva num horário errado e isso finda matando a plantação. Outra coisa é a questão da temperatura. Nós tínhamos uma cultura de ir para o roçado, passar o dia e voltar para casa tranquilo. Era normal. O sol era de acordo com a nossa capacidade de suportá-lo. Hoje você não aguenta mais um dia de sol. Se você pegar um dia de sol – aqui não medimos a temperatura –, sentimos que é muito fora do normal, as pessoas não aguentam. E não é porque as pessoas não queiram, é porque não suportam mesmo. Em termos de calor, é muito diferente do que era antes.

Também sentimos que os períodos são outros. Na época que estamos esperando o tempo de seca, vem tempo de chuva. Tempo que é para estar chovendo, vira seca. Já tivemos situações dos animais começarem a morrer, porque eles bebem dos córregos, dos igarapés pequenos, onde nasce a água, e eles começaram a secar. Como natureza, como povo da floresta, não conseguimos descrever isso, mudar o que está acontecendo, porque o mundo tem muito problema, e a gente não tem espaço para falar disso.

Se você perceber, muitas regiões da Amazônia secaram. E a gente tem medo de que esta região também comece a secar. Este ano secou tanto que não conseguíamos andar nos barcos que usamos todo o tempo. Seco.

Estamos muito assustados com tanta agressão. Quando é sol, é sol demais. Quando é chuva, é chuva demais. Quando é seco, é seco demais. Essas coisas deixam as nossas grandes lideranças, as pessoas mais antigas, dizendo que são outros tempos, que a gente não conhece. Dá para prever muita coisa, como a gente fazia no passado.

Criança navega de canoa pelo Rio Amônia, no território ashaninka.

Foto de André Dib

Casa tradicional ashaninka e a Via láctea ao fundo.

Foto de André Dib

P.C.: Para encerrarmos esta conversa, te agradeço por todas essas palavras e por passar a mensagem não só das ameaças, mas da cultura ashaninka e da grandiosidade deste território, tão biodiverso e tão importante, que vocês vivem.

F.P.: Eu queria só dizer de que estamos aqui nessa luta. Eu tenho certeza de que se o nosso gesto, as nossas atitudes, a nossa maneira de ser – o respeito à natureza, o respeito à biodiversidade, o respeito às outras sociedades –, fossem iguais no mundo inteiro, teríamos um planeta bom, para uma vida mais longa. Porque eu tenho certeza de que estamos certos em proteger.

Acho que nada vai mudar se não tiver uma resposta da sociedade como um todo, se as pessoas não entenderem que o planeta é a nossa casa, uma casa comum de todos, que ela é importante para nossa vida, que é preciso trabalhar contra o aquecimento global.

O nosso planeta está correndo um risco muito sério. É preciso que nos juntemos todos para cuidar de nós mesmos de maneira coletiva. O individual não cabe mais neste tempo, só prejudica. O poder tem que seguir uma outra lógica – é compartilhando que você pode obtê-lo. Temos pouco tempo para doar um para o outro. É muito triste viver isso, mas uma realidade – vai depender de cada um de nós para que possamos ter uma vida mais longa neste planeta.

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