Deserto de tubarões: o que torna alguns santuários marinhos uma ameaça para os grandes predadores?

Um estudo com câmeras subaquáticas comparou Galápagos e outros seis parques marinhos da América Latina. Enquanto alguns estão repletos de tubarões, outros são virtualmente vazios — e essa enorme diferença não é um acidente da natureza.

Por Melissa Hobson
Publicado 5 de dez. de 2025, 10:05 BRT
 Vista da superfície do oceano, a pequena ilha de Roca Partida, nas Ilhas Revillagigedo, no México, ...

 Vista da superfície do oceano, a pequena ilha de Roca Partida, nas Ilhas Revillagigedo, no México, parece dois pequenos picos que se projetam da água. Debaixo d'água, essa ilha remota abriga um rico habitat marinho que é o lar de tubarões-de-ponta-branca, peixes-creole do Pacífico, peixes-barbeiro e ídolos-mouriscos.

Foto de Enric Sala, National Geographic Pristine Seas

Quando Simon McKinley mergulhou na água, tudo ficou escuro. Ele tinha visto tubarões da superfície, mas agora, descendo gradualmente em seu mergulho, havia tantos tubarões-martelo-recortados reunidos que bloqueavam a luz do sol. “Não dava para virar para nenhum lado sem ver um tubarão”, diz ele.

McKinley, que é ecologista espacial da Fundação Charles Darwin, localizada em Galápagos, no Equador, estava pesquisando populações de tubarões nas remotas ilhas Darwin e Wolf, nas ilhas Galápagos. É “um dos lugares com mais tubarões do mundo”, afirma ele. Isso também o torna um ecossistema notavelmente saudável, no qual a vida marinha pode prosperar.

É uma das sete áreas marinhas protegidas (MPAs) no leste do Pacífico tropicaldo México ao Equador, que McKinley estudou para seu novo artigo sobre a abundância de tubarões, publicado recentemente, em novembro de 2025, na revista científica PLOS One. O estudo recebeu financiamento da National Geographic Pristine Seas.

O tubarão-baleia (na imagem, um animal se alimenta de plâncton na Península de Yucatán) é capaz ...

O tubarão-baleia (na imagem, um animal se alimenta de plâncton na Península de Yucatán) é capaz de manipular o fluxo de água para capturar seus alimentos prediletos.

Foto de Brian J. Skerry, Nat Geo Image Collection

O que os tubarões podem nos dizer sobre um ecossistema


Como “gestores de recife” de coral, os tubarões mantêm os habitats saudáveis ao comer peixes doentes ou populações excessivas, impedindo que qualquer espécie domine o ecossistema, explica McKinley.

As AMPs são como parques nacionais e têm regras variadas sobre o nível de atividade humana permitido. Em zonas totalmente protegidas, como o Santuário de Fauna e Flora de Malpelo, na Colômbiatoda atividade humana é proibida, enquanto algumas áreas protegidas permitem a pesca, como a Reserva Marinha Galera-San Francisco, no Equador.

Para determinar se essas regras variadas afetavam os tubarões, os cientistas os espionaram usando dispositivos de vídeo não intrusivos instalados a cerca de 20 a 25 metros de profundidade por pelo menos 100 minutos.

Os cientistas — incluindo pesquisadores da Diretoria do Parque Nacional Galápagos, da iniciativa Pristine Seas da National Geographic e de várias instituições regionais — usaram câmeras subaquáticas chamadas sistemas remotos de vídeo subaquático com isca (BRUVs) para observar tubarões em sete parques marinhos localizados no Equador, Costa Rica, Colômbia e México. Esses dispositivos usavam peixes oleosos para atrair predadores, e os pesquisadores contavam quantos animais chegavam para conferir o delicioso lanche.

Em MPAs de difícil acessoque proíbem ou policiam rigorosamente a pesca — as ilhas Galápagos, Malpelo, Clipperton e Revillagigedo —, os autores do estudo observaram consistentemente um grande número de tubarões, comenta McKinley. Mas as áreas costeiras próximas à atividade humana — Machalilla, Galera-San Francisco e Ilha Caño — contaram uma história diferente. “Vimos apenas quatro indivíduos em mais de 30 implantações no litoral”, diz ele sobre a pesquisa realizada nas três áreas.

Embora Caño, na Costa Rica, seja tecnicamente proibido para a pesca, foram registradas atividades ilegais dentro de seus limites.

Perto da costa, os tubarões correm maior risco devido a uma série de atividades humanas, como destruição do habitatpoluição e pesca costeira. “É mais fácil [e] mais barato para eles pescarem perto da costa do que em alto mar”, o que pode ser muito perigoso, diz Samantha Andrzejaczek, pesquisadora científica da Estação Marinha Hopkins de Stanford, Estados Unidos, também não envolvida no estudo.

O estudo mostrou que áreas de proibição de pesca devidamente fiscalizadas, mais distantes da costa, resultaram em populações maiores de tubarões e peixes visíveis nas câmeras.

“Essas AMPs altamente protegidas são absolutamente eficazes na restauração desses peixes de grande porte que temos sido tão eficientes em eliminar nos últimos 50 anos — ou mais — 100”, diz Rory Moore, chefe de conservação da Blue Marine Foundation, que não participou do estudo.

principal diferença que influenciou a saúde desses ecossistemas era clara: a pesca.

“As áreas marinhas protegidas que permitem a pesca não funcionam”, afirma Enric Salacoautor do estudo e fundador da National Geographic Pristine Seas. Sala, que também é Explorador residente da National Geographic, acrescenta que apenas 3% dos oceanos globais estão protegidos contra a pesca.

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    Um terço dos tubarões, raias e quimeras estão ameaçados de extinção. Para protegê-los, os pesquisadores querem ver mais AMPs com regulamentações mais rígidas. “É preciso que elas sejam devidamente aplicadas”, afirma Andrzejaczek. “Caso contrário, não estão cumprindo seu papel.”

    Muitas espécies de tubarões migram longas distâncias, e é por isso que Sala afirma que também é importante estabelecer áreas protegidas em alto mar, que não são governadas.

    Além do que alguns cientistas consideram um imperativo moral para proteger as espécies marinhas do desaparecimento, estudos também sugerem que há benefícios econômicos em reservas marinhas mais rigorosamente protegidas.

    Refletindo o declínio dos tubarões e raias, mais de um terço das espécies de peixes são sobrepescadas, o que significa que não conseguem se reproduzir rápido o suficiente para repor o que é removido. “É como ter uma conta corrente em que todos fazem saques e ninguém faz depósitos”, diz Sala. Uma área protegida funciona como uma conta de investimento que oferece “juros compostos e gera retornos dos quais todos podemos desfrutar”, diz ele.

    Os pescadores podem colher os benefícios das proteções quando “pescam fora da área marinha protegida, onde temos o que chamamos de efeito de transbordamento” e as populações de peixes estão prosperando, explica Andrzejaczek.

    Esses benefícios já estão sendo observados em países na vanguarda da proteção oceânica, como PalauNiueSeychellesCosta RicaColômbiaChile e Gabão, que já possuem proteções eficazes para 30% de suas águas.

    “Esses líderes compreenderam que precisam de áreas marítmas altamente protegidas se quiserem que suas economias pesqueiras e costeiras tenham futuro”, diz Sala. “Não é preciso ser rico para proteger o oceano. Basta ser inteligente.” 

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