Existe uma vacina contra o câncer? Estudos indicam que ela está próxima

Como os avanços tecnológicos alcançados por conta da pandemia de Covid-19 possibilitaram vacinas que aumentam a eficácia de tratamentos contra o câncer.

Dentro da ala de câncer de um hospital em Xangai, na China, pacientes com câncer recebem tratamento baseado na medicina tradicional chinesa.

Foto de Fritz Hoffmann
Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 5 de dez. de 2022 14:23 BRT, Atualizado 6 de dez. de 2022 10:23 BRT

A pandemia de Covid-19 acabou por fomentar uma revolução na produção de vacinas. Em pouco menos de um ano, pesquisadores apresentaram para o mundo os imunizantes de RNA mensageiro (mRNA), uma solução inovadora para combater um dos vírus mais contagiosos do século. 

A tecnologia, no entanto, não esgotou sua utilidade contra a covid. Pesquisadores veem nela um meio para desenvolver vacinas eficazes e seguras contra uma doença que desafia o corpo humano: o câncer. 

“As vacinas de covid apresentaram uma nova forma de estimular o nosso sistema imune de uma maneira muito efetiva e esses mecanismos estão se mostrando úteis para o combate de outras doenças, entre elas alguns tipos de câncer”, diz Thiago Oliveira, oncologista vice-líder do Centro de Referência em Tumores de Cabeça e Pescoço do Centro Oncológico A.C. Camargo, hospital referência no tratamento da doença no Brasil. 

Entre os laboratórios que estão investindo nessa linha de pesquisa está um dos protagonistas durante a pandemia: a empresa de biotecnologia alemã BioNTech, que, em colaboração com a Pfizer, desenvolveu um imunizante para combater o novo coronavírus. Ela planeja disponibilizar sua primeira vacina oncológica contra o tumor de pele do tipo melanoma até 2030. 

Como funciona a vacina de mRNA contra o câncer?

A vacina que está sendo desenvolvida pela BioNTech, chamada de BNT111, usa o mRNA para incentivar o próprio organismo a reconhecer marcadores genéticos do câncer e atacá-los como se fossem invasores, de acordo com o artigo publicado na revista Science Translational Medicine em 2021 por pesquisadores da empresa alemã.  

E como o medicamento faz isso? Segundo Oliveira, a vacina é feita a partir do sequenciamento genético do tumor em que se identifica e seleciona os antígenos e marcadores específicos, como proteínas, presentes no tipo de câncer que se quer tratar. 

A partir desse sequenciamento, é possível construir o mRNA in vitro em laboratório – e é ele que compõem a vacina. “O mRNA tem a função de transferir informações para as células. Então, quando se entrega esse mensageiro para o organismo com os detalhes do câncer, o sistema imune é induzido a produzir anticorpos que reconhecem e atacam apenas as células do tumor”, explica Oliveira.

Seleção de medicamentos contra o câncer.

Foto de Craig Cutler

Quais os benefícios para o tratamento do câncer?

A vantagem desse sistema, segundo Oliveira, é que se pode combater o câncer enquanto se preserva as outras células do organismo que não estão relacionadas com a doença. “E isso impacta diretamente no bem-estar e qualidade de vida do paciente porque acaba causando muito menos efeitos colaterais do que outros tratamentos tradicionais, como radioterapia e quimioterapia.”

Além disso, a vacina oncológica de mRNA também permite um tratamento personalizado, o que pode aumentar sua eficácia. “Cada câncer é único. Então, quando você tem uma terapia que leva em consideração o DNA específico do seu tumor, o tratamento é muito mais direcionado e eficaz”, afirma. 

As vacinas da BioNTech/Pfizer estão na fase 2 dos ensaios clínicos, de acordo com o registro no portal Clinical Trials da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, que prevê resultados preliminares a partir de maio de 2023. Depois disso, a empresa prevê começar a fase 3, última etapa dos estudos que deve comprovar a eficácia e a segurança do imunizante antes de disponibilizar comercialmente. 

Além da alemã, a Moderna (Estados Unidos) – outra empresa que desenvolveu vacinas de mRNA contra a Covid – publicou que está avançando nos testes de um imunizante contra o câncer de pele usando a tecnologia.

(Relacionado: Exames de sangue inovadores podem oferecer diagnóstico precoce de câncer)

Em conjunto com a farmacêutica Merck (representada pela MSD no Brasil), a empresa norte-americana espera divulgar os resultados da fase 2 do testes de sua vacina ainda em 2022. 

A vacina previne o câncer?

A vacina oncológica, como é chamada, não previne exatamente o câncer. Elas estão voltadas para tratar a doença, segundo o oncologista Thiago Oliveira. Ele conta que esse tipo de vacina não funciona como os imunizantes contra a Covid-19 ou outras doenças, como a poliomielite, a febre amarela ou infecções virais no geral. 

“As vacinas desenvolvidas não agem de forma preventiva. Ao invés disso, atuam em conjunto com tratamentos imunoterápicos”, diz o oncologista. 

A ideia das pesquisas referentes às vacinas de mRNA, tanto da Pfizer quanto da Moderna, é que os imunizantes sejam usados como complementos da imunoterapia, um tratamento com drogas que tentam estimular o sistema imune a reconhecer e combater as células do câncer. 

Segundo os estudos publicados, a BioNTech avalia o funcionamento da fórmula contra o câncer aliado ao medicamento imunoterápico Libtayo (composto pelo anticorpo cemiplimabe, que combate o câncer de pele). "Nossos achados indicam que a vacinação com a tecnologia de RNA é uma potente imunoterapia em pacientes com melanoma”, diz trecho do estudo sobre a primeira fase do ensaio clínico da vacina, publicado na revista Nature em julho de 2020.

A ideia é que a terapia com essas vacinas possa tratar pacientes que seriam, até então, considerados terminais, e cujo melanoma se encontre nos estágios 3 ou 4 (ou seja, bastante avançados). O mesmo estudo descreve que “a avaliação de segurança foi realizada em 89 pacientes com melanoma avançado tratados com doses repetidas de vacina contra o câncer baseada em mRNA BNT111”. Mais adiante, ele revela que “o tratamento com BNT111 foi bem tolerado. Os eventos adversos mais comuns foram sintomas semelhantes aos da gripe, de leve a moderada, como febre e calafrios.”

Já a vacina proposta pela Moderna está sendo combinada com o Keytruda, medicamento usado para prevenir o retorno de tumores de pele, e visa tanto o tratamento de cânceres em estágios iniciais quanto evitar o retorno do câncer em pacientes que já passaram por algum tipo de tratamento. 

Essa abordagem, de acordo com Oliveira, pode significar resultados mais eficazes. “Os estudos mostraram que os pacientes que receberam a imunoterapia com a vacina tiveram maiores chances de cura e menos risco de recidiva da doença.”

Quais cânceres podem ser tratados com as vacinas?

O último levantamento da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS), revela que 10 milhões de pessoas morrem no mundo, todos anos, por causa dos diferentes tipos de tumores malignos. Os cinco tipos de cânceres mais comuns são: mama, pulmão, colorretal, próstata e o de pele.

Os pesquisadores estão mirando em alguns desses. Enquanto as vacinas da Pfizer e da Moderna focam no câncer de pele, outras pesquisas procuram soluções para os demais.

(Veja também: O câncer era de fato menos comum no período pré-industrial?)

No início de novembro de 2022, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, demonstraram, em um estudo publicado na revista Jama Oncology, que uma vacina experimental contra o câncer da mama gerou uma forte resposta imune durante a primeira fase dos ensaios clínicos. 

A vacina de Washington coloca como alvo uma proteína chamada receptor tipo 2 do fator de crescimento epidérmico humano (HER2), presente em até 30% dos cânceres de mama. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nature, em 2021, pela equipe do Centro de Pesquisa do Hospital da Universidade de Montreal (CRCHUM, na sigla em francês), também apresentou uma vacina promissora contra o câncer de mama. Entretanto, a tecnologia usada tanto no imunizante de Washington quanto no canadense é baseada em adenovírus. 

Segundo explica Oliveira, esse método insere o DNA do marcador do tumor selecionado, no caso proteínas presentes no câncer de mama, na carapaça de um vírus, que é injetado no paciente. 

“Esse método também permite a personalização do tratamento, mas pode causar alguns efeitos colaterais já que envolve dar ao paciente algo como uma ‘infecção viral’ enfraquecida. É mais parecido com as vacinas tradicionais”, diz Oliveira. 

Quais cânceres já podem ser prevenidos com vacinas

Por mais que os estudos de imunizantes contra o câncer animem, o médico Fernando Maluf, oncologista, fundador do Instituto Vencer o Câncer e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, lembra que alguns tipos de câncer já podem ser prevenidos com vacinas. 

“O vírus do HPV, por exemplo, está relacionado com o câncer de colo de útero, de pênis, de vulva, do canal anal e de orofaringe. A vacina contra os subtipos do vírus mais cancerígenos tem um impacto muito importante porque evita que a infecção aconteça”, diz Maluf.  

Outra vacina que pode evitar o câncer é a da hepatite B. Isso porque, segundo o médico, a doença é um dos fatores de risco para o câncer de fígado. “A vacina é recomendada já na infância e estudos mostram que crianças imunizadas têm uma redução de risco de 30% para o câncer de fígado”, afirma. 

Isso mostra que, para alguns tipos de câncer, as vacinas já estão entre as principais respostas para o tratamento do câncer. Para os demais, a ciência demonstrou que seu uso é promissor e, em um futuro próximo, milhões de pessoas podem se beneficiar com um tratamento menos invasivo, mais eficaz e com menos efeitos colaterais.

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