Nova maneira de medir vulnerabilidade das florestas tropicais pode ajudar a salvá-las?

Com apoio da National Geographic Society, equipe de cientistas renomados criou um índice para detectar quais florestas precisam urgentemente de ajuda.

Árvores caídas marcam a floresta na Bacia do Congo depois que 850 hectares de florestas foram desmatados para plantar dendezeiros no nordeste da República Democrática do Congo em 2019. Um novo estudo criou um índice que mede os danos sofridos por florestas tropicais ao redor do mundo.

Foto de Samir Tounsi, AFP/Getty Images
Publicado 21 de out. de 2021 07:00 BRT

Não se trata apenas da Amazônia.

Florestas tropicais ao redor do planeta, da Indonésia à América Central e de Madagascar às selvas ao redor do rio Mekong, estão sendo cortadas ou queimadas para dar lugar a ranchos, fazendas, plantações de dendezeiros, estradas e outros avanços associados à atividade humana, bem como para a extração de madeira. Em todo o mundo, até 20% das florestas tropicais foram desmatadas apenas desde a década de 1990, enquanto outros 10% desses ecossistemas foram afetados devido a temperaturas mais altas, períodos mais longos sem chuva e secas mais frequentes ocasionadas pelas mudanças climáticas.

Estudo realizado por uma equipe de mais de 50 cientistas e conservacionistas renomados sugere que todas essas alterações estão atingindo fortemente florestas densas e úmidas. Na maioria das regiões localizadas entre os trópicos, as florestas estão perdendo sua capacidade de armazenar carbono e reciclar água, e estão mais vulneráveis ao colapso do que se pensava. De acordo com projeções sobre o ritmo das mudanças climáticas e o aumento do uso da terra, as florestas podem até mesmo se tornar uma fonte de carbono para a atmosfera.

Florestas tropicais úmidas, 2020

Arte de SOREN WALLJASPER

Algumas regiões estão mudando mais rapidamente do que outras. A equipe de especialistas, reunida pela National Geographic Society com o apoio da Rolex, combinou 40 anos de dados de satélite com outras observações florestais para criar um “índice de vulnerabilidade” que os cientistas planejam utilizar nos próximos anos para detectar quais trechos de florestas tropicais precisam de ajuda com mais urgência. A pesquisa foi publicada na revista científica One Earth.

Se continuarem a ser exploradas de forma não sustentável, vastas extensões de floresta tropical podem sofrer com a morte generalizada de árvores ou podem fazer a transição para um novo estado, tornando-se mais secas, semelhantes a savanas. Isso devastaria algumas das regiões mais ricas em vida selvagem da Terra e possivelmente agravaria as mudanças climáticas, pois florestas tropicais intactas absorvem grandes volumes de dióxido de carbono da atmosfera. Embora seja provável que as mudanças ocorram de forma gradual, os cientistas temem que algumas florestas, especialmente a Amazônia, possam se transformar rapidamente.

“Acredito que todos sabemos que as coisas não vão bem na natureza”, afirma Kristofer Covey, ecologista e bioquímico da Faculdade Skidmore e coautor do estudo. “O objetivo aqui é entender quais são os problemas, onde estão localizados e a dimensão de cada um. Além disso, é descobrir se podemos utilizar essas informações para tomar decisões melhores no futuro.”

Os cientistas esperam que essa abordagem possa fornecer um sistema de alerta precoce para direcionar os recursos de conservação, que são limitados, para as florestas em maior risco.

“A população precisa entender que não se trata apenas de desmatamento”, explica o autor principal Sassan Saatchi, especialista em carbono florestal do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. “O modo de funcionamento das florestas está mudando. Desde aproximadamente a década de 2000, estamos observando um novo fenômeno. O impacto das mudanças climáticas se acelerou.”

Impacto humano em florestas tropicais

Mudanças em cobertura florestal – desmatamento, degradação ou talvez regeneração – mostram a área espacial que florestas ocupam. É um bom indicador de como humanos já afetaram as florestas.

Arte de SOREN WALLJASPER

Examinando florestas tropicais 

O estado das florestas tropicais difere de um continente para o outro. As florestas africanas são atingidas por incêndios com mais frequência do que outros locais, ao passo que a Amazônia perde mais água do que as florestas asiáticas. A produtividade florestal está diminuindo significativamente em toda a Amazônia, mas permanece estável no Congo e está até mesmo aumentando nas florestas tropicais da China, em parte devido à recuperação de explorações anteriores e esforços significativos de reflorestamento.

A vulnerabilidade das florestas tropicais pode ser medida de muitas maneiras diferentes e as pesquisas realizadas normalmente  focavam em áreas pequenas. Segundo Saatchi, isso costumava confundir os pesquisadores e conservacionistas que tinham como objetivo priorizar a restauração florestal.

Os pesquisadores utilizaram satélites e outros modelos e medições para monitorar a temperatura do solo, a fotossíntese e produção acima do solo, e mudanças na abundância e diversidade geral de espécies selvagens. Também analisaram a perda de cobertura florestal por desmatamento e incêndio, bem como as mudanças na quantidade de carbono e água transferida entre a vegetação e a atmosfera.

Esse vasto conjunto de informações permitiu-lhes criar um sistema uniforme e detalhado para avaliar a saúde da floresta, da mesma maneira como um médico verifica o peso, a frequência cardíaca, a pressão arterial e o colesterol de seus pacientes durante um exame anual.

E assim como algumas pessoas enfrentam problemas cardíacos e outras apresentam complicações pulmonares, todas essas florestas “são afetadas por diferentes fatores de estresse em diferentes épocas”, afirma a coautora Katia Fernandes, especialista da Universidade do Arkansas que estuda incêndios florestais e seca na Amazônia.

Por exemplo, na Ásia, as mudanças no uso da terra atualmente causam mais danos do que as mudanças climáticas. Enquanto isso, na África Central, as florestas apresentam maior perda de água e aumento da temperatura do que na Ásia. Contudo, o Congo permanece praticamente intacto até o momento. Além disso, embora algumas consequências das mudanças climáticas sejam sentidas (muitas árvores no Gabão, por exemplo, estão produzindo menos frutos, o que significa menos alimento para alguns animais selvagens), a floresta do país não sofreu a morte generalizada de árvores e sua vegetação está inclusive aumentando. Os cientistas suspeitam que o longo histórico de estresse hídrico na África pode, na realidade, ter deixado as florestas mais bem adaptadas às secas.

De acordo com Covey, até o momento “parece estar tudo bem com as florestas do Congo porque foram menos desmatadas pelos humanos, e a atmosfera mais seca não é suficiente para prejudicar as árvores e pode até fazê-las crescer mais rápido porque limpa as nuvens, aumentando a exposição solar”.

Não foi surpresa para a equipe que a região que enfrenta maior estresse é a Amazônia.

Impacto climático em florestas tropicais
A produtividade primária bruta (PPB) das floretas é o carbono sequestrado na fotossíntese. Ela nos ajuda a entender a resposta da floresta a mudanças climáticas. Áreas com menos sequestro estão perdendo biomassa e menos saudáveis, e áreas de floresta natural com mais sequestro estão sobreproduzindo. Ambos casos representam stress climático nas florestas.

Arte de SOREN WALLJASPER

Amazônia continua sendo a mais atingida

“A Amazônia se destaca como uma floresta em risco específico mesmo quando comparada a outros desafios globais envolvendo florestas tropicais”, salienta Covey. “O desmatamento generalizado e o clima em rápida mudança impactam profundamente o funcionamento do ecossistema em diversas métricas.”

Com seus micos-leões-dourados, aves coloridas e vespas gigantes, a riqueza e a biodiversidade da Amazônia são incomparáveis. A floresta é lar para 10% das espécies conhecidas do mundo e mais de dois milhões de tipos de insetos. Suas árvores e solos armazenam o equivalente a quatro ou cinco anos de emissões de carbono provocadas pelos humanos e a floresta gera muito de sua própria água à medida que a umidade proveniente do Oceano Atlântico é sugada pelas raízes das plantas e, em seguida, devolvida à atmosfera por meio das folhas. Uma única molécula de água pode circular pela floresta de quatro a cinco vezes.

Mas o desmatamento, que vem aumentando durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, atingiu uma alta ano passado após 12 anos. Árvores de crescimento rápido e tolerantes à seca estão superando as espécies pequenas que se desenvolvem bem em condições úmidas. As chuvas chegam em precipitações violentas, causando inundações. As secas duram mais e ocorrem com mais frequência — três grandes secas ocorreram em 16 anos. Os incêndios queimam de forma mais agressiva e o número de árvores mortas está aumentando.

Todos esses fatores levaram dois pesquisadores a concluir, em 2017, que se o desmatamento não fosse interrompido e a queima de combustíveis fósseis não fosse contida, uma mudança no ciclo de umidade em partes da Amazônia poderia desencadear um efeito dominó, matando milhões de árvores ou transformando a floresta em um bosque seco. Eles acreditavam que tal ponto crítico poderia ser atingido se apenas 20% da Amazônia fosse desmatada, praticamente o nível atual.

Ambos os autores — Thomas Lovejoy, professor da Universidade George Mason e pesquisador sênior da Fundação das Nações Unidas, e Carlos Nobre, pesquisador sênior da Universidade de São Paulo — são coautores do novo estudo.

Segundo Saatchi, o desmatamento deve ser urgentemente interrompido — um desafio que possui suas próprias complicações. Mas mesmo assim, não é o suficiente para frear os danos. O reflorestamento ativo é uma medida desesperadamente necessária. “Ainda precisamos de mais informações para saber como o sistema vai reagir”, revela Saatchi, bem como o ritmo de recuperação. “Precisamos restaurar esses sistemas.”

Ao combinar todas essas medições pela primeira vez, os cientistas conseguiram analisar um cenário muito mais evidente, embora mais preocupante, na Amazônia e em outros locais. E embora corrobore amplamente com o que outros cientistas previram, “é mais preocupante porque possui ainda mais evidências”, observa Nate McDowell, especialista florestal e geólogo do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico nos Estados Unidos, que não participou do estudo.

“Essas pessoas, especialmente os autores principais, são conhecidas por serem muito criteriosas”, afirma McDowell. “E elas estão sugerindo algo muito alarmante: à medida que aquecemos o planeta, algumas áreas florestais estão atingindo seus limites.

“O sistema está perdendo força”, explica ele.

Contudo não é tarde demais para mudar de rumo. A equipe de Saatchi espera que essa análise rigorosa convença as pessoas de que estamos alterando significativamente essas paisagens importantes. Além disso, eles também esperam que sua nova ferramenta seja utilizada para ajudar a monitorar outras mudanças — e ajudar a direcionar recursos para esforços de recuperação.

A National Geographic Society, empenhada em apoiar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou este trabalho. Saiba mais sobre o apoio da National Geographic Society aos Exploradores que pesquisam e documentam as paisagens de nosso planeta, que são tão diversas e importantes.

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