Aniversário de São Paulo: siga o guia de National Geographic para curtir o melhor da cultura na cidade

Conheça roteiro feito por Ellen Himelfarb, jornalista da NatGeo Reino Unido, pela maior cidade do Brasil e da América Latina — uma metrópole em constante evolução e com culturas entrelaçadas.

Por Ellen Himelfarb
Publicado 23 de jan. de 2026, 12:15 BRT
Um foto panorâmica de parte da cidade de São Paulo, com vista para o rio Pinheiros, ...

Um foto panorâmica de parte da cidade de São Paulo, com vista para o rio Pinheiros, sua marginal repleta de arranha-céus e a ponte estaiada (ponte Octávio Frias de Oliveira). 

Foto de ikedaleo Domínio Público

Capital do estado homônimo, São Paulo completa 472 anos neste 25 de janeiro de 2026, mas a história da megalópole que abriga hoje cerca de 12 milhões de pessoas começou em 1554, quando padres jesuítas fundaram um colégio para catequizar e alfabetizar a população indígena que já vivia na região na época da colonização portuguesa. 

Com o tempo, novas construções surgiram em volta desse colégio,  dando início a formação da cidade de São Paulo. A evolução e o crescimento da capital paulista são impressionantes, levaram uma pequena vila a se tornar uma das maiores cidades do mundo, não só em tamanho e população, mas também em importância econômica e, especialmente, cultural — atraindo turistas de várias partes do mundo e não só pessoas que buscam fazer negócios na cidade. 

São Paulo vibra cultura dia e noite, não só em seus teatroscasas de showcinemas tradicionais, mas também em espaços públicos e improváveis, dando vazão à subcultura latente e criativa das pessoas que vivem na cidade. E foi esse viés que chamou a atenção da jornalista ds National Geographic do Reino UnidoEllen Himelfarb, que relata a seguir suas impressões e dá dicas imperdíveis para curtir o melhor dessa cidade culturalmente ativa:

O roteiro da jornalista de NatGeo por São Paulo


"Ainda estou a dois quarteirões de distância quando ouço a batida do samba, subvertida por um baixo profundo e assertivo. No final de uma rua de pedestres pavimentada com ladrilhos brancos no Centro Histórico de São Paulo, uma mansão estilo Beaux-Arts chamada Casa de Francisca brilha em tons de vermelho e roxo por dentro. 

Suas altas janelas do 2º andar estão escancaradas, revelando centenas de foliões no interior do casarão. Atrás da mansão, estão os prédios do centro antigo, silhuetas à noite. Outrora uma loja de instrumentos musicais, depois uma emissora de rádio, antes de se tornar um prédio vazio, a Casa de Francisca agora abriga mais pessoas do que jamais abrigou. 

Quando entro, sinto como se estivessem testando a integridade estrutural de suas colunas coríntias. Com uma fusão de pessoas de todos os tipos e estilos, a multidão pula e canta as letras das músicas, camisas brancas esvoaçando, chapéus caindo. 

Seus olhares estão fixos na cabine do DJ, onde o escritor e músico Kalaf Epalanga, nascido em Angola, toca kizomba — um gênero musical abrangente que engloba afrobeatspophip-hop fervoroso e soul melancólico. Quando Kalaf diminui o ritmo, casais se juntam em sincronia suada ou se beijam sob o enorme lustre de vários níveis. Dois espelhos altos no palco refletem a cena para mim.

Mix de bar e casa de shows, o espaço cultural “Casa de Francisca”, em um edifício ...

Mix de bar e casa de shows, o espaço cultural “Casa de Francisca”, em um edifício de estilo Beaux-Arts, recebe apresentações de música ao vivo e DJs.

Foto de André Klotz

Surgida nos clubes angolanos do sudoeste da África durante a década de 1980, marcada pela guerra, a cultura da kizomba se espalhou pela diáspora afro-portuguesa como ondas pelo Atlântico. É difícil defini-la porque é considerada uma atitude — uma mistura de ritmos latinos, sintetizadores new wavetechno dos primórdios, mas também de ousadia fashion e espírito de sobrevivência que encontrou terreno fértil em São Paulo

cantor cabo-verdiano de afro-pop Djodje é a personificação da kizomba; assim como o DJ de afrobeats Joss Dee, radicado no Rio de Janeiro. O significado literal de kizomba em quimbundo, uma das várias línguas faladas em Angola, é "festa".

Nesta cidade de cerca de 12 milhões de habitantes — e que também é o maior centro lusófono do mundo e a cidade mais populosa do Brasil por uma larga margem — Kalaf tem uma enorme base de fãs". 

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    O músico angolano Paulo Flores é apenas um dos músicos que se apresentam na Casa de ...

    O músico angolano Paulo Flores é apenas um dos músicos que se apresentam na Casa de Francisca.

    Foto de André Klotz

    "Após sua apresentação, sentamos juntos e Kalaf me explica assim: 'A diáspora africana no mundo ocidental aceita qualquer emprego disponível na base da pirâmide', diz ele, arrastando as palavras. 'São imigrantesinvisíveis durante a semana toda na cidade. Ninguém conhece suas histórias. Mas na sexta-feira é hora de festejar, eles pegam suas melhores roupas na lavanderia, chamam o barbeiro, se orgulham da sua aparência. É por isso que chamamos isso de design kizomba.' 

    Nástio, com seu cabelo afro mais selvagem que o de Kalaf e prematuramente grisalho, diz que é exatamente o oposto ao fado, um gênero musical português de canções e ritmos melancólicos que surgiu no século 19. 'O fado era pura saudade e dor. A kizomba celebra. Mostra que existe uma maneira diferente de viver sob pressão'. 

    Na manhã seguinte, encontro os dois a cerca de 20 minutos de distância na Megafauna, uma livraria ensolarada focada em literatura não tão comercial e onde estão realizando um simpósio de kizomba lotado. Os livros empilhados até o teto representam uma gama diversificada de autores que refletem o verdadeiro mosaico paulistano. Do século 16 até 1888 — assustadoramente tarde para a abolição —, o Brasil acolheu mais pessoas escravizadas da África do que qualquer outro país do Novo Mundo. 

    E, desde boom industrial do pós-guerra na Europa, muitos de seus descendentes acabaram em São Paulo. Além disso, mais da metade dos brasileiros são negros ou mestiços. No entanto, eles ainda vivem em grande parte à margem da sociedade. 'Muitos brasileiros estão desconectados de suas raízes', comenta Nástio, 'mas, aos poucos, estão conquistando seu espaço'.

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      A livraria Megafauna fica no térreo do Edifício Copan — uma torre em forma de S ...

      A livraria Megafauna fica no térreo do Edifício Copan — uma torre em forma de S com 38 andares projetada por Oscar Niemeyer.

      Foto de André Klotz

      Megafauna ocupa o térreo do grande e histórico Edifício Copan, uma torre em forma de S com 38 andares, construída em concreto aparente com nervuras marcantes com projeto do saudoso e genial arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer na década de 1960. Há uma galeria de arte no andar superior, um café ao lado esculpido em uma estrutura de concreto bruto – chamado 'Cuia Café e Restaurante', que também vale a visita –, uma boutique vintage1.160 apartamentos nos andares acima. 

      Diversos artistas escolheram este marco histórico e arquitetônico da cidade para atrair seu público dos quatro cantos de São Paulo. Este bairro do centro histórico sofreu com o abandono. Embora a taxa de criminalidade em São Paulo seja menor do que a do Rio de Janeiro, cidade mais turística, Kalaf admite que 'esta não é uma cidade para brincar'. 'São Paulo não tem a beleza natural do Rio. É mais rústica, então as pessoas só têm umas às outras e a cultura para se apoiarem.' 

      'A influência imigratória e migratória define a essência da cidade. Rapidamente, você consegue ter uma ideia do que o Brasil representa”, diz ele. “Tenho a mesma sensação em Nova York — essa grande Babilônia com pessoas do mundo todo.'

      (Conteúdo relacionado: Os 5 pratos imperdíveis para provar em São Paulo)

      São Paulo é uma metrópole criativa e internacional


      Entendo o que ele quer dizer durante o almoço no Z Deli, um restaurante de influência judaica em um prédio de meados do século 20 perto do Edifício Copan. O Z Deli é administrado por uma das 20 mil famílias judias que buscaram asilo em São Paulo ao longo do século 20. 

      A dez minutos de caminhada fica o Museu Judaico, uma antiga sinagoga em estilo bizantino inaugurada em 2021, para exibir artefatos judaico-brasileiros, que também é um local que mostra a diversidade cultural de São Paulo

      De forma semelhante, o cardápio do Z Deli apresenta um sabor híbrido singular que transcende continentes. Peço o que acho que é um sanduíche de pastrami. O que recebo é carne desfiada e cebolinha sobre uma cama de batatas fritas com uma porção de maionese, um pote de molho picante e um refrigerante de gengibre da marca Guaraná. As culturas brasileira e judaica aparentemente têm pouco em comum além do destino.

      Acima, o bairro da Liberdade que tem sua origem ligada à população escravizada em São Paulo, ...

      Acima, o bairro da Liberdade que tem sua origem ligada à população escravizada em São Paulo, mas que após a grande onda imigratória dos japoneses há mais de 100 anos, se tornou a região com mais descendentes japoneses fora do Japão.

      Foto de Wilfredor Domínio Público

      E, no entanto, fervilhando em São Paulo, elas se unem com uma sinergia fascinante. O mix cultural de influências de diferentes partes do mundo são latentes na cidade. No sentido leste do centro antigo, passando por uma avenida em um local um tanto estranho, fica o bairro da Liberdade, lar espiritual de centenas de milhares de paulistanos de ascendência japonesa — sendo a maior comunidade fora do território japonês. 

      Sigo para lá com Fernando Filet, um guia turístico alto e bronzeado que me conduz sob postes de luz vermelhos em formato de lanternas de papel, ao estilo japonês. O emaranhado de ruas de Liberdade não comporta a multidão de pedestres comprando pastéis e bolinhos com tema da Hello Kittyyakitori (espetinhos de peixe amazônico), então os vendedores se espalham por um viaduto.

      Olhando para o trânsito lá embaixo, Fernando compartilha uma descrição do falecido chef de cozinha e apresentador de programas de viagem, Anthony Bourdain, que visitou São Paulo enquanto filmava seus programas No ReservationsThe Layover. “Ele disse: ‘São Paulo parece que Los Angeles vomitou em Nova York’”. Fernando cita isso para todos os seus clientes porque Bourdain — que amava a cidade — tinha razão

      Não é comum ouvir hinos de bossa nova sobre as avenidas que se cruzam e as ruas grafitadas que se espalham a partir da Liberdade. Elas são funcionais, mas divertidas e misturadas, que se expandem a outras influências com cheiro de trattorias italianas, na Bela Vista/Bexiga, e barraquinhas de falafel libaneses, na região do Paraíso. 

      Então, conforme nos aproximamos da ampla e movimentada Avenida Paulista, as ruas ganham um ar mais sofisticado. Flanqueada por torres brutalistas de design audacioso, a Av. Paulista tem um caráter retrô e uma beleza peculiar que me agrada. Fernando aponta para um prédio estiloso dos anos 1970, projetado pelo renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que se alarga sobre a calçada como uma calça boca de sino.

      O edifício do Masp (Museu de Arte de São Paulo), criativo projeto de Lina Bo Bardi, ...

      O edifício do Masp (Museu de Arte de São Paulo), criativo projeto de Lina Bo Bardi, visto da Av. Paulista, um dos pontos turísticos mais conhecidos de São Paulo. 

      Foto de Eduardo Ortega Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubrind
      O Museu de Arte de São Paulo (Masp), projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, que imigrou ...

      O Museu de Arte de São Paulo (Masp), projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, que imigrou da Itália para o Brasil no final da década de 1940.

      Foto de André Klotz

      Mas eu prefiro o Museu de Arte de São Paulo (Masp), na rua, uma gigantesca caixa de vidro erguida no ar por robustas pernas de concreto pintadas de um vermelho vibrante. Quando sua arquitetaLina Bo Bardiimigrou da Itália para o Brasil no final da década de 1940, ela trouxe o modernismo italiano e a noção de espaços públicos de convivência. "Ela era uma mulher do povo", diz Fernando. 

      Na praça, emoldurada pelas pernas vermelhas do Masp, o espírito comunitário e artístico é palpável, repleto de skatistas com seus aparelhos de som portáteis e famílias passeando. Fernando me convida a subir até a vasta galeria de vidro no teto, onde encontramos expostas pinturas de artistas mundialmente renomados, como Modigliani e Picasso, convivem com artistas brasileiros emergentes, suas obras protegidas por vidro e fixadas em bases de concreto. De lá, podemos espiar através das paredes de vidro e observar o sol do fim da tarde se encontrar com o horizonte.

      Barra Funda, o bairro industrial que se tornou “cool” internacionalmente


      Eu poderia passar uma semana me deliciando com museus grandiosos como o Masp, mas prometi aos meus novos amigos do kizomba que daria uma olhada na cena da Barra Funda, ao norte do centro, e o 3º bairro mais "cool" do mundo pelo ranking global da revista britânica “Time Out” em 2025.

      Numa manhã ensolarada, passei entre seus charmosos terraços de estuque pintado. Há uma loja de antiguidades sob um toldo profundo e uma padaria decorada com azulejos que vende pastéis de nata portugueses. Uma maritaca verde-elétrica assobia do ombro de um senhor enquanto entro na Galeria HOA.

       Galeria HOAprimeira galeria de arte do Brasil pertencente a pessoas negras, está determinada a mudar a narrativa da arte latino-americana, do colonial para o pessoal, o experimental e o revolucionário. Lá dentro, a atmosfera é mais vibrante do que lá fora, com pinceladas intensas e vídeos pulsantes. 

      mesmo acontece com a Mendes Wood, na esquina — uma galeria de arte onde salas amplas e imponentes te cativam e te prendem com instalações que exploram a negritude e a alteridade, por artistas brilhantes que finalmente encontram um palco. Aliás, há uma galeria a cada 500 metros — e, a julgar pela mistura de idiomas que ouço, visitantes vêm de todos os lugares para apreciá-las.

      A pandemia de covid-19 teve um impacto positivo inesperado neste bairro, antes conhecido por seus imigrantes sul-coreanos e pela indústria. A vida doméstica migrou para as calçadas e, quando a cidade reabriu, restaurantes, bares e galerias se instalaram nos antigos armazéns vazios da região. As pessoas perceberam. 

      Na Rua Barra Funda, observo os jovens, bonitos e tatuados entrarem no Mescla, um restaurante com mesas comunitárias e um chef boliviano que experimenta culinária cubana, andina e mediterrânea. Numa região repleta de bares de vinho, todos forram o estômago aqui.

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        A Pinacoteca de São Paulo fica dentro do Parque da Luz, o mais antigo da cidade ...

        A Pinacoteca de São Paulo fica dentro do Parque da Luz, o mais antigo da cidade e abriga obras clássicas e também de novos artistas brasileiros e latino-americanos em um belo prédio histórico.

        Foto de Wilfredor CC BY-SA 4.0

        A Pinacoteca de São Paulo vale a visita tanto pela arte quanto pelo parque



        Siga para o Jardim da Luz, também no centro antigo de São Paulo, mas em direção ao norte da cidade. Passeie pela vegetação exuberante antes de ir ao histórico museu Pinacoteca, com sua bela fachada de tijolos cor-de-rosa, que abre às 10h. As engenhosas clarabóias e pontes de aço flutuantes foram adicionadas pelo arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha na década de 1990. O museu destaca artistas contemporâneos como Sonia Gomes — e um Picasso que foi roubado em um famoso assalto.

        Para quem quer mergulhar na arte afrodescendente, conhecer o Museu Afro Brasil é essencial, que fica no Parque do Ibirapuera. Do outro lado, ergue-se o imponente Monumento às Bandeiras, em granito. A obra foi esculpida pelo lendário escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret para homenagear os indígenas e os escravizados que trabalharam arduamente para os colonizadores portugueses durante a exploração do interior do Brasil.

        A Av. Paulista pulsa diversidade e arte, especialmente aos domingos, em que fica aberta aos pedestres ...

        A Av. Paulista pulsa diversidade e arte, especialmente aos domingos, em que fica aberta aos pedestres de uma São Paulo que é grande e a cidade mais populosa do Brasil, abrigando uma impressionante população de 12 milhões de pessoas.

        Foto de André Klotz

        A aula de história continua no Museu Afro-Brasil. O hall de entrada é dedicado ao fundador do museuEmanoel Araújo, também renomado escultor, famoso por criar totens gigantescos em aço plissado. Entre os artefatos expostos no andar superior, encontram-se a reconstrução parcial de um navio negreiro e pinturas e esculturas modernas de alguns dos 100 milhões de afrodescendentes do Brasil.

        Naquela noite, voltei à Casa de Francisca para assistir ao rapper Dino D’Santiago, um artista português de ascendência cabo-verdiana, incendiar a multidão, levando-a a um êxtase absoluto com os braços balançando. “Estamos arrasando!”, disse Nástio, quando consegui ouvi-lo novamente. A multidão entrou em perfeita sincronia para a dança"

        ** Publicado na edição de abril de 2024 da National Geographic Traveller (Reino Unido).

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