Como os rios voadores da Amazônia levam água para o resto do Brasil

Umidade da floresta explica por que o resto do Brasil não é um deserto como a Austrália. Destruição do bioma pode mudar tudo.

Publicado 14 de abr. de 2021 17:00 BRT
Uma única árvore da Amazônia bombeia do solo para a atmosfera mil litros de água por ...

Uma única árvore da Amazônia bombeia do solo para a atmosfera mil litros de água por dia. A floresta inteira carrega mais água pelo ar do que todo o volume do rio Amazonas.

Foto de Ilustração de Keryma Lourenço

Um dito popular antigo da região amazônica dizia que por lá havia apenas duas estações: a úmida e a mais úmida. Mas a degradação da floresta, com aumento de desmatamento e queimadas, já mudou a tradição. Há períodos de seca, e a época úmida não dura tanto. O que seria uma tragédia por si só promete um futuro ainda mais distópico para o Brasil – sem a Amazônia, o país pode virar um deserto.

Quem explica esse cenário é o cientista Antonio Nobre, um dos responsáveis por demonstrar como ‘rios voadores’ formados na Amazônia irrigam grande parte do Brasil e da América do Sul. Uma árvore grande, escreve Nobre no relatório O Futuro Climático da Amazônia, bombeia do solo para a atmosfera mil litros de água por dia.

A floresta como um todo joga no ar um volume maior do que o do próprio rio Amazonas, que viaja até três mil quilômetros América do Sul à dentro.

Isso ocorre por meio da transpiração das árvores. Para simplificar, isso significa dizer que o suor das árvores amazônicas garante a chuva limpa que chega ao Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil – o Nordeste, conta Nobre, não recebe os ventos úmidos amazônicos. A explicação para isso, porém, é extremamente complexa.

“Os processos da vida que operam na floresta contêm complexidade quase incompreensível, com um número astronômico de seres funcionando como engrenagens articuladas em uma fenomenal máquina de regulação ambiental”, diz Antonio Nobre no mesmo relatório.

E essa máquina está em grave risco. “Nas trajetórias dos rios voadores originados na Amazônia, as regiões receptoras têm muito a perder com a grande bomba d’água formada pelo efeito da grande floresta na circulação atmosférica”, conta o cientista, em entrevista por e-mail. “Os impactos já estão evidenciados. O aumento na frequência e intensidade de efeitos extremos das mudanças climáticas já foi antecipada por projeções científicas há décadas, e, com o passar dos anos, a agravação climática nos traz triste confirmações das previsões.”

No cenário mais dramático, a devastação da Amazônia poderia transformar o Brasil numa espécie de Austrália. Franjas de áreas úmidas no litoral com um grande deserto no centro do país. Para evitar isso, é fundamental frear de imediato a destruição da floresta. Também não custa olhar para o conhecimento de povos que viveram em harmonia por ali durante séculos.

“Uma frase famosa atribuída a Einstein, de que não se pode resolver problemas utilizando o mesmo raciocínio que os geraram, ilustra bem nossa situação no Brasil”, diz Nobre. “Apoiar-se em saberes fragmentários, como os que guiam o agronegócio no país, para resolver os graves danos ao ambiente somente vai aprofundar as crises que nos afligem.”

“A meu ver, se tivermos a humildade de aprender com a sabedoria dos povos nativos, não precisaremos abrir mão de muitas tecnologias modernas. A própria natureza, olhada com microscópios, é o máximo concebível em termos de tecnologia.”

#PossoExplicar é o primeiro talk show de ciência do Brasil, apresentado por Miá Mello. Assista todas as quartas, às 21h, no National Geographic.
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