Mudanças climáticas e atividades humanas já ameaçam áreas inundáveis da Amazônia

Várzeas e igapós enchem e secam todos os anos de acordo com o ciclo de chuvas da floresta. São espaços de rica biodiversidade e da cultura ribeirinha. Mas o pulso da inundação deixou de ser previsível – e cientistas agora tentam entender melhor o impacto.

A vegetação do igapó orna a região do rio Juma, no Amazonas. As florestas de várzea e igapó ficam localizadas em topografias mais baixas, que alagam conforme as cheias e vazantes dos rios. Variações naturais e atividades humanas causam impactos variados no pulso de inundação da Amazônia, num cenário dinâmico que começou a ser estudado apenas recentemente.

Foto de André Dib
Por Letícia Klein/Ambiental Media
Fotos de André Dib
Publicado 30 de ago. de 2021 12:08 BRT, Atualizado 9 de set. de 2021 17:16 BRT

Maior floresta tropical do planeta, maior rio: a Amazônia é uma paisagem de extremos. Mas é na conexão entre esses dois elementos, a terra e a água, que desponta uma identidade fundamental da região: as áreas inundáveis. Espraiadas sobre 30% da bacia amazônica, cerca de 2 milhões de km², várzeas, igapós, baixios, campinas, manguezais e outros ambientes úmidos abrigam uma diversidade de espécies de fauna e flora e um singular modo de vida ribeirinho – animais, plantas e seres humanos adaptados para viver de acordo com um poderoso e regular período sazonal de chuvas.

O chamado pulso de inundação, causado pela concentração de chuvas nas cabeceiras dos principais rios da bacia, determina o nível das cheias e secas anuais. A previsibilidade do pulso aumenta a produção de matéria orgânica nos ecossistemas amazônicos e dá condições de vida para a biodiversidade e as comunidades humanas, num ciclo preciso que prospera há milhares de anos na imensidão verde.

Tal equilíbrio, porém, está em perigo. Diferentes causas intensificam gradativamente o nível das chuvas ou a ocorrência de secas intensas, alertam cientistas. Nos primeiros 70 anos dos registros de elevação da água no porto de Manaus, que começaram em 1902, as enchentes severas ocorreram a cada 20 anos. Nas últimas três décadas, a média caiu para quatro. De 2009 para cá, houve sete cheias extremas na Amazônia Central, incluindo as três maiores já registradas. 

Essa mudança drástica no ciclo hidrológico da maior bacia hidrográfica do mundo, que abrange mais ou menos 18% de toda a água doce que chega aos oceanos, “é algo que chama a atenção”, aponta Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Estudos recentes do órgão apontam que, ao longo dos 120 anos do registro das cheias, o nível médio da água subiu 1 metro, e a amplitude anual, que é a diferença entre o nível máximo e mínimo, aumentou 1,5 m nas últimas três décadas.

Um morador avança com sua canoa entre vitórias-régias no rio Croa, em Cruzeiro do Sul, no Acre. A vida das comunidades nas várzeas e igapós é definida pela sazonalidade das secas e cheias do Amazonas e seus tributários. A previsibilidade desse fenômeno anual permitiu que os animais e os ribeirinhos se adaptassem ao longo dos séculos. Mas um cenário de cheias e secas extremas cada vez mais frequentes demanda medidas de adaptação, como a moradia em casas flutuantes e o manejo de culturas agrícolas.

Foto de André Dib
À esquerda: No alto:

Ícone da fauna amazônica e personagem da cultura ribeirinha, o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) é um dos raros golfinhos fluviais do mundo e descende de ancestrais marinhos. 

À direita: Acima:

Outro mamífero nas águas da bacia é o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), que se alimenta das abundantes plantas herbáceas das várzeas e igapós.

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A questão, na avaliação do pesquisador, é saber até que ponto o problema “é influenciado pela variabilidade natural de grandes sistemas climáticos, ou se já é uma manifestação das mudanças climáticas de origem humana”. Interações complexas entre essas duas fontes causam sinergias que se retroalimentam, afetando o clima regional e, com isso, o regime hidrológico e a dinâmica dos ambientes alagáveis. 

Água é paisagem e modo de vida

As várzeas e os igapós, mais típicos ambientes úmidos da Amazônia, formam as planícies de inundação dos grandes rios. Basicamente, o que diferencia uma da outra é o tipo de rio. As florestas de várzea são banhadas pelas águas brancas do Amazonas, Madeira e Purus, por exemplo, que são ricas em sedimentos – o segredo da fertilidade dos solos varzeiros. 

Já as florestas de igapó estão às margens de rios de água preta, como o Negro, e de água clara, como o Araguaia e o Tocantins. As águas são ácidas e pobres em nutrientes, o que se reflete numa densidade menor de moradores nessas regiões em comparação com as várzeas, onde as condições naturais são mais propícias para o extrativismo e o cultivo. 

Moradores de comunidades antigas e detentores do saber tradicional da vida na floresta, os ribeirinhos exploram a pesca, a agropecuária, o manejo da madeira e de produtos florestais dentro da sazonalidade dos ciclos naturais. Mínimas alterações no regime hídrico já configuram risco para uma cultura que depende do delicado equilíbrio ambiental.

“Se você olhar a várzea de cima, vai dizer que as pessoas são feitas de coragem”, conta Clarice Rebelo Silva, nascida e criada na região de Tapará, município de Santarém. Com 52 anos, a professora paraense se mudou para a cidade depois de morar por quase quatro décadas na várzea. “Hoje já tem energia elétrica. Mas, antes, eu fazia os planos de aula à luz da lamparina ou vela”, relembra. Na primeira escola onde ela lecionou, perto de casa, Clarice ia a pé. Em outra, o transporte tinha de ser em canoa. “Quando consegui comprar uma bajara, eu levava os alunos comigo.”

À esquerda: No alto:

A Amazônia é a região do globo mais rica em aves, que colorem os céus, as águas e as matas numa amostra magnífica da biodiversidade tropical. Bandos de flamingos (Phoenicopterus ruber) forram o lago Bonome, no Amapá.

À direita: Acima:

Bando de guarás (Eudocimus ruber) em área de manguezal na Ilha de Maracá, no Amapá.

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À esquerda: No alto:

A cigana (Ophisthocomus hoazin) é um símbolo do ambiente fluvial, que influenciou a própria evolução da espécie.

À direita: Acima:

O galo-da-serra (Rupicola rupicola) é outra das aves emblemáticas da Amazônia.

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A rotina das comunidades ribeirinhas é definida pela sazonalidade das secas e cheias. O calendário escolar vai de agosto a abril – só depois que as águas começam a vazar, a partir de julho, é que as aulas começam. Quando o solo reaparece, os agricultores fazem o plantio de mandioca, melancia, manga e uma variedade de verduras nas terras férteis da várzea. Criadores de gado trazem os bois de volta da terra firme e quem tem galinhas retoma o cuidado com as aves. 

A época de águas baixas é também a mais propícia para a pesca, pois os peixes ficam concentrados nos seus habitats de origem. A partir de dezembro, os rios começam a subir, elevando o nível de igarapés e unindo suas águas com as de canais e lagos. A vida aquática se dispersa pelas florestas agora alagadas e por baixo das casas de palafitas. Como fica mais difícil localizar os peixes, é tempo de se dedicar aos afazeres domésticos. Em junho, a cheia atinge seu pico e as chuvas minguam. E o ciclo recomeça.

Avanço de diferentes pressões 

Uma das causas naturais que afetaram o equilíbrio do regime hidrológico foi observada entre 1990 e 2015. Nesse período, houve uma tendência de aquecimento do oceano Atlântico, ao mesmo tempo em que o Pacífico Equatorial esfriou. A diferença de pressão atmosférica entre os dois oceanos criou uma espécie de ponte entre eles sobre a Amazônia. O fenômeno permitiu um aumento da formação de nuvens e, consequentemente, da quantidade de chuvas e do nível das cheias. 

Um terceiro oceano entra em cena quando as mudanças climáticas têm origem humana. Nas últimas seis décadas, explica Jochen Schöngart, o buraco da camada de ozônio e a emissão crescente de gases de efeito estufa causaram uma movimentação no cinturão de ventos do Hemisfério Sul em direção à Antártida. O resultado foi um fenômeno de vazamento das águas quentes do Índico para o Atlântico, aquecendo o oceano que banha o Brasil e contribuindo para o aumento das cheias na Amazônia.

Nas florestas de várzea, as onças-pintadas (Panthera onca) agem de forma diferente de qualquer outro grande felino em terra firme: elas passam um terço de sua vida nas copas das árvores, onde caçam, se reproduzem e criam os filhotes. Machos e fêmeas permanecem na várzea mesmo durante o período de inundação, que dura de três a quatro meses na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, onde foi feito o primeiro estudo sobre o comportamento atípico da espécie.

Foto de André Dib

A preguiça-de-três-dedos (Bradypus tridactylus) aninha-se em uma embaúba na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, no Amapá. Entre os mamíferos do igapó, as preguiças são os que melhor evoluíram para o consumo de folhas. Apesar de lentas na locomoção pelas árvores, são ótimas nadadoras e não hesitam em cruzar curtas distâncias para buscar alimento.

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O pulso de inundação sofre ainda com atividades que têm impactos diretos e quase imediatos, como o desmatamento e as hidrelétricas. Sem a barreira da floresta e a filtragem feita pelas raízes, sobretudo nas cabeceiras dos rios, a descarga da chuva vai diretamente para o leito do corpo hídrico. Um estudo feito no rio Tocantins mostra que isso provoca não só um aumento no nível da água, mas também a antecipação da cheia em comparação com condições normais.

As duas situações resultam na diminuição do período de terras aráveis, o que afeta o cultivo das culturas agrícolas nas comunidades. Um tempo menor para plantio e colheita significa perdas parciais ou totais, gerando prejuízo econômico e insegurança alimentar para as famílias. “Sem eventos extremos, os moradores da várzea conseguem se programar e organizar a vida de acordo com os ciclos sazonais”, comenta Lucineide Pinheiro, professora na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Mas é complicado lidar com a imprevisibilidade.” 

A regularidade do pulso de inundação é particularmente afetada por barragens. “A cheia agora é permanente”, conta Raimundo “Leleco”, líder comunitário no lago Puruzinho, no sul do Amazonas. A diminuição da oferta de peixes, causada pelas usinas hidrelétricas construídas ao longo do rio Madeira, fez com que metade dos pescadores buscasse seu sustento no garimpo.

Realizada no Inpa, a pesquisa de doutorado de Angélica Resende, hoje no Laboratório de Silvicultura Tropical, da Universidade de São Paulo, evidenciou os impactos da usina de Balbina, construída na década de 1980 no rio Uatumã, no Amazonas. Durante a fase terrestre – o período em que as águas estão baixas e o solo aparece nas florestas de igapó e várzea –, a vegetação abastece suas reservas de energia para aguentar a cheia seguinte. No caso de Balbina, por causa da liberação de água do reservatório na estação seca, a floresta local ficou alagada por vários anos seguidos. Resultado: a morte de 18% dos igapós em 125 quilômetros de rio à jusante. 

O estudo concluiu que a alteração do pulso de inundação causa anomalias no crescimento e na mortalidade da macacarecuia (Eschweilera tenuifolia), uma árvore tão icônica no igapó que chega a compor florestas inteiras – foram identificados indivíduos com mais de 800 anos de idade. “A espécie é altamente sensível às mudanças na amplitude e na duração da cheia que impactam os macro-habitats dominados por ela. A mortalidade massiva pode levar à perda dos ambientes, dos serviços ecossistêmicos e até à extinção regional da espécie”, aponta a pesquisa. 

À esquerda: No alto:

Além de fundamentais no ciclo da chuva, as florestas tropicais abrigam a maior biodiversidade do planeta e fornecem tudo que os animais precisam para sua sobrevivência. Cientistas acreditam que o uacari-branco (Cacajao calvus) evoluiu em razão do surgimento das várzeas amazônicas – seu único habitat no planeta.

À direita: Acima:

Bugio-preto-da-amazônia (Alouatta nigerrima) em Autazes, Amazonas.

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À esquerda: No alto:

O barulhento guariba-vermelho (Alouatta seniculus) prefere frequentar igapós em áreas de mata virgem – já foi muito caçado no passado.

 

À direita: Acima:

Macaco-de-cheiro (Saimiri sp.) na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, município de Tefé (AM). A maioria dos macacos da floresta prefere se alimentar de frutos.

Foto de André Dib

Devido à adaptação das árvores a uma inundação sazonal, a ausência da fase terrestre é mais preocupante do que as estiagens extremas para a sobrevivência das espécies, avalia Schöngart. “O perigo das secas prolongadas está na vulnerabilidade das florestas alagáveis ao fogo, que é sempre iniciado por alguma atividade humana”, diz. Os ecossistemas do igapó são os mais impactados, por estarem localizados na zona de influência do El Niño, um dos fatores responsáveis por secas graves na Amazônia. 

O fenômeno climático que surge do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial foi o pivô das grandes secas de 1997-1998 e 2015-2016. Já as secas de 2005 e 2010 foram causadas pelas águas aquecidas do Atlântico Tropical Norte. É a variabilidade natural desses dois grandes sistemas que provoca eventos de secas extremas na Amazônia.

Uma causa humana, porém, está confirmada. No sul da Amazônia, a estação seca aumentou em um mês nos últimos 70 anos, resultando no atraso do início do período chuvoso. “Isso é possivelmente provocado pelo desmatamento em larga escala na região”, analisa Schöngart.

A vida pulsa nas planícies de inundação

Igapós e várzeas são paisagens plenas de biodiversidade. Nos habitats de rios de água branca, como o Madeira, 11% das mais de mil espécies de flora são endêmicas. Cerca de 1 500 espécies de peixes vivem em grandes rios. Das 1 300 espécies de aves da Amazônia, entre 150 e 200 são endêmicas, como o choca-preta-e-cinza (Thamnophilus nigrocinereus). Entre os mamíferos, destacam-se o ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis) e o uacari-branco (Cacajao calvus). Existem até inquilinos inusitados, como a onça-pintada (Panthera onca), que passa o período de cheia nos galhos das árvores, mergulhando em busca de peixes como o tucunaré para se alimentar. 

Espécies de terra firme também dependem de igapós e várzeas para alimentação ou moradia temporária. Araras, papagaios, macacos e mamíferos aquáticos, como os botos, estão nesse grupo. “Quando as áreas alagáveis são destruídas, não apenas as espécies endêmicas são afetadas, mas também aquelas que sazonalmente usam recursos desses ambientes”, explica Camila Ribas, da Coordenação de Biodiversidade e Programa de Coleções Científicas Biológicas do Inpa.

O igarapé Cobra e canal do Inferno abrem caminhos na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, no Amapá. Seguindo o pulso de inundação da bacia, as águas sobem até 10 metros entre dezembro e junho, quando as cheias atingem o seu pico.

Foto de André Dib

A pesca é a principal fonte de proteínas para os ribeirinhos, e a conservação do recurso é vital para a estabilidade dessa população rural. Um importante programa com envolvimento comunitário ocorre nos lagos e várzeas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas. Implantado em 1999, o manejo participativo da pesca de pirarucus (Arapaima gigas) ajudou a aumentar em mais de 400% o estoque natural da espécie, além de incrementar a renda dos pescadores locais.

Foto de André Dib

Apesar disso, o debate sobre conservação, a legislação ambiental e até mesmo o foco dos estudos sempre estiveram mais concentrados na terra firme. “Na Amazônia, quanto mais avançamos em direção à água, menos conhecimento existe”, avalia Angélica Resende. Trabalhos científicos publicados nos últimos anos são o início de uma tentativa de entender como um sistema de drenagem tão complexo como a bacia amazônica, com ciclos de seca e cheia variáveis e uma carga gigante de sedimentos, pode ser afetado por diferentes causas. 

Ainda não existe uma metodologia bem definida para quantificar os impactos das pressões, mas o principal ponto é conseguir entender como elas interagem, explica Camila Ribas. “No igapó do rio Xingu, existe a pressão de uma grande hidrelétrica e o desmatamento. Já no do rio Negro, há pressão por mudanças climáticas e da barragem de Balbina”, analisa a pesquisadora.

Mudanças climáticas, desmatamento, hidrelétricas, sobrepesca e mineração, entre outros fatores, ameaçam a saúde das planícies de inundação, cuja proteção, apontam os especialistas, depende de políticas transnacionais e de uma compreensão abrangente da importância desses ecossistemas.

O valor dos serviços ecossistêmicos das zonas úmidas, relacionados à água, à floresta tropical e à proteção da costa, é um dos mais altos da Terra. Elas fornecem bens materiais, regulam ciclos biogeoquímicos, servem de habitat e sustentam práticas culturais. Várzeas e igapós representam a Amazônia em sua natureza mais profunda – e só o entendimento científico das causas que afetam a dinâmica das inundações pode preservar no futuro esse imenso patrimônio.

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