Além de Machu Picchu: descubra as 5 maravilhas menos conhecidas no Peru
Para além da Trilha Inca (que tem Machu Picchu, o Vale Sagrado e Cusco), estes outros destinos revelam um lado do país que muitos visitantes desconhecem. Cidades vulcânicas, aldeias em desfiladeiros, lagos sagrados e refúgios na selva estão no roteiro.

Nascer do sol no Lago Titicaca visto da colina de Huajsapata, em Puno, no Peru.
A maioria dos viajantes que visitam o Peru pela primeira vez segue direto para a Trilha Inca, Vale Sagrado e Machu Picchu, talvez fazendo uma pausa na bela capital Lima, para saborear um bom ceviche fresco, mas raramente se aventuram além.
No entanto, para além dos caminhos mais famosos internacionalmente, existe uma grande variedade de cidades e paisagens ainda pouco conhecidas no Peru — uma riqueza de belezas naturais e históricas, que vai de vulcões nevados e cânions escarpados a ilhas flutuantes e também, o lago navegável mais alto do mundo.
“Como peruano, acredito que a magia do Peru reside não apenas em seus locais icônicos, mas também em cidades menores e paisagens remotas onde as tradições prosperam e ainda moldam o cotidiano. Onde os viajantes podem ir além dos roteiros tradicionais, explorando o patrimônio histórico, a cultura rural e as práticas agrícolas seculares que permanecem vivas”, afirma Lorenzo Masías, diretor comercial da Andean, uma empresa familiar de turismo especializada em viagens imersivas pelo Peru.
Conheça,a seguir, cinco destinos que não apenas oferecem encontros autênticos, experiências sustentáveis e uma conexão mais profunda com o país, como também ajudam a combater o turismo excessivo (de massa) no Peru.
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Como alternativa à visita a Machu Picchu, os viajantes podem optar por explorar outros lugares no Peru, como Arequipa, cercada por cinco vulcões e lar do Mosteiro de Santa Catalina.
1. Arequipa, a bela “Cidade Branca” do Peru
A segunda maior cidade do Peru, Arequipa é cercada por cinco vulcões, com o cone nevado de El Misti dominando a paisagem. A luz do sol reflete na pedra sillar branca (um tipo de rocha vulcânica) que define a arquitetura colonial da cidade, conferindo-lhe o título de "Cidade Branca" e o reconhecimento como Patrimônio Mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
Em seu centro, a pitoresca Plaza de Armas, uma praça pública, é emoldurada por palmeiras e elegantes varandas com arcadas. Em sua extremidade norte ergue-se a Basílica Catedral, uma obra-prima neoclássica que é toda esculpida em pedra sillar.
Também no centro de Arequipa, se encontra a Igreja de La Compañía de Jesús, datada de 1590, é adornada com intrincadas esculturas barrocas mestiças — uma fusão da arte europeia e indígena que se estende por toda a sua fachada.
Percorra as ruas estreitas e calcetadas, pintadas em vibrantes tons de cobalto, terracota e açafrão, passando por conjuntos de celas de freiras, claustros e pátios floridos no Mosteiro de Santa Catalina, uma extensa cidadela murada frequentemente descrita como uma cidade dentro de outra cidade. Já o convento de Santa Teresa, ainda em funcionamento, funciona também como um museu vivo, exibindo séculos de arte sacra e, ao mesmo tempo, mantendo o ritmo da vida monástica.
Faça uma viagem no tempo no claustro do século 16 transformado no hotel CIRQA Relais & Châteaux, com suas paredes de pedra vulcânica, tetos abobadados e lustres de ferro forjado. O aroma de palo santo perfuma os corredores. O terraço na cobertura, sombreado por toldos brancos, oferece vistas deslumbrantes do horizonte histórico e dos vulcões ao redor, que brilham ao entardecer.
Nas proximidades, o Mercado San Camilo captura o ritmo da vida cotidiana. Seus corredores transbordam de tecidos de alpaca feitos à mão, chapéus de palha do sul do Peru e estatuetas de Ekeko, o deus andino da abundância, que carrega mercadorias em miniatura simbolizando prosperidade. As barracas estão repletas de produtos locais: pirâmides de frutas amazônicas, feixes de ervas medicinais e uma variedade impressionante das 4 mil variedades de batata do Peru.

No coração da cidade de Arequipa, na Plaza de Armas, está localizada a Basílica Catedral de Arequipa, toda feita em pedra sillar branca (uma pedra vulcânica) que é muito característica da arquitetura da cidade, que lhe rendeu reconhecimento da Unesco.
As tradições culinárias de Arequipa refletem a riqueza da cidade. Entre os pratos clássicos estão o rocoto relleno, um pimentão vermelho picante recheado com carne e queijo; os camarones al estilo arequipeño, lagostins de rio preparados em ensopados substanciosos ou ceviche quente; e a sobremesa favorita da cidade, o queso helado, um doce gelado de queijo aromatizado com canela e coco, batido à mão em barris de madeira e servido nas praças.
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2. Yanque, cidade escondida entre as montanhas andinas
Chegar à cidade andina de Yanque exige uma longa viagem de carro ou ônibus pela Rodovia Pan-Americana, estrada que serpenteia pelas montanhas das Cordilheiras dos Andes e sobe por rotas que ultrapassam os 4.800 metros de altitude.
A estrada se desdobra em trilhas em ziguezague que atravessam vilarejos remotos, passando por antigo terraços esculpidos pelos Incas, cultivados com batatas, quinoa e milho.
Em 1934, o geologista e Explorador da National Geographic, Robert Shippee, descreveu Yanque como uma “cidade quase esquecida no mundo”, e a descrição ainda se mantém verdadeira: uma praça tranquila, algumas lojas e o silêncio quebrado apenas pelo vento que sopra pelo vale.
Sua joia da coroa é o Cânion do Colca — um dos desfiladeiros mais profundos do mundo, moldado por penhascos esculpidos pelo vento e pela chuva, terra marcada e picos nevados distantes.
Ao amanhecer, siga para os mirantes próximos a Cruz del Cóndor para observar um dos espetáculos mais icônicos do Peru: o voo do condor andino, ave reverenciada por seu significado espiritual, servindo como mensageira entre a terra e o céu. Essas aves imensas, com envergadura de até 3,2 metros, planam em correntes térmicas e deslizam silenciosamente entre as paredes do cânion.
Embora a maioria dos viajantes parta ao meio-dia, pernoitar revela os ritmos mais profundos do Vale do Colca. Nos arredores da cidade, o Puqio, o primeiro acampamento de luxo com tendas do Peru, combina charme rústico com design andino. Tendas de lona feitas com materiais locais se abrem para vistas deslumbrantes do rio e do vale.
Os interiores contam com banheiras de folhas de eucalipto para aliviar os músculos cansados da altitude, lareiras para as noites frescas da montanha e refeições à base de quinoa vermelha cultivada a poucos passos de distância. O pôr do sol banha as paredes do cânion em tons mutáveis de âmbar e violeta, enquanto os picos de Ampato e Sabancaya vigiam no horizonte.
Yanque continua sendo um lugar onde o tempo se estende, onde os condores planam livremente sobre vales em terraços e onde o silêncio da natureza parece tão imponente quanto os próprios picos.

O vasto Cânion do Colca, no Peru, em Arequipa, ao sul de Lima, é o segundo desfiladeiro mais profundo do mundo e dá origem ao poderoso Rio Amazonas. O cânion, que atinge profundidades de 3.387 metros e se estende por mais de 96 Km nas terras altas vulcânicas do Peru, é uma formação natural extraordinária.
3. Ayaviri: tradição e natureza única nos cânions do altiplano peruano
Aninhado nos altos planaltos do altiplano, perto da cidade Ayaviri, o Cânion Tinajani revela uma paisagem surreal entre os grandes destinos do Peru. Aqui, imponentes formações de arenito vermelho, com 75 mil anos de idade, erguem-se dramaticamente contra o vasto céu andino.
A mais de 4 mil metros acima do nível do mar, o cânion abriga raros bosques de Puya raimondii, a maior bromélia do mundo, que floresce apenas uma vez por século antes de morrer.
Durante séculos, xamãs viajaram até Ayaviri para realizar cerimônias, aproveitando a poderosa energia do cânion. Hoje, seus anfiteatros naturais convidam à meditação, à prática de yoga e a banhos de tranquilidade na floresta, cercados por penhascos que brilham em tons carmim ao pôr-do-sol e vales que se dissolvem em céus estrelados à noite.
Situada em uma reserva natural privada de 50 hectares ao longo da rota que liga Cusco, Puno e o Vale do Colca, o hotel Tinajani é uma fazenda histórica adornada com relíquias de família e complementada por luxuosos alojamentos em tendas que oferecem conforto moderno.
Telhados de lona protegem pisos de madeira e lareiras, enquanto as refeições tradicionais peruanas que incluem produtos locais, assados e ensopados típicos da fazenda. Os dias se desenrolam com caminhadas guiadas pelo cânion, passeios panorâmicos pelo Altiplano ou simplesmente contemplando as sombras em constante movimento.

Para uma escapadela mais serena no Peru, viaje para fora de Puno e encontre uma atmosfera mais tranquila no Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo.
4. Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo
Para além da agitação da cidade de Puno, estende-se a imensidão do Lago Titicaca — o lago navegável mais alto do mundo, e também enorme, com 8.300 Km², aproximadamente o tamanho da cidade de Porto Rico. Suas águas profundas e turquesas cintilam sob os picos nevados dos Andes ao fundo, enquanto os juncos balançam ao longo da margem, proporcionando habitat e sustento.
O lago abriga as ilhas flutuantes de Uros, mais de 130 plataformas artificiais construídas inteiramente com camadas de junco totora. Visite famílias indígenas que se sustentam há séculos e observe-as tecer suas casas, barcos e seu cotidiano com as gramíneas que crescem nas águas rasas.
Um curto passeio de barco até a Ilha de Taquile, uma paisagem cultural reconhecida pela Unesco, revela caminhos de pedra que levam a plantações em terraços onde se cultivam batatas e quinoa. Os moradores, com seus trajes ricamente bordados, mantêm vivas as tradições transmitidas de geração em geração.
Chapéus e xales de tecido diferenciado revelam status social, papéis na comunidade e até intenções matrimoniais, tornando os têxteis uma linguagem viva de identidade. Do alto das colinas, vistas panorâmicas se estendem pelos jardins de flores de trombeta até a luminosa imensidão do lago.
No hotel Titilaka, quartos elegantes oferecem uma vista tranquila que contrasta com a energia de Puno. Passe os dias praticando caiaque no Lago Titicaca em enseadas rodeadas de juncos, caminhando por trilhas para observação de pássaros ou nadando nas águas cristalinas e revigorantes.
À noite, uma boa opção é participar de um drinque ao pôr do sol no gramado, desfrute de um jantar requintado com vista para o lago e faça uma observação guiada das estrelas.
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5. Nauta: o coração da selva, onde nasce o rio Amazonas
No coração da selva do norte do Peru, encontra-se Nauta, uma pequena cidade ribeirinha na região de Loreto que serve como porta de entrada para a Amazônia, com ares de cidade fronteiriça – é onde nasce o rio Amazonas e faz fronteira com o Brasil.
Casas de madeira coloridas alinham-se em ruas estreitas, mototáxis zumbem em frente a mercados a céu aberto e a vida gira em torno da água.Nos arredores da cidade, os rios Marañón e Ucayali se encontram para formar o Amazonas, um ponto de encontro impressionante que marca o berço simbólico do maior sistema fluvial do mundo.
Do Malecón (calçadão à beira-rio) de Nauta, observe os barcos de pesca deslizando pelas correntes e embarque nos cruzeiros da Delfin Amazon Cruises, uma das operadoras de cruzeiros de luxo do Peru que trabalha em parceria com comunidades isoladas para ajudar a preservar tradições e construir meios de subsistência sustentáveis.
“Nossa resposta natural foi criar um mecanismo de mudança — o que agora chamamos de Programa BioRest (Restauração Biocultural) — para restaurar a biodiversidade, proteger os recursos nativos para as futuras gerações e incorporar o conhecimento ancestral à “conservação moderna”.
“Queremos que cada viajante que se junte a nós participe de um ciclo vivo de conservação e cultura, onde os meios de subsistência permaneçam em harmonia com a floresta e seus habitantes, e onde esperamos continuar inspirando colaborações extraordinárias”, afirma Aldo Macchiavello, fundador da Delfin.
Seus barcos-boutique são projetados com janelas panorâmicas e decks abertos, oferecendo vistas deslumbrantes da selva amazônica enquanto se aventuram pelas profundezas da Reserva Nacional Pacaya-Samiria, uma área protegida de 8.030 Km² conhecida como a “selva dos espelhos” por suas lagoas de água negra cristalina que refletem a copa das árvores.
Os cruzeiros de três e quatro noites incluem excursões para observar botos-cor-de-rosa, caminhadas guiadas por florestas alagadas repletas de macacos e araras, e safáris noturnos para ouvir o coro de rãs e insetos sob um céu estrelado. A experiência combina conforto com exploração, oferecendo acesso privilegiado a um dos cantos mais biodiversos do planeta.
Saia dos roteiros turísticos tradicionais do Peru e explore cidades e paisagens pouco conhecidas para uma experiência enriquecedora que deixará uma marca memorável em você e, potencialmente, nos lugares e pessoas que você visitar ao longo do caminho.
** Sucheta Rawal é escritora de gastronomia e viagens, palestrante, fundadora da Go Eat Give e autora de uma série de livros infantis sobre viagens.