No Egito Antigo, os cachorros eram considerados divinos. Os vira-latas de hoje podem recuperar a antiga glória?
Com mais de 15 milhões de animais, os cães Baladi do Egito são parecidos com os caramelos brasileiros e estão por toda parte — mas são maltratados ou mortos. Só que isso está começando a mudar.

Hoje, as ruas do Egito abrigam até 15 milhões de cães Baladi, como este da foto no Cairo — que se parece muito com os cachorros caramelos brasileiros.
Cairo — Caminhe por qualquer rua do Egito e provavelmente encontrará um cachorro peculiar com orelhas eretas, pernas finas e cauda encaracolada. Os cães Baladi, como são chamados esses cachorros de rua (similares aos vira-latas brasileiros), podem chegar a 15 milhões em todo o país — um filhote aventureiro chegou até ao topo da pirâmide mais alta do Egito.
As origens desses cachorros de rua — a palavra egípcia baladi significa local — são controversas. Alguns afirmam que são descendentes de raças modernas, como o saluki egípcio, o cão faraó e o cão de Canaã.
Já outras pessoas acreditam que os cães Baladi são uma raça própria, descendentes de cães ancestrais reverenciados pelos faraós.
Embora os egípcios sempre tenham respeitado os cães, nas últimas décadas os Baladis têm sido alvo de forte perseguição, com pessoas envenenando, afogando ou espancando os animais até a morte, de acordo com a Sociedade para a Proteção dos Direitos dos Animais no Egito.
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O deus egípcio Anúbis é frequentemente representado com cabeça de cachorro em afrescos de tumbas, como este de Ramsés 1ª. Essas representações lembram os cães Baladi modernos.
Organizações de resgate em todo o Egito fornecem comida, medicamentos e abrigo para cães de rua, incluindo cães Baladi. Aqui, Ahmed al-Shurbaji alimenta cães na Hope Society, um santuário em Gizé, em 2016.
A má reputação desses cachorros tem várias raízes, incluindo sua rápida reprodução e o medo de que sejam portadores de raiva. Contrair raiva de cães é raro; em média, 60 pessoas morrem anualmente de raiva no Egito devido a mordidas de animais, que podem incluir cães, de acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Algumas pessoas também acreditam erroneamente que os cães são impuros no Islã. O Dar al-Ifta, conselho consultivo religioso do Egito, afirma que os cachorros são puros e que a lei islâmica proíbe o abate de animais de rua inofensivos, particularmente com veneno.
Para combater a má reputação dos cães Baladi, grupos de proteção e resgate animal estão propondo abordagens mais humanas para o manejo desses animais. Por exemplo, diversas ONGs egípcias realizam um programa chamado captura, esterilização e soltura, no qual os cães Baladi são esterilizados e depois devolvidos às ruas.
Outros grupos, como o My New Life Rescue, também incentivaram a adoção de cachorros Baladi, destacando sua inteligência e docilidade. A organização sem fins lucrativos, fundada em 2023, mantém um centro de resgate no Cairo, onde os socorristas cuidam de mais de 70 cães. Muitos deles estão se recuperando de ferimentos graves sofridos nas ruas.
“O abuso e a crueldade contra animais no Egito são tão frequentes que exercem uma pressão imensa sobre abrigos e serviços de resgate animal”, afirma Heidi Gamal, cofundadora do My New Life.
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Uma pintura do antigo Egito mostra o faraó Tutancâmon em uma carruagem caçando leões com seu cão.
Símbolos antigos do Egito
No antigo Egito, vários deuses eram representados com cabeças de cães domésticos ou chacais que lembram os cachorros Baladi dos dias atuais. Talvez o mais conhecido seja Anúbis, o deus que guiava as almas na vida após a morte.
Muitas pinturas em tumbas retratam caninos, incluindo uma na tumba do rei Tutancâmon que mostra o faraó caçando com seu cão.
Os antigos egípcios de todas as classes sociais, incluindo a família real, mantinham cães como animais de estimação. Quando um cachorro morria, a família o mumificava e o enterrava em tumbas familiares, para que pudessem se reencontrar na vida após a morte. A família entrava em um período de luto, e os membros raspavam as sobrancelhas como sinal desse pesar.
De acordo com as práticas religiosas do antigo Egito, a maioria dos adoradores de Anúbis vivia em Saka, uma cidade no Alto Egito. Em Saka, os cães de rua podiam circular livremente pelas ruas da cidade e pelos corredores do templo de Anúbis.
Matar cachorros era considerado um crime extremo, sujeito a severas punições que se intensificavam ainda mais se o cachorro pertencesse a uma pessoa ou família. No entanto, matar cães com a intenção de sacrificá-los a Anúbis era permitido.

Uma imagem de raio-X mostra o esqueleto de uma múmia de cachorro do antigo Egito. Os cães eram mumificados para permitir que um animal de estimação querido acompanhasse seu dono na vida após a morte ou como um ato de adoração a um deus.
Encontrando soluções para os cães de rua no Egito
Atualmente, porém, as consequências no Egito para quem envenena ou mata cães Baladi são mínimas.
O código penal egípcio não permite o assassinato ou envenenamento injustificado de qualquer animal doméstico, incluindo cães Baladi. Os infratores podem ser presos por até seis meses ou multados em até 200 libras egípcias, o equivalente a aproximadamente US$ 4.
A Autoridade Geral de Serviços Veterinários do Egito, vinculada ao Ministério da Agricultura, é responsável pelo controle da população de cães de rua e o órgão costuma colocar veneno na ração consumida pelos cães Baladi.
Essa prática tem gerado oposição de diversos grupos de proteção animal, como a Sociedade Egípcia para a Misericórdia com os Animais (ESMA) e a Fundação de Proteção Animal. Além de ser uma morte cruel, o envenenamento pode prejudicar outros animais e pessoas na cidade, segundo Gamal, da organização My New Life Rescue.
A autoridade veterinária não respondeu aos pedidos de comentários da National Geographic.
“O envenenamento é uma das coisas mais dolorosas e desumanas pelas quais esses cachorros têm que passar”, afirma Nada Sherif, veterinária da Pet Wellness Clinic em Alexandria, Egito.
“As chances de tratar e salvar cachorros envenenados são extremamente baixas.”
Em 2021, uma coalizão de grupos de direitos dos animais e ativistas entrou com uma ação judicial para acabar com o envenenamento. No entanto, o tribunal administrativo do Egito rejeitou a ação, de acordo com o site de notícias egípcio privado Elmasry Elyoum.
Em resposta à indignação pública, algumas agências governamentais adotaram gradualmente a estratégia de captura, esterilização e soltura para reduzir o número de cachorros Baladi nas ruas, embora os serviços veterinários não tenham informado se também utilizam essa prática.
“Deveríamos capturar, castrar e devolver 80% da população de cães Baladi, enquanto os outros 20% deveriam ser vacinados e deixados para se reproduzir, a fim de controlar a população sem erradicar os cães Baladi”, afirma Gamal.
“No entanto, a estratégia de capturar, castrar e devolver deve ser sistemática”, acrescenta ela, pois, atualmente, não é praticada em larga escala o suficiente para gerar impacto.
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Adote cachorros, não compre
Gamal busca patrocinadores para manter o trabalho da ONG, geralmente recrutados pelo Instagram, para cobrir as despesas mensais dos cachorros, bem como os custos de operação do abrigo. Atualmente, 20 dos seus 74 cães têm patrocinadores, todos egípcios.
Embora ela ainda não tenha encontrado lares responsáveis para nenhum cão Baladi, o número de patrocinadores está aumentando.
“Ultimamente, nossa cultura tem mudado e mais pessoas do que nunca estão adotando cães de rua. Há mais conscientização sobre as características positivas”, diz ela. Alguns egípcios também adotam cães que encontram em seus bairros.
Omar Hamaki, um morador do Cairo, acolheu uma cadela Baladi chamada Diva, que ele alimentou inicialmente quando era uma cadela de rua. “Ela me deu todo o amor e atenção que eu poderia imaginar”, afirma Hamaki.
Mina Medhat, que adotou Shiva quando filhote em 2021, diz que o cão é uma parte vital da família. “Shiva trata cada um de nós de uma maneira diferente, mas é a maneira que funciona para cada um de nós”, diz Medhat.
Medhat também enfatizou que adotar cães Baladi não é para todos, pois alguns animais ainda apresentam sinais de trauma, como ansiedade perto de pessoas.
Por outro lado, Hossam Hosny, um orgulhoso tutor de Leil, uma cadela Baladi, notou diferenças entre Leil e um golden retriever que ele acolheu temporariamente, particularmente na capacidade de Leil de se manter calmo em situações estressantes.
“Os cães vira-lata são mais inteligentes devido à sua experiência nas ruas”, cometa Hosny.
Embora os cães Baladi ainda tenham um longo caminho a percorrer para alcançar o status dos cães egípcios de tantos séculos atrás, sua crescente popularidade pode um dia colocá-los novamente em um pedestal.