Como o degelo de picos montanhosos ameaça milhares de pessoas

Nos Alpes, os cientistas trabalham para implantar sistemas que advirtam as pessoas quando fugir dos deslizamentos de terra e inundações provocados pelo desmoronamento das geleiras – consequência das mudanças climáticas.

Os alpes do Mont Blanc, com o pico mais alto da Europa Ocidental, estão se modificando fundamentalmente devido às mudanças climáticas, bem como as montanhas em todo o mundo. As temperaturas nas regiões montanhosas aumentaram até 50% mais rápido do que a média global.

Foto de Keith Ladzinski National Geographic Creative
Por Denise Hruby
Publicado 15 de nov. de 2022 08:00 BRT

Na majestosa Marmolada, a Rainha das Dolomitas da Itália, o primeiro domingo de julho foi um belo dia para os alpinistas – o céu quase sem nuvens, e uma temperatura de quase 28°C no vale. Mas para a montanha, mesmo os 10°C perto do pico de 3350 metros eram sufocantes. 

O seu glaciar, o maior da cordilheira, partiu-se num trecho do tamanho de dois campos de futebol. Gelo e detritos caíram com a força de um arranha-céu colapsando. Onze pessoas – duas delas guias experientes de montanha – nunca voltaram para casa.

“Vi fotos de como estava aquele dia antes do colapso e teria levado meu próprio filho para lá”, lembra o guia italiano Alberto Silvestri. Para alpinistas e moradores locais, a tragédia foi uma advertência aterrorizante de como a beleza das montanhas pode disfarçar seus riscos.

Imagem captada em 5 de julho de 2022 de um helicóptero de resgate, esta vista mostra o glaciar Punta Rocca, que desmoronou na montanha de Marmolada, nas Dolomitas da Itália. Temperaturas recorde de 10°C foram registradas no cume da geleira.

Foto de Tiziana Fabi AFP, Getty Images

 

As cadeias montanhosas representam um quarto de todas as terras do planeta, e os milhões de pessoas que vivem nestas regiões sempre conviveram com seus perigos naturais. Mas hoje, sua composição está mudando devido ao aquecimento global. 

Suas temperaturas subiram até 50% mais rápido do que a média global, e mesmo ao escalar os picos do Himalaia, os alpinistas agora trocam seus trajes de expedição por jaquetas mais leves – um pequeno conforto no meio de grandes perigos.

Cientistas que calculam os riscos de desastres naturais nas montanhas, como Perry Bartlet, do Instituto Federal de Pesquisa de Florestas, Neve e Paisagens (WSL, na sigla em inglês), na Suíça, devem atualizar seus modelos. “A escala do que calculamos mudou completamente – os eventos são muito maiores”, explica.

No início de setembro, outra geleira desmoronou na Patagônia e, em julho, o mesmo aconteceu no Quirguistão. À medida que o pergelissolo derrete, as rochas e o solo, que antes permaneciam em temperaturas abaixo de zero, começam a desmoronar.

Os alpinistas e os moradores do sopé das montanhas estão enfrentando uma questão vital: à medida que as condições das montanhas se tornam mais perigosas do que nunca, como eles podem se manter seguros?

Alpinista segura uma corda fixa perto da cabana de Boccalatte, junto à geleira Planpincieux, em Courmayeur, Itália, agosto de 2021. Este glaciar, a 2700 metros, está derretendo devido às altas temperaturas causadas pelas mudanças climáticas, com o risco de colapsar sobre a aldeia de Planpincieux, localizada abaixo.

Foto de Marco Bertorello AFP, Getty Images

Degelo das montanhas: um desastre iminente

Esta é uma questão que atormenta Roberto Rota, prefeito da vila montanhosa de Courmayeur, situada no lado italiano de Mont Blanc, o pico mais alto da Europa.

Traçando um caminho até a foz do túnel do Mont Blanc que liga a Itália e a França, a instável encosta do Monte de la Saxe poderia liberar tanta rocha e solo que o evento seria registrado por sismógrafos em todo o mundo. Acima da aldeia de Planpincieux, duas geleiras precariamente suspensas, com gelo suficiente para encher dois prédios como o Empire State, correm o risco de entrar em colapso. Na pior das hipóteses, diz Rota, “destruiriam completamente toda a Planpincieux”.

A responsabilidade pesa sobre seus ombros, conta Rota, e às vezes, o ex-instrutor de esqui se pergunta se ele estava louco por ter se candidatado ao cargo. Mas ele diz que os sistemas que implementou junto com seus antecessores e os cientistas o ajudam a dormir à noite.

Um radar terrestre destinado a picos e encostas instáveis ​​mede o movimento 24 horas por dia – se a velocidade aumenta, também aumenta a chance de desmoronamento. Também analisam imagens de satélite e drones. Rota recebe diariamente um e-mail às 14h, com dados e análises. Nos dias bons, ele vê uma caixa amarela que indica uma ameaça de colapso dos glaciares de nível médio.

Nos piores dias, a caixa é de cor vermelha intensa. Lembram os moradores locais como Guiliana Patellani. Há dois anos, os semáforos ao longo da estrada para Planpincieux ficaram em vermelho, impedindo que as pessoas se dirigissem para a zona do potencial perigo, e os telefones das pessoas em áreas potencialmente afetadas receberam mensagens de alerta. Autoridades bateram nas portas de sua casa de pedra, instruindo Patellani e sua família a embalar seus pertences mais queridos e se mudar para um local de evacuação de emergência.

Depois de duas noites, quando o perigo diminuiu, Guiliana e sua família voltaram à casa. Neste verão, o marido de sua irmã, que é glaciologista, ligou para cancelar a visita. “Ele disse que, com o calor extremo, é muito perigoso”, lembra Patellani.

Mas ninguém aqui parece preocupado. Os habitantes locais já viram avalanches e deslizamentos de rochas antes, diz Patellani, e a casa que sua avó construiu em 1936 nunca foi atingida. “E nós temos o sistema de monitoramento”, destaca sua neta adolescente, Cecilia, que passou o verão procurando cogumelos e mirtilos.

À esquerda: No alto:

O Glaciar Planpincieux e a vila de Courmayeur abaixo.

Foto de Marco Bertorello AFP, Getty Images
À direita: Acima:

Os moradores de Saint-Gervais-les-Bains, nos Alpes franceses, ameaçados pelo potencial degelo do glaciar acima. Se o sistema de alerta detectasse o derretimento, eles teriam cerca de 15 minutos para evacuar em segurança.

Foto de Catherine Leblanc Getty

Perigo invisível das montanhas

Mas nem tudo pode ser evitado. Num riacho perto de sua casa, a família me mostra a destruição causada por um deslizamento de terra, após fortes chuvas em uma noite de sexta-feira no mês de agosto. Uma parede de rocha e pedregulhos de 6 metros de altura derrubou duas pontes, cortando o acesso ao povoado, e esmagou o aqueduto, deixando 30 000 pessoas sem água potável.

“Nunca estaremos 100% seguros”, conta Fabrizio Troilo, da Fundação Secure Mountain. Na sede da fundação, os radares monitorados pelo Vale de Aosta são direcionados à encosta do Monte de la Saxe.

Mais acima no vale, Daniele Giordan, geólogo do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, passou os últimos 10 anos aperfeiçoando o sistema de monitoramento de glaciares. Atualmente, as previsões e os possíveis cenários são tão precisos que ele e seus colegas estão confiantes de que seu sistema está entre os melhores do mundo, talvez até seja um modelo para outros.

Regularmente, os cientistas sobrevoam de helicóptero as 180 geleiras da região, atentos em detectar novas fendas. Eles atualizam um catálogo de fotos para monitorar sua evolução e caminham até lagos glaciais que podem colapsar.

Naturalmente, há limites. A água derretida acumulada dentro da geleira é uma grande preocupação. Somente neste verão, derreteram vários metros na superfície das geleiras dos Alpes, uma quantidade tão dramática que superou em muito as piores previsões dos cientistas até o momento. “Estas são todas observações de superfície, mas há processos que não podemos ver, porque ocorrem dentro do glaciar”, explica Giordan.

No lado francês de Mont Blanc, Jean-Marc Peillex, prefeito da cidade turística de Saint Gervais, sabe quanta destruição pode causar o degelo escondido: em 1892, a água dentro da geleira Tête Rousse tinha acumulado tanta pressão que explodiu através do gelo como um balão.

A onda de 40 metros carregou gelo, neve e todo tipo de detritos, matando 200 pessoas e deixando apenas a escola primária da cidade de pé. Após a catástrofe, as autoridades começaram a fazer furos na geleira quase todos os anos, com a esperança de drenar o excesso de água. 

Durante décadas, nunca saiu nada. Em 2009, pesquisadores encarregados de verificar se seria seguro suspender o projeto descobriram que eles simplesmente não estavam perfurando o suficiente. Mais abaixo, acharam 80 000 metros cúbicos, suficientes para encher 32 piscinas olímpicas, que estavam prestes a romper a geleira mais uma vez.

“Tivemos muita sorte de descobri-lo a tempo”, lembra Peillex. Hoje, a água é drenada regularmente – nos pontos certos – e, caso isso falhar, sensores pendurados em cordas acima da geleira acionam um novo sistema de alarme. Os moradores têm 15 minutos para fugir para altitudes mais elevadas.

Alpinistas na geleira Geant, em direção aos Aiguilles Marbrees, no maciço do Mont Blanc, na fronteira ítalo-francesa, em 2021. As caminhadas e escaladas enfrentam mais restrições do que nunca devido à queda de rochas e risco de deslizamentos de terra.

Foto de Marco Bertorello AFP, Getty Images

Na montanha mais mortal da Europa

Manter a segurança para as 20 000 pessoas que tentam escalar o Mont Blanc a cada ano tem sido a segunda dor de cabeça de Peillex. Tido como uma caminhada fácil, o pico se transformou em um item de lista de desejos para caminhantes inexperientes. Mas também detém o recorde de mortalidade nas montanhas do continente, com cerca de 100 pessoas morrendo a cada ano.

Mesmo quando as temperaturas noturnas no pico já estavam acima de zero neste verão, aumentou a frequência das quedas de rochas, já a principal causa de morte. A montanha se tornou muito imprevisível. As associações de guias locais cancelaram as viagens ao cume e as autoridades emitiram avisos de alerta. 

Peillex propôs que qualquer pessoa que ainda tentasse chegar ao cume devia depositar 15 000 euros, o suficiente para cobrir os esforços de resgate e um serviço funerário. Embora isso nunca tenha sido implementado, antes do final de julho, cabanas de montanha de alta altitude, como o refúgio de Goûter, de 3815 metros, começaram a fechar. Sem abrigo ou guias, realizar esta caminhada de dois dias tornou-se quase impossível.

No entanto, cerca de uma dúzia de pessoas continuavam tentando diariamente, diz Tsering Sherpa da “Brigada Blanche”, enviada por Saint Gervais para patrulhar as rotas até o cume. Alpinistas sem equipamento apropriado ou reserva para os refúgios movimentados eram continuamente solicitados a voltar para trás.

Quando visitei no início de setembro, o tempo havia esfriado e os refúgios tinham acabado de reabrir. No escritório da Companhia de Guias de Montanha de Saint Gervais, uma das mais antigas do mundo, um grupo de jovens médicos do Hospital Universitário de Montpellier, na França, terminava os preparativos para subir ao cume, entusiasmados com a chance de chegar ao pico.

Eles foram cautelosos, fizeram um curso de preparação de quatro dias, onde se acostumaram a grandes altitudes e praticaram o uso de picadores de gelo e caminhadas com grampos. Esses cursos são cada vez mais populares e os guias dizem perceber que os clientes estão mais conscientes dos riscos.

Mas neste verão, as condições eram tão instáveis ​​que até mesmo alpinistas veteranos tiveram dificuldades para fazer suas escaladas. As organizações de resgate alpinas estavam mais ocupadas do que nunca. Durante centenas de missões, eles só conseguiram resgatar os corpos dos alpinistas, muitos mortos por desmoronamentos em terrenos que outros relataram como estáveis ​​apenas alguns dias antes. Até agora, neste ano, somente na pequena província de Salzburgo, na Áustria, já foram registradas 24 mortes. "São mais mortes do que já tivemos. Mesmo para os alpinistas mais profissionais, tornou-se muito desafiante", diz a socorrista de montanha e adestradora de cães Maria Riedler.

As regras implícitas que mantiveram os montanhistas seguros por gerações já não se aplicam mais. As travessias do Grand Couloir, do Mont Blanc, uma passagem propensa a desmoronamentos que leva só 30 segundos para ser realizada, costumavam ser consideradas mais seguras no início da manhã. Em julho deste ano, pedregulhos caiam durante as 24 horas do dia.

“Definitivamente, as montanhas se tornarão cada vez mais perigosas”, alerta Pietro Picco, um guia que cresceu no sopé do maciço do Mont Blanc. Algumas rotas já não são mais realizáveis. Para outras, o nível de habilidade necessário é muito mais exigente e, como resultado, os guias estão recebendo grupos cada vez menores.

“Se você quiser subir um determinado cume, precisará ser 100% flexível” com o tempo, diz Picco. Ele e outros guias preveem que a temporada para escalar picos como o Mont Blanc terminará em julho, e talvez possa ser retomada por mais algumas semanas em setembro. E cada vez mais, quando um cume não é seguro, os alpinistas terão que escolher escaladas alternativas ou optar por ciclismo, escalada ou canoagem.

Em Courmayeur, o prefeito Rota está trabalhando em um novo conjunto de pictogramas que alertariam as pessoas. Ele inveja os prefeitos do litoral da Itália, onde uma simples bandeira vermelha mantém os turistas fora da água.

Peillex também deseja que os riscos sejam levados mais a sério. O sistema de alarme da geleira custou 7 milhões de dólares, e mesmo quando uma tempestade o ativou acidentalmente, apenas cerca de um quinto dos moradores foi evacuado.

“É uma pena, porque depois de todo esse esforço para proteger as pessoas, elas não dão o último passo para se protegerem”, diz ele, diante de dezenas de casas novas construídas na área onde a avalanche de gelo e neve de 1892 ultrapassou o auge do tsunami de 2011, no Japão. Hoje, um evento como esse mataria não 200, mas 2000 pessoas. “Temos que entender que a natureza é mais forte do que nós, “e que somos nós que temos que mudar nossos hábitos”, conclui.

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