Coisa de rico? Por que o silêncio se tornou o maior luxo da atual "era do barulho"
Desde caminhadas silenciosas até arquitetura que atenua o ruído, veja como indivíduos e cidades estão reagindo ao barulho da vida moderna — um decibel de cada vez.

Pessoas leem em silêncio e em comunhão em um evento do Reading Rhythms no FourFiveSix, um bar no Brooklyn, em Nova York, em 4 de dezembro de 2023.
A trilha sonora da vida moderna está chegando ao seu ápice, desde o rugido do trânsito e dos sopradores de folhas até os telefones celulares transmitindo vídeos 24h por dia. Essa cacofonia avassaladora tem levado muitas pessoas a buscar uma paisagem sonora cada vez mais difícil de encontrar: o silêncio.
“Não acho que estejamos preparados para a quantidade de ruído a que estamos expostos ou para a sobrecarga de estímulos”, afirma a psicóloga Olga Lehmann, radicada na Noruega, cujo trabalho se concentra no silêncio. A superexposição à poluição sonora — particularmente sons acima de 85 decibéis, aproximadamente o nível de um restaurante barulhento, por exemplo, pode levar à perda auditiva, hipertensão, estresse e insônia.
Algumas pessoas escapam da agitação viajando em busca de silêncio, mas momentos de tranquilidade em casa são igualmente cruciais. “Pequenos momentos de silêncio no dia a dia podem nos ajudar a regular o estresse e nos tornar menos impulsivos”, afirma Lehmann, observando que seu objetivo não é abafar completamente o ruído da vida.
Trata-se de encontrar um equilíbrio entre a paz e o caos da vida cotidiana — e isso está se tornando mais alcançável à medida que um crescente movimento que busca incorporar o silêncio em diferentes partes de nossas rotinas.

Um homem mergulha do penhasco no McDonald Creek, no Parque Nacional Glacier, um dos parques norte-americanos que pode ser certificado como um Wilderness Quiet Park (Parque Silencioso Selvagem) - um refugio de silêncio.
Uma contracultura silenciosa
Poucas tendências demonstraram a crescente busca por silêncio, principalmente entre as gerações mais jovens, como a caminhada silenciosa, um fenômeno que viralizou no TikTok no ano passado, com criadores de conteúdo elogiando o valor de caminhar sem distrações — sem podcasts, música ou telefonemas. Apesar das críticas das gerações pré-smartphones, a popularidade generalizada da atividade ressalta o quanto os nativos digitais anseiam por uma pausa do ruído.
Alguns buscadores de silêncio adotam medidas mais drásticas, como meditações silenciosas de vários dias ou retiros na escuridão. Este último ganhou força significativa após a experiência do jogador quarterback da NFL, Aaron Rodgers, que foi para um retiro no Sky Caves Retreat, no Oregon, Estados Unidos.
Essas experiências de privação sensorial vão além da audição; elas emergem os participantes na escuridão total e em quase isolamento por vários dias, com o objetivo de autodescoberta e introspecção. Lehmann afirma que opções extenuantes funcionam para alguns, "mas eu prefiro começar com pequenos desafios".
Pode ser algo tão simples quanto sentar em um parque, museu ou biblioteca local, sem usar tecnologia, por 10 minutos, ou participar de uma aula de meditação ou yoga — ou, melhor ainda, yoga silenciosa. Independentemente da prática, um momento de silêncio não significa necessariamente isolamento. "Estamos vivendo uma pandemia de desconexão e solidão", comenta Lehmann. "É o que eu chamaria de lado sombrio do silêncio."
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Socializar em silêncio… Por que não?!
Felizmente, muitos que buscam tranquilidade a combinam com a comunidade. Organizações como a Peace in the Wild, sediada no estado norte-americano da Geórgia, que conecta entusiastas da natureza por meio de atividades recreativas ao ar livre, transformaram caminhadas silenciosas em uma atividade meditativa em grupo.

Uma mulher pratica ioga no Parque Nacional da Arrábida, em Portugal. À medida que a busca por equilíbrio em um mundo ruidoso aumenta, mais pessoas se voltam para práticas silenciosas compartilhadas, como leitura silenciosa, meditação e espaços com redução de ruído
O Clube do Livro Silencioso, que reúne leitores para lerem juntos durante uma hora sem conversar, teve um aumento significativo de popularidade recentemente graças a comunidades nas redes sociais como BookTok e Bookstagram.
"Nós o chamamos de happy hour dos introvertidos", diz Guinevere de la Mare, cofundadora do grupo, que possui mais de 1 mil capítulos em 50 países. "Os clubes do livro silenciosos surgiram como uma forma de interagir com outras pessoas de maneira descontraída e sem pressão após a pandemia."
Apesar do nome, os eventos do Clube do Livro Silencioso não são totalmente silenciosos. Seus locais de encontro, geralmente cafés locais, têm seu próprio ruído — mas alguns cafés silenciosos no Japão mostram que cafés barulhentos não precisam ser a norma.
O mais recente, o novo café silencioso Shojo em Osaka, é administrado em grande parte por pessoas surdas ou com deficiência auditiva. O local promove um ambiente tranquilo e silencioso; os clientes usam linguagem de sinais, escrita à mão e gestos para fazer seus pedidos.
Locais com pouco ruído são mais difíceis de encontrar nos Estados Unidos, mas não impossíveis. A rede de cafés Starbucks, por exemplo, anunciou recentemente a instalação de painéis acústicos no teto, conhecidos como baffles, em mais de 1 mil lojas.
A plataforma norte-americana Soundprint, semelhante ao Yelp para restaurantes silenciosos, permite que os usuários meçam e compartilhem os níveis de som em estabelecimentos, de cafeterias a casas noturnas, em todo o mundo. Mais de 1 mil locais de encontro com níveis de ruído medidos aparecem em seu mapa global, classificados de silenciosos (abaixo de 70 decibéis) a muito barulhentos (acima de 81 decibéis).
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Melhorando as paisagens sonoras da cidade
Desintoxicações digitais e refúgios tranquilos só resolvem parte do problema, especialmente em cidades barulhentas, onde vive mais de 50% da população mundial. A Organização Mundial da Saúde apontou a poluição sonora como um dos principais fatores ambientais desencadeadores de problemas de saúde, perdendo apenas para a poluição do ar.
Esse é um fato que não surpreende, visto que os habitantes urbanos estão cronicamente expostos a ruídos acima de 85 decibéis. Além disso, o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos estima que a poluição sonora mais que dobra a cada 30 anos — e está crescendo mais rápido do que a população do país.
“O principal problema nas cidades é sempre o ruído do tráfego rodoviário; é por isso que muitas pessoas estão defendendo a ideia de veículos elétricos”, afirma Francesco Aletta, arquiteto, planejador de som urbano e professor da University College London.
Os veículos elétricos são significativamente mais silenciosos do que os carros movidos a combustíveis fósseis em velocidades mais baixas em áreas residenciais. Nas rodovias, onde o ruído vem dos pneus, as autoridades municipais estão adotando tecnologias mais silenciosas para o asfalto, afirma Aletta.
Infelizmente, a ação em nível governamental exige tempo e é burocrática — principalmente em lugares como os Estados Unidos, onde a pesquisa sobre exposição ao ruído ainda é pouco estudada e pouco regulamentada. Mas as cidades estão mostrando pequenos sinais de progresso.
No ano passado, a Câmara Municipal de Nova York instalou câmeras de ruído para monitorar veículos que ultrapassam o limite de 85 decibéis da cidade. Regras que limitam o uso de sopradores de folhas a gasolina barulhentos estão tornando mais silenciosas as áreas urbanas e suburbanas em todo o país, de Washington, D.C. a Portland, Oregon.
A vegetação também pode desempenhar um papel importante. O plantio de fileiras de árvores em rodovias reduz o ruído em até 12 decibéis. E paredes verdes, como a fachada com 30 mil plantas de um prédio comercial em Düsseldorf, na Alemanha — a maior fachada verde da Europa — absorvem o ruído e minimizam o calor urbano.
Uma tecnologia que Aletta prevê que continuará a atender à demanda da sociedade por silêncio: dispositivos vestíveis, como o Apple Watch, que alertam os usuários sobre os níveis de ruído ambiental.
"No momento em que você começa a monitorar e a se conscientizar, você age", afirma ele, observando avanços recentes, como a aprovação de uma lei no País de Gales para proteger as paisagens sonoras juntamente com o ar limpo, o que lhe dá esperança. "Considero esses tipos de políticas e essas novas leis um bom sinal de que a maré está mudando."